Sacerdote angolano integrou a edição deste ano do curso de Proteção de Menores da Pontifícia Universidade Gregoriana

Foto: Agência ECCLESIA/MC

Lisboa, 21 fev 2019 (Ecclesia) – O padre angolano Joaquim de Almeida, que participou em Roma no mais recente curso sobre Proteção de Menores, da Pontifícia Universidade Gregoriana, destacou hoje a mudança de paradigma expressa na cimeira sobre abusos sexuais convocada pelo Papa Francisco.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, o sacerdote ligado aos Missionários do Espírito Santo realçou a importância de centrar “a luta da Igreja Católica primeiro no bem das vítimas e não na imagem da instituição”, o que “durante muito tempo” não aconteceu.

“Se calhar uma das coisas que mais contribuiu para a perpetuação dos problemas foi sobrevalorizar a imagem da instituição, da Igreja Católica, em detrimento do bem das pessoas que foram vítimas, que foram abusadas”, reforçou o padre Joaquim de Almeida, que espera que a cimeira “produza os frutos desejados”.

Para o sacerdote espiritano, é fundamental antes de mais “que todos os participantes da cimeira”, os responsáveis das conferências episcopais de todo o mundo, “sintam a gravidade dos abusos sexuais, as consequências que têm para as vítimas”.

Um dos pontos que marcam o encontro no Vaticano é a possibilidade de os participantes falarem também com algumas pessoas vítimas de abusos sexuais por parte de membros da Igreja Católica.

“Espero que aqueles que estão no Vaticano para esta cimeira vejam isto, e sobretudo que valorizem a vida destas pessoas, destas vítimas”, salientou o padre Joaquim de Almeida.

Atualmente a trabalhar na Província dos Missionários do Espírito Santo em Angola, mais concretamente na Missão Católica de Chinguar, na Diocese de Kuito Bié, o padre Joaquim Kapango de Almeida integrou recentemente em Roma o quarto curso sobre Proteção de Menores promovido pela Pontifícia Universidade Gregoriana.

Em termos pastorais, grande parte do trabalho dos missionários espiritanos no território está ligado “à primeira evangelização”, mas também ao “ramo da educação” de crianças e jovens, e nesse sentido a problemática dos abusos tem sido sempre uma preocupação.

“Nós somos pioneiros em termos da criação de políticas claras, da elaboração de um documento para os membros da congregação e todos aqueles que trabalham connosco, nas nossas instituições”, realçou o padre Joaquim de Almeida, que participou no referido curso no Vaticano “sobretudo na perspetiva de ser alguém preparado para aprofundar mais esta temática e ajudar”.

O sacerdote angolano considera que é essencial olhar para esta questão de forma mais “interdisciplinar” e abrangente, tendo em conta não só os abusos sexuais, mas também “situações de abandono, de negligência e todo o tipo de maltratos, de tráfico de menores”, e os “adultos vulneráveis” ou mais dependentes.

“Segundo, é preciso olhar na perspetiva de que esta é uma questão humana, não é de um país, de uma nação, é um problema do mundo inteiro. É um problema da sociedade e que também afeta a Igreja”, recordou o padre Joaquim de Almeida.

No que diz respeito à forma como o esforço do Papa Francisco, em lidar com os casos de abusos sexuais, tem interpelado a congregação dos Missionários do Espírito Santo, o mesmo responsável salienta que a análise interna à existência deste género de casos, “tem sido feita” e foi esse processo que esteve na origem da elaboração do “documento orientador”, das diretrizes que referiu.

“A questão dos abusos é abordada constantemente em todos os nossos encontros, e há sempre um período de avaliação de como é que as políticas que foram traçadas estão a ser implementadas, ou não, nas nossas comunidades, nas Missões que nos estão confiadas e especialmente naquelas áreas pastorais onde o perigo é maior, sobretudo nas escolas que dirigimos e onde trabalhamos”, descreveu o padre Joaquim de Almeida.

De acordo com o sacerdote, a análise tem sido “positiva”, embora tenham surgido “casos que envolvem por exemplo excessos de rigor” ou de “uso da força física inapropriada, em relação a alunos”, por parte de elementos que trabalham na congregação e lidam com os mais novos.

Numa visão mais direcionada para o continente africano, o padre José de Almeida destacou a questão “cultural” como um dos aspetos que mais pode dificultar o trabalho da Igreja Católica, em matéria de abusos.

“Uma rapariga que cresce num ambiente como este dificilmente conseguirá dizer que está a ser forçada, a casar por exemplo aos 16 anos, porque os pais assim o desejam, com este ou aquele homem. Entra-se neste esquema por motivos culturais, sem consciência dos direitos que se tem ou de que se está a ser vítima de abuso”, exemplifica o sacerdote espiritano.

Que lembrou ainda que toda esta envolvente cultural, ou tradicional, faz com que escasseiem também as estruturas às quais as pessoas podem recorrer, em caso de abuso sexual.

“As pessoas não sabem onde apresentar queixa, aonde e a quem é que se podem dirigir, não sabem com quem falar, é a questão da vergonha. Tudo isto faz com que muitas coisas que vão acontecendo fiquem sem conhecimento, porque as pessoas não falam, não denunciam”, lamentou o missionário espiritano, para quem a cimeira do Vaticano tem de ser um ponto de viragem.

Para bem da Igreja Católica, da sociedade, mas sobretudo para bem da humanidade, da preservação da dignidade de cada pessoa.

“Alguém que passa por uma situação de abuso sexual, as consequências são tão devastadoras que a pessoa passa a ser uma sobrevivente. Porque por outras situações ela podia ter morrido, desaparecido, como muitas acabaram por morrer, por cometer suicídio, acabaram por ter uma vida destruída, quase sem reparação possível”, referiu o padre Joaquim de Almeida.

O quarto curso sobre Proteção de Menores da Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, decorreu durante seis meses com a participação de sacerdotes, religiosos e leigos provenientes de vários países e continentes, como Angola, Zâmbia, África do Sul, Taiwan, Coreia do Sul e Polónia, da região da Oceânia.

JCP

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