5º Domingo da Páscoa – A 

Missa de ação de graças pela beatificação da Irmã Maria Clara do Menino Jesus

Sé Patriarcal de Lisboa, 22 de maio de 2011

 

1. É-me muito grato estar hoje nesta Sé Patriarcal de Lisboa a presidir à celebração desta Santa Missa de ação de graças pela beatificação da Irmã Maria Clara do Menino Jesus, fundadora da Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição.

Antes de mais nada, agradeço a Sua Eminência o Senhor Patriarca por me conceder este privilégio. Muito obrigado também ao Reverendíssimo Cónego Luís Pereira da Silva, Pároco da Sé, e aos seus colaboradores por me acolherem nesta Igreja Matriz do Patriarcado.

Saúdo a Madre Maria da Conceição Galvão Ribeiro, Superiora Geral das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, as suas Conselheiras e todas as suas Irmãs, agradecendo-lhes este convite que tanto me honra.  

 Saúdo fraternalmente os irmãos sacerdotes, as pessoas consagradas, os caros seminaristas, todos os fiéis leigos – as famílias, as crianças, os doentes e anciãos, de maneira especial os que, nos diferentes lugares, aqui em Portugal e noutros países, são atendidos pelas Irmãs Franciscanas Hospitaleiras. A todos e a cada um transmito a proximidade, as saudações mais afetuosas e a Bênção Apostólica do Santo Padre o Papa Bento XVI.

Todos nós temos ainda nos olhos e no coração a alegria e a emoção do solene rito de ontem, em que o Santo Padre Bento XVI, com a Carta Apostólica lida pelo Cardeal Prefeito da Congregação das Causas dos Santos, acolhendo o pedido de Sua Eminência Dom José Policarpo, Patriarca de Lisboa, proclamou Beata a Irmã Maria Clara do Menino Jesus. E todos, cheios de júbilo, repetimos cantando: Aleluia! Aleluia! Aleluia!

Hoje, com o mesmo júbilo, repetimos: Deo Gratias! – Graças a Deus! -, desejando que esta Eucaristia seja a expressão maior do amor que o nosso coração de filhos e filhas quer prestar ao Pai, pela graça que Ele acaba de conceder à Santa Igreja, à Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, a Portugal e ao mundo. Sim, estamos reunidos nesta Igreja Catedral para dar graças ao Pai das misericórdias pela glorificação dessa extraordinária figura de mulher e de cristã.

E, neste momento feliz, queremos fazer-nos eco daquele sentimento de júbilo, gratidão e encantamento que a contemplação da misericórdia divina despertava no coração da Beata Maria Clara e transbordava em suas palavras e gestos: «Como Deus é bom! Deus seja bendito!».

Eis o grito que hoje parte a cada instante dos nossos corações ao Céu!

 

2. A Palavra de Deus proclamada e proposta à nossa reflexão neste 5º Domingo da Páscoa desenha a comunidade cristã como: um corpo vivo que se organiza através do assumir, pelos seus membros, de diversas tarefas, tais como o serviço da caridade, da palavra e do culto (Primeira Leitura); um povo sacerdotal, cujos membros são pedras vivas do edifício eclesial, que tem como pedra angular Cristo ressuscitado (Segunda Leitura); um grupo unido que peregrina para Deus ao ritmo da história e sob a orientação de Cristo que é o Caminho, a Verdade e a Vida (Evangelho).

A imagem ideal da primeira comunidade que Lucas nos descreve no Livro dos Atos dos Apóstolos é de um otimismo sublime: os crentes viviam unidos e tinham tudo em comum; todos pensavam e sentiam o mesmo; ninguém passava necessidades…

A caridade (caritas/agape), entendida como amor fraterno, dilatação do Amor que move a vida trinitária, é o cimento que une entre si todos os membros. E, para garantir que a expressão concreta desta “caritas” chegue a quem mais precisa da ajuda da comunidade, os Apóstolos instituem o ministério eclesial do diaconado, estreitamente associado ao próprio ministério apostólico.

Desde o início, esta corresponsabilidade no interior da comunidade eclesial tem a raiz na consciência de saber-se povo eleito e chamado por Deus a servi-l’O em santidade, como povo sacerdotal que O adora em espírito e verdade, sendo a oração, o anúncio da Palavra e a caridade expressões essenciais do seu ser. Os membros deste povo sacerdotal são “pedras vivas” do edifício da Igreja, que é o templo do Espírito e cuja pedra angular, de fundação e coesão, é Cristo ressuscitado.

Juntos, todos os batizados, cada um segundo o próprio lugar, a própria vocação e missão específica, participamos da missão profética, sacerdotal e pastoral de Cristo. Todos, sob a chefia de Cristo, que é o Caminho comum para o Pai, a Verdade que O revela e a Vida que nos mantém em comunhão com Ele, somos chamados à santidade. A santidade é a vocação que nos aproxima todos do Deus três vezes Santo e nos une como irmãos, companheiros de viagem encaminhados para a mesma meta: a comunhão no único Deus-Amor.

 

3. A Beata Maria Clara do Menino Jesus, santa da caridade, apresenta-se hoje à nossa veneração e consideração como membro exemplar da Igreja e testemunha luminosa do ideal cristão.

A Beata Maria Clara encontrou o seu lugar na Igreja fazendo da sua existência terrena uma vida apaixonada de amor pelos mais pobres e necessitados, vendo, servindo, amando em cada irmão pobre, doente, desamparado o mesmo Jesus. Assim tornou-se discípula e imitadora perfeita do Senhor que deu a própria vida pela humanidade.

Como Santa Teresa do Menino Jesus, a Beata Maria Clara, tendo compreendido que «a Igreja tem um coração, um coração ardente de amor», quis ser também ela “um coração ardente de amor”, porque também compreendeu que «só o Amor faz atuar os membros da Igreja… e que o Amor encerra em si todas as vocações, porque o Amor é tudo» (cf. João Paulo II, Novo Millennio Ineunte, 42). 

Em Nota Pastoral sobre a Beatificação da Irmã Maria Clara do Menino Jesus, os Bispos portugueses escrevem:

«O espírito que a animava… ficou bem manifesto num episódio da sua vida. Um dia, ao ver grupos de adultos e crianças a mendigar, vestidos de andrajos e sob um frio rigoroso, disse às meninas que a acompanhavam: “Olhem, aquela é que é a minha gente!… Que pena tenho de não os poder socorrer!…”».

Os mesmos Pastores observam: «A intervenção da Irmã Maria Clara em diferentes domínios da área social procedia duma motivação religiosa. O seu coração de mulher franciscana enchia-se de compaixão diante do sofrimento humano e procurava aliviá-lo com o vigor da sua fé. A sua atuação aparecia como “rosto da ternura e da misericórdia de Deus”. Deus ocupava o primeiro lugar na sua vida numa atitude filial de reconhecimento. “Oh! Como Deus é bom! Bendito seja Deus!”, exclamava ela como ressonância da festa que as Irmãs lhe fizeram no seu onomástico a 12 de agosto de 1899».

A Nota dos Bispos conclui: «Na segunda metade do século XIX, apesar das grandes dificuldades que o Catolicismo português enfrentava, a Irmã Maria Clara soube manifestá-lo do modo mais criativo e fecundo, com ardente amor a Jesus e generoso serviço dos pobres. Na segunda década do século XXI, face às dificuldades acrescidas de tantos concidadãos nossos, quanto à sobrevivência condigna e ao sentido mais profundo da vida, o exemplo e a intercessão da nova Beata ser-nos-ão de grande incentivo e apoio, na mesma senda da caridade verdadeira» (CEP, Fátima, 3 de maio de 2011).

 

4. A Beata Maria Clara do Menino Jesus encarnou na sua vida, totalmente entregue ao amor a Deus e ao próximo mais necessitado, o ideal do verdadeiro discípulo de Jesus, adorador do Pai e Bom Samaritano. São inspiradoras as palavras que ela escreveu às suas Irmãs poucos meses antes da morte:

«Que felicidade, minhas caras filhas, termos sido chamadas à sublime vocação de cooperar na salvação das almas, praticando as obras de misericórdia!

Para isto são necessários sacrifícios, é preciso trabalhar. Mas quem não trabalhará de bom grado na vinha do Senhor?».

E foi assim que, na sociedade portuguesa do séc. XIX, entre contrastes e desafios, luzes e sombras, pecado e graça, se agigantou esta figura de mulher que, tendo feito de Jesus o seu “Caminho, Verdade e Vida”, se tornou capaz de acolher o sofrimento com profunda reverência, “como vindo das mãos de Deus”, e de mergulhar, destemidamente, no mundo dos homens, para nele O servir na pessoa dos pobres, dos fracos, dos desvalidos. 

Como o seu Modelo divino, também ela aprendeu a obediência através do sofrimento e se entregou ao amor misericordioso que salva e redime, no perdão e na doação de si própria, ao serviço da humanidade sofredora que quis adotar como “a sua gente”, sua família predileta.

Nesta diaconia da caridade, assumiu a missão de colaborar na restauração da imagem de Deus em cada ser humano, esquecendo-se de si própria, fazendo- -se samaritana nas estradas do mundo, de tal modo e a tal ponto que se converteu no rosto visível da ternura e da misericórdia divinas.

Um tal exemplo tem de ser para nós, hoje, interpelação e provocação.

 

A Beata Maria Clara estimula-nos a “sermos generosos para com um Deus que tão generoso tem sido para connosco”, acolhendo sem temor os inúmeros desafios que o mundo de hoje nos apresenta.

Ela estimula cada um de nós a ver mais longe, a adentrar-se no mar da realidade humana, a ultrapassar-se no jogo do amor e da ternura, neste mundo cada vez mais fechado sobre si mesmo, dominado pelo ódio, pela violência, pela opressão e exploração dos mais fracos.

Ela convida-nos a edificar a nossa casa comum sobre os alicerces dos autênticos valores humanos e cristãos, devolvendo a primazia a Deus, fonte de toda a dignidade humana e da verdadeira fraternidade entre as pessoas, os povos e as nações.

A estrada, que o desafio nos aponta, é longa e muito absorvente, mas não temamos percorrê-la.

 

A intercessão da Beata Maria Clara do Menino Jesus, junto à da Virgem Santíssima, mãe, modelo e exemplo de todo o discípulo, alcançar-nos-á de Deus a graça da mesma fé e otimismo, da mesma perseverança no amor incondicional a Deus e a toda a humanidade.

Cantemos, pois, irmãos e irmãs, as misericórdias infinitas do Senhor!

Cantemo-las, desde já, não apenas com os lábios e com o fervor que esta hora em nós suscita, mas cantemo-las, sobretudo, com a vida, em nossos gestos, palavras e atitudes.

Tornemo-nos também nós, por graça e impulso divinos, sinais visíveis de Cristo misericordioso, realmente vivo e presente no meio do Seu povo. Ámen.

 

+Rino Passigato
Núncio Apostólico

 

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