O Deus cuidador manda-nos cuidar

“O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz”.

Era esta a fórmula de bênção que o sacerdote de serviço pronunciava sobre o povo, após o sacrifício da manhã, no templo de Jerusalém. Agora, colocada como a primeira entre as leituras desta Missa, na manhã do novo ano civil, remete a nossa mente para a beleza da novidade que se inaugura no mundo, fruto da colaboração da Virgem Santa Maria com a vontade salvífica divina, e faz-nos contemplar as maravilhas de Deus, a exemplo das que os pastores viram com seus próprios olhos. Sim, no mistério do nosso Deus não se regressa ao passado, ao acabrunhante, ao velho e fora de tempo. N’Ele e com Ele somos chamados a celebrar continuamente os prodígios do seu amor, o encanto da sua presença amorosa junto de nós e a sua vontade salvífica.

Este é o plano de Deus, de que fala S. Paulo na segunda leitura, plano pelo qual a humanidade ansiava e se cumpre agora, no presépio. Passa por uma ação impagável de Deus que o Apóstolo define em termos de “resgate”, ou seja, retirar-nos do domínio do mal, dar-nos o seu Espírito, criar uma tal familiaridade que nos permita a ousadia de O chamar “paizinho” e recebermos a honra da filiação adotiva. O resgate que Deus realiza em Jesus Menino é a certeza de que a nossa vida pessoal e coletiva e mesmo a história do mundo, embora na liberdade de opção, não mais estão condenadas a desenrolar-se sob o signo do mal e da morte, mas do lado de Deus e da vida.

Ora, todo o resgate supõe duas atitudes básicas: um amor que o motiva e um custo a pagar. Neste caso, como é fácil de ver, o amor é o próprio ser de Deus: “Deus é amor” (1 Jo 4, 8). O custo é o cuidado que Deus tem por nós e pela humanidade inteira, criaturas muito, muito valiosas a seus olhos.

O cuidado. Como sabemos, hoje é também o Dia Mundial da Paz. Para esta efeméride, o Papa Francisco escreveu uma notável mensagem baseada neste tema e a que colocou o significativo título: “A cultura do cuidado como percurso de paz”. Não pretendo resumi-la, mas colher dela a grande vertente orientadora.

O cuidado para com alguém é sempre um ato de amor que exige empenho. Pensemos no exemplo máximo dos pais para com o seu bebé como, certamente, foi o caso de Maria e José na relação com Jesus. Quantas e quantas noites sem dormir; quanta preocupação e cuidado; quantos trabalhos de higiene que têm de ser feitos por mais que custe; quanto pão é preciso ganhar para que a nova boca o possa comer! Mas tudo isso se faz com uma alegria indescritível de tal forma que, criar um filho é, sem dúvida, o mais estimulante que pode acontecer. O cuidado pode custar, mas gera alegria!

Se é assim no núcleo familiar, a cultura do cuidado também se pode e deve alargar a todos os setores da sociedade. Porque Deus é Pai comum de todos, é possível, de facto, ampliar as fronteiras da família até ao círculo dos vizinhos e conhecidos; é possível encarar de frente o outro e ver nele um irmão, seja qual for a cor da pele, a raça, a religião ou a condição social; é possível olhar para os pobres, estejam perto ou longe de nós, e fazer nossas as suas angústias e misérias; é possível cultivar e guardar o jardim deste mundo que Deus criou e cujo cuidado nos confiou; é possível olhar para o Alto e ver aí o “grande seio” acolhedor e libertador.

A pandemia que nos massacrou em 2020 exigiu uma específica cultura do cuidado. E ela verificou-se, em parte! Evidentemente, os problemas do nosso mundo não ficaram resolvidos e o sofrimento ainda não passou. Mas as atitudes adotadas pela maioria fazem-nos antever um futuro mais humano e mais solidário. Mais de cuidado mútuo e menos de desinteresse ou individualismo. De facto, como tem sido belo ver o empenho de tantos a nível do socorro e do tratamento sanitário, nas ações de voluntariado dirigidas aos mais atingidos pela crise, na revalorização da família, na investigação científica para o bem de todos, na procura de solução conducentes a novas políticas sociais em favor dos doentes e idosos, no tatear modelos de uma economia mais solidária, em formas de relacionamento internacional que auguram a substituição da velha «guerra fria» por uma cooperação em que todos lucram, na sensibilidade para com a causa da natureza e preocupação ecológica, etc.

Diz o nosso povo que “há males que vêm por bem”. Se a pandemia gerar uma nova cultura do cuidado, como se espera, então compensam-se e valeram a pena as dores que nos causou. E para nós que acreditamos no tal “resgate” que Deus operou ao retirar-nos do mal para o reino da sua família, encaramos o futuro com esperança, alegria e entusiasmo. Os acontecimentos do ano 2020 “ensinam-nos a importância de cuidarmos uns dos outros e da criação a fim de se construir uma sociedade alicerçada em relações de fraternidade”. E ela há de acontecer. Creio que aprendemos a lição.

É o que pedimos a Deus por intermédio de Santa Maria, sob cuja proteção começamos este novo ano. Por intermédio dela, o Senhor nos abençoe e nos proteja. O Senhor faça brilhar sobre nós a sua face e nos seja favorável. O Senhor volte para nós os seus olhos e nos conceda a paz.

Bom ano!

D. Manuel Linda, bispo do Porto

 

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