Salvação, Eucaristia e serviço

Na tarde de quinta feira santa, em plena consciência da história, o Senhor Jesus sabia que estava próxima a sua hora. Por isso, era altura de selar com o exemplo as palavras e os gestos que tinha transmitido aos discípulos, ao longo de três intensos anos.

De facto, durante a sua vida pública, o Senhor tinha recomendado a humildade de coração, o não ocupar os primeiros lugares e de não fazer como os reinos deste mundo que exercem o seu poder, tantas vezes opressor, sobre os últimos e sobre os mais pobres. Pelo contrário, pediu aos futuros membros da Igreja que se colocassem ao serviço de todos, que buscassem os valores do coração em detrimento das aparências, que não se preocuparem com os juízos dos homens, mas somente com os de Deus. Não obstante, alguns discípulos ainda se interrogavam qual deles seria o maior e mais importante.

Durante a ceia, que seria a última na ordem da alimentação, mas a primeira como sacramento da Eucaristia, Jesus não se dotou de palavras convincentes, mas chocou-os pelo exemplo: lavou-lhes os pés. E só no final os advertiu com palavras breves e sintéticas, mas bem penetrantes e memoráveis: “Viste o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também” (Jo 13, 14-15).

A partir daquele momento, Eucaristia e lava-pés tornaram-se inseparáveis. Não que em todas as Missas seja necessário proceder ao gesto que eu mesmo vou fazer daqui a pouco. Mas no sentido de que celebrar a Eucaristia é também repetir a tomada de consciência do serviço, pois o Senhor que, como diria São Paulo, “é sempre o mesmo, ontem hoje e sempre” (Heb 13, 8) adverte-nos continuamente: “também vós deveis lavar os pés uns aos outros”.

Foto Jornal Voz Portucalense

Jesus que, “tendo amado os seus que estavam no mundo, os amou até ao fim” (Jo, 13, 1) realizou a perfeição do amor na entrega da cruz. Em nosso favor, claro. Porque o amor verdadeiro traduz-se sempre em atos concretos em favor dos outros. Ora, se na Eucaristia rememoramos e reatualizamos a redenção operada no Calvário e a glorificação salvadora da manhã da Páscoa, então, a Missa é sinal, penhor e mistério representativo de uma tríplice entrega amorosa: do Senhor por nós, de cada um de nós em favor dos irmãos e de todos nós na direção do Deus de amor.

Eis a razão pela qual a Igreja sempre considerou o mistério eucarístico como “fonte e vértice da vida cristã” (LG 11): a Igreja tem plena consciência que só a Eucaristia a edifica e que ela, Igreja, que celebra a Eucaristia, torna-se uma Igreja eucarística, isto é, uma comunidade salva e salvadora, não fechada em si, mas voltada para Deus e para os irmãos, particularmente para os mais pobres e frágeis, qual “hospital de campanha”, como diria o Papa Francisco.

É o que eu desejo para esta nossa Diocese do Porto: sermos uma Igreja cada vez mais eucarística. Uma Igreja que, na simplicidade e na dignidade que o ato merece, celebra festivamente o domingo em honra do Senhor ressuscitado, reza, canta, dá testemunho que “nem só de pão vive o homem”, nem mesmo da preguiça ou do desporto colocado estrategicamente nessa manhã. Uma Igreja de ministérios onde não faltem os sacerdotes para presidir e as vocações para os continuar. Mas também uma Igreja acolhedora dos diáconos e dos ministérios e onde os que os exercem o façam em favor da comunidade e não como exibição ou exercício de um qualquer senhorio, para que Jesus Cristo não tenha de dizer a respeito deles: “Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa” (Mt 6, 2).

Uma Igreja que receba o “ite, missa est” não como interregno de fé de oito dias, mas como árdua tarefa de a continuar no mundo. Por isso, uma Igreja simples, de gente afável e acolhedora, dinâmica, ministerial, que gaste as suas energias mais na ação do que na crítica, voltada para os frágeis, especialmente para os que vivem em solidão ou pobres porque privados do conhecimento de Deus. Uma Igreja missionária, em saída, espécie de sensor avançado de todas as carências materiais e espirituais e que mete mãos à obra para tentar minimizá-las. Uma Igreja que, em nome da sua fé e por causa dela, não hesita levar o corpo de Cristo aos mundos determinantes –e tantas vezes carentes- da política, da comunicação social, da economia, da cultura e do desporto.

Como expressão desta Igreja eucarística, anseio por duas concretizações nesta nossa Diocese: que todas as igrejas paroquiais estejam de portas abertas ao longo do dia, com condições de segurança e de vigilância, porventura mediante a permanência de equipas de voluntários; e que, nesta cidade episcopal do Porto, a par das Paróquias, Reitorias e Capelanias, se abra uma pequena capela, no centro histórico, exclusivamente para a adoração ao Santíssimo, em permanência.

Em todas as Missas, depois da Consagração, o sacerdote convida os fiéis a tomar consciência da realidade em que participa, lançando o brado: “Mistério da fé”. E é-o, sem dúvida, pois a Eucaristia dá-nos o Cristo total, o Cristo Redentor e Salvador. Mas se é o “mistério da fé”, não o é menos “mistério da esperança e da caridade”: é de esperança porque nos impulsiona para a plenitude do reino de Deus e é mistério de amor porque renova a dádiva total de Cristo à sua Igreja e porque a estimula a constituir-se em verdadeira comunidade de serviço fraterno.

Vivamos, pois, o culto eucarístico como a súmula mais elevada das virtudes teologais.
+ Manuel Linda

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