Após o jubiloso anuncio de Jesus Ressuscitado na Celebração da Vigia Pascal, somos convidados a prosseguir com a experiência reconfortante de comunhão com o Ressuscitado.

Daí o desafio a percorrer o itinerário que leva os Apóstolos incrédulos mas curiosos, tímidos mas despertos pelas mensagens que lhes foram comunicadas pelas mulheres que foram em primeiro lugar ao sepulcro e, vendo-o vazio, foi-lhes revelado que Jesus não estava ali, tinha ressuscitado.

Tal como aconteceu com os Apóstolos, somos estimulados a integrar a comunidade dos baptizados que na experiência do Ressuscitado é impelida a comunicar não só os acontecimentos da Vida de Jesus Cristo, mas sobretudo o Seu mistério pascal, cujo cume e consumação se encontra na Ressurreição. Deste modo somos testemunhas dos factos que anunciamos por palavras.

Mas sobretudo, a partir da comunhão de vida com o Ressuscitado sentimos o convite a uma Vida Nova que se traduz em novos critérios, em novos valores, numa nova conduta, isto é, numa vida renovada pela experiência comunitária na qual se partilha a realidade que ultrapassa o tempo e o espaço e nos introduz na vivência do eterno.

Começa o Evangelho por afirmar que estamos no primeiro dia da semana. Desde logo somos chamados a reconhecer o valor do domingo para em comunidade cristã fazermos a experiência do Ressuscitado. A partir desta datação, desenrola-se um encadeado de advertências, de deslocações e de buscas que levam ao encontro com os Sinais que identificam a Jesus de Nazaré, mas ao mesmo tempo, iluminados pela Palavra e pelo Espírito abrem para o Mistério da Ressurreição de Cristo.

Eis o itinerário que continuamente é exigido a cada cristão e a cada comunidade e, por isso, também hoje.

Esta atitude interior de quem se desloca da sua auto-referência, se deixa interpelar pelo anuncio de algo de novo que aconteceu e se mobiliza para ir ao encontro dos Sinais que, na abertura à Palavra e à acção do Espírito Santo, conduzem à experiência do Ressuscitado.

Daqui surge uma experiência de tal maneira forte, porque «viu e acreditou», que leva ao dinamismo do testemunho, tal como está narrado na primeira leitura dos Actos do Apóstolos, ao afirmar «nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez». E uma vez atraídos por esta surpreendente novidade, também nós hoje reconhecemos que «Jesus mandou-nos pregar ao povo e testemunhar que Ele foi constituído por Deus juiz dos vivos e dos mortos».

Do encontro com o Mistério de Cristo Ressuscitado brota a missão, o entusiasmo, a alegria do anúncio e do testemunho.

Na verdade, como S. Paulo afirma na segunda leitura, dirigida à comunidade de Colossos, «se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto».

É verdadeiramente o encanto de quem já vive não à maneira do mundo mas os valores perenes, que nos leva a integrar uma comunidade que celebra a Cristo Ressuscitado, que partilha na comunhão os dons e serviços e assume a missão de testemunhar a Boa Noticia da Ressurreição no mundo actual.

Interpelados pelo Papa Francisco a promover a sinodalidade nas nossas comunidades cristãs exige-se, para uma caminhada comum, a necessária experiência de Vida Nova que brota do encontro com Jesus Cristo Ressuscitado.

É muito oportuna a exortação que o Papa Francisco nos lança ao afirmar que «peçamos ao Senhor que liberte a Igreja daqueles que querem envelhecê-la, ancorá-la ao passado, travá-la, torná-la imóvel» (CV, 35).  E, continua, «peçamos também que a livre doutra tentação: acreditar que é jovem porque cede a tudo o que o mundo lhe oferece, acreditar que se renova porque esconde a sua mensagem e mimetiza-se com os outros» (CV, 35).

Energicamente adverte o Papa «não! É jovem quando é ela mesma, quando recebe a força sempre nova da Palavra de Deus, da Eucaristia, da presença de Cristo e da força do seu Espírito em cada dia» (CV, 35).

Na verdade, «é jovem quando consegue voltar continuamente à sua fonte» (CV, 35).

Sentimos como urgente proporcionar a todas as pessoas e de modo particular a todos os cristãos a experiência mobilizadora e entusiasmante da Ressurreição de Jesus Cristo. Só a partir daí nos depararemos com comunidades vias, alegres, enérgicas e de forte estimulo evangelizador.

Apesar de inseridos no mundo «devemos ter a coragem de ser diferentes, mostrar outros sonhos que este mundo não oferece, testemunhar a beleza da generosidade, do serviço, da pureza, da fortaleza, do perdão, da fidelidade à própria vocação, da oração, da luta pela justiça e o bem comum, do amor aos pobres, da amizade social» (CV, 36).

A Igreja, hoje, sente-se revigorada e confiante anuncia a grande verdade de que Jesus de Nazaré está vivo! «É preciso recordá-lo com frequência, como afirma o Papa Francisco, porque corremos o risco de tomar Jesus Cristo apenas como um bom exemplo do passado, como uma recordação, como Alguém que nos salvou há dois mil anos» (CV, 124).

Aliás, «de nada nos aproveitaria isto: deixava-nos como antes, não nos libertaria» (CV, 124). Na verdade, «Aquele que nos enche com a sua graça, Aquele que nos liberta, Aquele que nos transforma, Aquele que nos cura e consola é Alguém que vive» (CV, 124). Devemos proclamá-lo com toda a força do nosso ser: «É Cristo ressuscitado, cheio de vitalidade sobrenatural, revestido de luz infinita» (CV, 124).

Porque estamos perante a urgência de uma evangelização sempre nova a exigir a frescura da primeira, são muito oportunas as palavras do Papa Francisco ao afirmar que «com a sua novidade, Ele (Jesus Cristo) pode sempre renovar a nossa vida e a nossa comunidade, e a proposta cristã, ainda que atravesse períodos obscuros e fraquezas eclesiais, nunca envelhece» (EG, 11). De facto, «Jesus Cristo pode romper também os esquemas enfadonhos em que pretendemos aprisioná-Lo, e surpreende-nos com a sua constante criatividade divina» (EG, 11). Aliás, «sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo actual» (EG, 11).  Reconhecemos que, «na realidade, toda a acção evangelizadora autêntica é sempre “nova”» (EG, 11).

A tarefa evangelizadora da Igreja tem a sua fonte no mistério da Ressurreição de Jesus Cristo que interpela e envia. Daí que «a intimidade da Igreja com Jesus é uma intimidade itinerante, e a comunhão “reveste essencialmente a forma de comunhão missionária”» (EG, 23).

Deste modo, «fiel ao modelo do Mestre, é vital que hoje a Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demora, sem repugnâncias e sem medo» (EG, 23). Na verdade, «a alegria do Evangelho é para todo o povo, não se pode excluir ninguém» (EG, 23).

Perante a Ressurreição de Jesus Cristo somos introduzidos no essencial da Boa Nova que acreditamos, que nos renova e a qual somos chamados a anunciar. De facto, «quando se assume um objectivo pastoral e um estilo missionário, que chegue realmente a todos sem excepções nem exclusões, o anúncio concentra-se no essencial, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário» (EG, 35).

Realmente, «a proposta acaba simplificada, sem com isso perder profundidade e verdade, e assim se torna mais convincente e radiosa» (EG, 35).

Sim, na verdade «todas as verdades reveladas procedem da mesma fonte divina e são acreditadas com a mesma fé, mas algumas delas são mais importantes por exprimir mais directamente o coração do Evangelho» (EG, 36). Assim, «neste núcleo fundamental, o que sobressai é a beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado» (EG, 36).

Não hesitemos em fazer este itinerário pascal, tal como nos propõe o Evangelho, a exemplo das primeiras testemunhas da Ressurreição, e uma vez renovados pela comunhão em Cristo Vivo e Ressuscitado, integrados activamente na comunidade cristã, lancemo-nos com entusiasmo e criatividade no anuncio jubiloso da Boa Noticia de Jesus Cristo Ressuscitado que quer atrair toda a pessoa humana e quer renovar toda a criação.

Nestes sentimentos quero expressar os meus votos de Santa e Feliz Páscoa para todos os diocesanos, seja os que estão no nosso território sejam os que estão na diáspora. De modo especial rogo as bênçãos de Jesus Ressuscitado para todos os que se encontram em situações de dor, de sofrimento e de provação.

Imploro de Nossa Senhora que se alegra com a Ressurreição de Seu Filho, de S. Bartolomeu dos Mártires, de S. Teotónio e de S. Paulo VI, que nos abençoem e nos conduzam pelas sendas que levam à evangelização do mundo de hoje

Amen

D. João Lavrador, Bispo de Viana do Castelo

 

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