Vigília Pascal
Catedral, Bragança, 11.04.2020

  1. Exulte de alegria…

Assim canta o precónio Pascal que ressoa nesta noite, mais cintilante que o dia! Não será um contrassenso estar a cantar o Exultet nestes tempos duríssimos de pandemia?!

A noite da humanidade provocada pelo covid-19 é iluminada pela luz de Jesus Cristo na Páscoa da Sua ressurreição que acontece a cada instante no dinamismo da morte que dá a vida: «rejubile também a terra, inundada por tão grande claridade, porque a luz de Cristo, o Rei eterno, dissipa as trevas de todo o mundo».

Quantos doentes! Quantos mortos! Quantas perdas!
E quantos Anjos da vida nos hospitais, nas casas, nos laboratórios, na sociedade!
Quantos testemunhos de fé, de esperança e de caridade!

  1. O inteiro mistério pascal

A celebração do inteiro mistério pascal de Cristo, com efeito, constitui o momento privilegiado do culto cristão, não só no seu desenvolvimento anual, mas quotidiano e semanal. O mistério pascal de Cristo é o princípio basilar de toda a reforma litúrgica: «a Santa Igreja considera seu dever celebrar a obra de salvação do seu divino Esposo, mediante uma comemoração sagrada, em determinados dias no decurso do ano. Em cada semana, no dia a que se chamou Domingo, comemora a memória da Ressurreição do Senhor, que celebra também uma vez no ano, juntamente com a sua bem-aventurada Paixão, na grande solenidade da Páscoa» (Sacrosanctum Concilium 102).

Os primeiros testemunhos da celebração anual da Páscoa remontam à metade do século II e situam-se nas Igrejas da Ásia Menor. No Ocidente, os documentos sobre a celebração do Tríduo pascal são parcos nos primeiros quatro séculos. Todavia, Santo Ambrósio (+397) refere o termo “Triduum Sacrum” e Santo Agostinho (+430) usa, claramente, a expressão “Sacratissimum Triduum” para indicar os dias em que Cristo sofreu, repousou no sepulcro e ressuscitou, ou seja, «o Tríduo de Cristo crucificado, sepultado e ressuscitado». Por tal motivo, o Tríduo pascal não constitui uma preparação da solenidade da Páscoa, mas é, verdadeiramente, a celebração da morte e da Ressurreição de Cristo, da qual resplandece a novidade de vida em Cristo que brota da sua morte redentora.

Na verdade, a “teologia dos três dias” comemora o mistério da cruz gloriosa de Cristo, o seu repouso no sepulcro e a sua Ressurreição, qual realização do desígnio salvífico. Estas celebrações são introduzidas pela Missa da Ceia do Senhor e atingem o seu momento culminante na Vigília pascal da noite santa. O Tríduo pascal da Paixão e da Ressurreição do Senhor, ponto culminante de todo o Ano litúrgico, inicia-se com a Missa da Ceia do Senhor, tem o seu centro na Vigília Pascal e termina com as Vésperas do Domingo da Ressurreição. No século VII já se conhece uma estrutura ritual da Vigília pascal constituída por três elementos fundamentais: a Palavra, o Batismo e a celebração eucarística.

  1. Fonte de luz

O significado teológico dos três dias é realçado pelo Catecismo da Igreja Católica, nestes termos: «partindo do Tríduo pascal, como da sua fonte de luz, o tempo novo da Ressurreição enche todo o ano litúrgico da sua claridade. Ininterruptamente, dum lado e doutro desta fonte, o ano é transfigurado pela liturgia. É realmente “ano da graça do Senhor”» (n. 1168). E, a seguir, acrescenta: «É por isso que a Páscoa não é simplesmente uma festa entre outras; é a “festa das festas”, “solenidade das solenidades”, tal como a Eucaristia é o sacramento dos sacramentos (o grande sacramento). Santo Atanásio chama-lhe “o grande Domingo”, tal como a semana santa é chamada no Oriente “a semana maior”» (nn. 1168-1169).

Jesus Cristo é a nossa Páscoa e a nossa Paz!

+ José Manuel Cordeiro

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