Acreditar na Ressurreição é confiar no Deus que dá a vida

O sepulcro vazio

O Evangelho de hoje começa por nos dizer que as mulheres «no primeiro dia da semana, ao amanhecer, foram ao sepulcro levando os aromas que tinham preparado”. Estas palavas “primeiro dia da semana” têm um duplo significado: resplandece uma nova luz (cf. Lc 1,78) e, com esta luz, o direito e a justiça de Deus (cf. Is 51,4; Sof 3,5). Com a ressurreição de Jesus começa uma nova história de Deus com os homens.

As mulheres vão ao sepulcro com os aromas que tinham preparado para ungir o corpo de Jesus. Estes perfumes já tinham sido preparados antes do sábado (cf. Lc 23,56) e embalsamar o cadáver de um morto era algo comum entre os judeus. Mas fazê-lo três dias depois da sua morte é algo fora do normal e a referência “ao amanhecer” remete-nos para Cristo que nasce como o sol das alturas.

A narração do túmulo vazio constitui a última cena da paixão e morte de Jesus, segundo o Evangelho de S. Lucas, porque a seguir virá o texto da aparição do Ressuscitado aos discípulos de Emaús. O túmulo vazio está em relação com a primeira cena da paixão: a oração de Jesus no Monte das Oliveiras.

Jesus tinha pedido ao Pai que afastasse d’Ele o cálice da paixão. Mas a fidelidade de Jesus à vontade do Pai vai conduzir Jesus até à morte e morte de cruz. Mas, por outro lado, Deus Pai ressuscita-O para uma nova vida, que está para além de tudo o que possamos imaginar. A fidelidade a Deus permanece firme, inclusive quando os sinais das mãos, do lado e dos pés, parecem afirmar o contrário. Esta fidelidade também deve ser experimentada pelos leitores ao serem convidados a colocar a sua esperança no Deus de Jesus.

 

Ressuscitar com Cristo para uma vida nova

Se a ressurreição quer dizer que Deus confirmou a vida e obra de Jesus de Nazaré, então a mensagem da ressurreição contém uma exortação para os cristãos conformarem a sua vida com o seguimento de Jesus. Ser cristão é seguir Jesus.

O seguimento de Jesus é a resposta a uma vocação. O chamamento, a vocação é de iniciativa divina. O seguimento é a nossa resposta a essa iniciativa divina. Por isso o seguimento é sobretudo um exercício de obediência evangélica. É um estar atento à voz de Deus: escutá-la e levá-la à prática.

Seguir Jesus é viver conduzido e animado pelo Espírito de Jesus ressuscitado. É refazer fiel e criativamente o caminho de Jesus, atualizando-o na nossa própria história. É viver e atuar movidos pelos mesmos valores que inspiraram e conduziram a vida de Jesus. É viver animado pela mesma confiança e esperança que mantiveram Jesus ao longo da sua vida, paixão e morte. É realizar e atualizar no mundo de hoje as práticas do Reino de Deus realizadas por Jesus.

 

A ressurreição de Jesus e o amor aos irmãos

Há corações feridos que esperam por alguém que suavize as suas feridas. É urgente despertar e recuperar a dimensão da fé e do encontro com Cristo ressuscitado. Só um encontro pessoal com a Pessoa de Cristo crucificado, morto e ressuscitado traz a realização plena para as nossas vidas. Cristo não pode ficar na dimensão do conhecimento, sob pena de os olhos humanos se fecharem pela falta de esperança, quando as coisas não correm bem, quando a fé em Deus se defronta com a realidade do sofrimento e da morte. A Marta, em lágrimas pela morte do irmão Lázaro, Jesus diz-lhe: «Eu não te disse que, se acreditares, verás a glória de Deus?» (Jo 11,40).

Quem anuncia a ressurreição de Jesus é portador de alegria e vê longe, porque sabe olhar para além dos problemas. Fortalecidos pela esperança alicerçada na fé, respondamos ao desafio que se nos coloca, abrindo horizontes de esperança na esfera do amor e do serviço.

Com esta esperança, procuremos, pela palavra que escutamos ou dizemos, pelo abraço, pelo afeto que sentimos e fazemos sentir, abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, estar atentos e solícitos para com todos aqueles que, no clamor ou no silêncio, esperam por uma palavra, que as nossas mãos apertem as suas e sintam o calor da nossa presença.

Mesmo não podendo curar, devemos sempre cuidar. Cuidar dos enfermos, visitando-os e apoiando-os nos problemas concretos é uma das missões nobres da ação pastoral das comunidades. Um dos problemas que deve interpelar as nossas comunidades é o das pessoas que pela idade ou doença vivem sozinhas em casa. Neste sentido, é fundamental a relação entre as unidades de saúde e as comunidades cristãs.

Irmãos! Vivamos a alegria de Cristo ressuscitado presente no meio de nós. Ele venceu a morte e nós podemos cada dia ressuscitar com Ele para uma vida nova.

Aveiro, 20 de abril de 2019

D. António Moiteiro

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