«Cristo Jesus, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz».

É com estas expressões que S. Paulo expõe aos Filipenses o mistério da encarnação do Verbo de Deus. É precisamente o mesmo mistério que entrelaça a vida humana e a vida de Deus em Cristo Jesus que celebramos durante esta semana.

É particularmente relevante que já o profeta Isaías tenha apresentado ao seu Povo a figura daquele que carregaria em si mesmo toda a maldade da humanidade a que denominamos de servo de Javé.

Enquanto os poderes do mundo anunciam libertadores os que dominam pela força das armas ou pelo domínio de uns contra os outros, pelo contrário, Deus revela-se na história como Aquele que vem na humilhação e apresenta-se na figura do Seu Filho como aquele que serve o ser humano abaixando-se até ao mais ínfimo da natureza humana.

Jesus de Nazaré toma, deste modo, partido pelas vítimas da história e comunga do sofrimento humano em atitude amor e de partilha com todos os espezinhados do mundo.

Na verdade esta atitude fundamental de Jesus de Nazaré só será apreendida a partir da experiência do amor que conduz cada um a colocar-se no caminho do seu irmão e a comungar da sua sorte. Eis, então, o caminho da verdadeira libertação.

Prestando atenção à profecia de Isaías reconhecemos neste caminho a aprendizagem de ser discípulo. Diz-nos ele que «o Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos».

Que tremendo paradoxo. Para ser discípulo e para oferecer uma palavra de alento, exige-se experimentar o sofrimento, deixar-se esmagar pela ignomínia e aceitar o caminho da cruz.

De facto, é na escola do amor que exige comunhão de vida com os irmãos, partilha total da sua sorte e do seu destino, que aprendemos o caminho para sermos verdadeiros discípulos.

No aprofundamento desta experiência tão dolorosa quanto rica que reconhecemos o alcance da vida e do mistério de Jesus de Nazaré que projecta luz sobre o mistério de cada pessoa através do caminho do amor e da entrega total de si mesmo em resgate pelo mal que afeta o ser humano.

Com esta celebração iniciamos uma semana na qual vão decorrer as celebrações que nos convidam a viver o mistério central da nossa fé cristã, isto é, o mistério pascal. Fazemo-lo como batizados e, como tal, como discípulos que queremos saborear a vida de Jesus de Nazaré, Mestre que nos ensina a encontrarmo-nos com o profundo mistério da nossa existência.

O caminho da paixão, que é o itinerário de amor e de entrega de Jesus Cristo, não poderá ser vivido por nós como meros espectadores. Muito pelo contrário, somos convidados a entrar nele com todo o nosso ser para nele nos transfigurarmos e usufruirmos da luz nova que nos é oferecida como culminar de quem aceita viver a experiência do amor à maneira de Jesus Cristo.

Este é o caminho da nossa salvação que não termina na morte mas projecta-nos para a vida nova de ressuscitados. Tal como afirma S. Paulo ao referir-se a Jesus Cristo que «por isso Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes» também em cada um de nós e em cada comunidade cristã a glória de Deus se manifestará como presença de Cristo vivo e ressuscitado.

Na descrição do Evangelho deparamo-nos com variadíssimas personagens que revelam os seus critérios, as suas intenções, os seus modelos de vida que confrontam o ser e o atuar de cada um de nós. Exige-se-nos, como discípulos de Jesus Cristo, a resposta a uma questão fundamental: com quem me identifico neste caminho? Ou ainda, como me coloco perante este caminho de dor e de despojamento, caminho de amor e de entrega a Deus e aos irmãos?

O profeta Isaías na descrição do servo de Javé afirma que «Deus abriu-me os ouvidos». De igual modo, necessitamos que Deus nos abra os ouvidos para escutarmos o que o Senhor nos tem a dizer para que o nosso olhar fixo nas atrocidades do nosso mundo e na sorte de tantos excluídos da nossa sociedade, reconheçamos a missão que nos toca a realizar para lhes oferecer a autentica libertação tão esperada e por Deus  realizada.

Este é o caminho de aprendizagem para nos colocar perante o sofrimento humano com um olhar de libertação.

Imploramos de Nossa Senhora, Mãe de Jesus Cristo e Mãe da Igreja, Mãe e Rainha dos Açores, que nos ajude a caminhar com o Seu Filho na Sua Paixão para com Ele vivermos a experiência da vida nova de ressuscitados.

 

Amen.

D. João Lavrador, Bispo de Angra e Ilhas dos Açores

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