Da comunhão com Deus nasce a concórdia entre os povos, as pessoas e a natureza

Caros irmãos,

  1. Na última visita que efetuei à República Centro Africana, país fustigado pela guerra entre grupos rivais e onde as Forças Armadas portuguesas têm desenvolvido com êxito um excelente trabalho na instauração da paz, o Senhor Arcebispo de Bangui dizia algo que é maravilhoso ouvir: “agora, graças à ação dos Militares portugueses pela paz, aqui, já é possível levar novamente as nossas crianças à escola». Uma simples palavra de reconhecimento, expressa de maneira tão significativa, põe em relevo o que a paz representa para a sociedade e para cada um de nós. Numa assentada, mostra-se claramente como a paz é o alicerce do mundo porque só ela salvaguarda o presente, projeta o futuro e faz perseverar o passado. Por essa razão, a Sagrada Escritura define-a não só como bênção, ao lado das bênçãos da vida, da saúde, da família, do trabalho, da instrução, mas como a «bênção das bênçãos» (cf Nm 7, 26). De facto, dela dependem todas as outras. E, como expressava o cardeal Nzapalainga Dieudonné, graças à paz é possível organizar o presente e começar a construir o futuro.
  2. A paz, condição existencial incomensurável, é muito mais do que o mero fruto da boa vontade das pessoas. Acima de tudo, surge como dom de Deus que se materializa na história, gerando a vida, promovendo a dignidade de cada ser humano, reinstaurando a justiça e aproximando mais estreitamente a humanidade. A coincidência de celebrar o Dia Mundial da Paz no dia dedicado à solenidade da Mãe de Deus leva-nos a constatar que a paz como é o alicerce de todas as bênçãos, assim também ela própria está construída sobre o alicerce da Encarnação de Deus, fundamento que sustenta todos os projetos de paz na humanidade. Como afirmou o concílio de Calcedónia, em Maria, Mãe de Deus, a Encarnação do Filho de Deus realizou a união da natureza divina com a natureza humana, as quais são unidas, mas sem confusão, e distintas, mas sem separação. Em Cristo, a união Deus-homem vivifica a harmonia da divindade com a humanidade, constrói a concórdia entre o céu e a terra e fundamenta a paz entre as nações e entre os homens.
  3. A história da salvação certifica-nos, aliás, que Deus é a Paz, que arquitetou o mundo para a celebrar, na harmonia da diversidade das criaturas, e que criou o homem e a mulher atribuindo-lhes a missão de serem seus guardiões e obreiros. Não é de estranhar, pois, que o ser humano só na paz se sinta em casa e que a paz seja o seu lar. A guerra é para ele uma terra estrangeira. Nela é um apátrida. Porque a sua vocação é a paz e não a guerra.

Fruto do menino de Belém que trouxe à terra a concórdia, a paz afunda as suas raízes no próprio mistério pessoal do Verbo encarnado que no seio de Maria Mãe de Deus, como deixa entender a segunda leitura (Gal 4, 4-7), estabelece de modo indissolúvel a união de Deus com a humanidade. Em Cristo, Verbo encarnado no seio da Santíssima Virgem, reside a fonte de toda a paz: entre nós e Deus, entre povos e nações, entre todos os homens de boa vontade e entre a humanidade e a natureza. Por isso, é ainda na luz da encarnação do Verbo, ou seja, no esplendor do Natal, que reside a possibilidade dos homens se unirem a Deus, uns aos outros e até à própria criação. Não contemplamos só o abatimento de muros e barreiras que dividiam o céu e a terra, os homens entre si e até separavam o ser humano do mundo criado. Na verdade, Cristo, no Seu nascimento, instaurou uma ponte. Ligou céu e terra. Desta união abriu a humanidade para todas as possibilidades de concórdia e harmonia. É a comunhão com Deus que torna possível a união com os irmãos e com o mundo.

  1. É fácil constatar como todos os projetos de paz que prescindam de Deus não são senão meras utopias. Curiosamente, embora vivamos num tempo em que se finaram as utopias, uma só se conserva ainda: o mundo permanece convencido de que é possível existir paz e concórdia prescindindo do fundamento último de todas as coisas, de Deus, Senhor do céu e da terra.

Há um facto ocorrido no decurso da primeira guerra mundial — que até já foi retratado no cinema — que ilustra bem a ligação íntima entre a paz e o seu fundamento cristão: num dado período, os soldados cessaram os combates para confraternizarem e festejarem o nascimento de Jesus. Celebrar Cristo, adorar a Deus, é a fonte da paz entre os homens e entre as nações. Não é por acaso que, na celebração da eucaristia, o rito da paz precede imediatamente a comunhão do Corpo de Cristo: não é só uma condição derivada do momento seguinte, é já o fruto antecipado da comunhão com o Corpo de Cristo. E como vem antecipado, também se vai prolongando pela vida do quotidiano.

  1. O Papa Francisco, olhando para o ano de 2020 e centrando-se no que mais o marcou e nos marcou também a nós, captou um dos tesouros que foi emergindo ao longo dos dolorosos meses que se viveram, de cuja validade perene para a humanidade não há a menor dúvida, sintetizado no tema “A cultura do cuidado como percurso de paz.” Trata-se, antes de mais, de apresentar a paz como um caminho que se vai fazendo, uma estrada que vai sendo edificada com ações concretas e práticas quotidianas. Quando o apelo a cuidar do outro ou do mundo se torna o contexto de vida e a marca dos dias do ser humano, então estar-se-á a caminhar no sentido da construção da paz. Não se quer dizer só que a paz é um processo, põe-se em evidência sobretudo que a paz está associada ao cuidado com os outros, que ela só emergirá lá onde houver sentido do outro e dedicação a ele. A paz está em antagonismo aberto com o egoísmo, com a cultura do «cada um por si» ou com mentalidades xenófobas e discriminatórias que pretendem ser indiferentes ao outro ou até eliminá-lo, como se o outro fosse um morbo ameaçador e não um irmão com quem somos chamados a partilhar a existência. Cuidar dos outros e do mundo implica assumir uma dinâmica que revela a própria natureza de Deus, assumida também pelas grandes figuras da história. Jesus de Nazaré é o Príncipe da paz, porque “viver” era para ele “existir em função dos outros”. Inaugurou inclusivamente uma nova ontologia, assente na equivalência do ser com ser para os outros. Em boa verdade, é uma dinâmica que tem o seu protótipo na vida trinitária de amor onde a afirmação de cada Pessoa divina está na entrega e dádiva ao Outro.
  2. “Maria conservava todas estas palavras, meditando-as em seu coração.” (Lc 2, 19) Assim se expressa o evangelho, referindo-se à mesma interioridade onde já o Filho de Deus se fizera homem e assumira a nossa condição humana. Afirma, perentória, a Palavra de Deus que «Maria conservava todas estas palavras». Mas se há palavras que se conservam, também existem as que se perdem. E neste Dia Mundial da Paz somos convidados a recordar quais as palavras que contêm uma enorme carga de pacificação e, por isso, deverão ser conservadas por nós em nossos corações e que constituem um bom itinerário de paz sempre, mas concretamente para o novo ano que inicia:
  3. a) A primeira é a palavra «Perdão». Perdoa-me e perdoo. O pedido, “perdoa-me”, traduz a consciência do nosso erro, o reconhecimento do que praticámos, exprime o nosso sentido de responsabilidade. A dádiva, “perdoo”, restitui a vida ou outro. Quando se perdoa está-se a oferecer a possibilidade de um recomeço, de um novo rumo. Esta dádiva apazigua o rancor e o ressentimento. Só onde houver perdão haverá paz.
  4. b) A segunda é a palavra «Obrigado». A gratidão, segundo São Tomás de Aquino, tem três níveis. O mais elementar é constituído pelo mero reconhecimento intelectual da atitude benevolente do outro. O nível intermédio é o agradecimento propriamente dito, o louvor do outro pela ação realizada. Mas o mais profundo envolve um compromisso e estabelece um vínculo que prende os dois no único e mesmo destino. Este significado prevalece na nossa língua, expresso pela palavra «obrigado». Assim, lá onde e quando se pronunciar a palavra «obrigado» estamos a empenhar o nosso próprio ser num vínculo com o outro, partilhando o seu mesmo destino, a sua condição e situação. Só onde isto existir haverá também a paz. Dizer obrigado equivale, portanto, a dizer “sempre contigo”.
  5. c) A terceira é a palavra «Jesus», o nome que tudo pode e tudo consegue. “E tudo o que pedirdes em meu nome, Ele vo-lo concederá». Onde o nome de Jesus for pronunciado, uma força de paz se erguerá, pois, o único som que se escutar será o do coro dos anjos.

Confiemos os destinos do mundo, o percurso das nossas vidas a peregrinação da história à Virgem Santa Maria, Mãe de Deus. Amen!

Igreja Paroquial da Póvoa de Santo Adrião, 1 de janeiro de 2021

D. Rui Valério, bispo das Forças Armadas e Forças de Segurança

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