VIGILIA DE ORAÇÃO

BEATIFICAÇÃO DA IRMÃ MARIA CLARA DO MENINO JESUS  

Lisboa, Paróquia de Nossa Senhora do Amparo (Lisboa), 19 de maio de 2011

 

1. O chamamento à vida é simultaneamente um chamamento à comunhão com Deus, em Cristo, mediante o dom do seu Espírito.

Esta comunhão tem início no Batismo, quando «tendo-nos tornado participantes da morte e ressurreição de Cristo», iniciou, para a Madre Maria Clara e para nós, a aventura jubilosa e exaltante de discípulos de Cristo Ressuscitado.

Foi aqui, nesta comunidade cristã de Nossa Senhora do Amparo, que há cento e sessenta e sete anos a Irmã Maria Clara iniciou a sua caminhada cristã, pela mão dos seus pais e padrinhos, que a conduziu à elevada meta da santidade.

Nela se foi realizando aquela transformação que a levou ao conhecimento de Cristo e à força da sua Ressurreição, à comunhão com os seus sentimentos e à identificação com a sua compaixão, amor e ternura pelos mais pobres.

Iniciada e apoiada pela Graça de Deus, Madre Maria Clara chegou à estatura adulta de Cristo e alcançou a meta alta da vida cristã, a santidade.

A sua vida é um exemplo e um estímulo para os cristãos, para cada um de nós, e um forte apelo à santidade, que é a vocação de todos os filhos e filhas de Deus.

 

2. A sua experiência pessoal mostra que a santidade é uma meta ao alcance de todos, um dom e um caminho oferecido a todos os batizados.

Naturalmente que nem todos os santos são iguais, cada um tem o seu caminho, o seu dom, a sua resposta. Os santos são «como as cores do espectro em relação com a luz, porque com tonalidades e acentos próprios cada um deles reflete a luz da santidade de Deus» (Jean Guiton).

O caminho de santidade da Madre Maria Clara consistiu no seguimento de Cristo casto, pobre e obediente, servindo os pobres, doentes, órfãos, idosos e crianças, sendo, para todos, portadora do amor e da ternura de Deus, expressão viva da sua compaixão e da sua misericórdia.

O caminho de santidade é sempre um caminho de amor. Madre Clara percorreu este caminho do amor de forma heroica, extraordinária, na docilidade ao Espírito Santo e ao chamamento de Deus.

Por isso a Igreja, reconhecendo a heroicidade da sua vida cristã ao beatificá-la, propõe-na como modelo, estímulo e referência para todos os cristãos, para a Igreja universal e para o mundo.

 

3. O Santo Padre Bento XVI, na recente exortação apostólica Verbum Domini afirma que «cada santo constitui uma espécie de raio de luz que brota da Palavra de Deus» (n.48).

«Os santos constituem o comentário mais importante do Evangelho» (Hans Urs von Balthasar), são o Evangelho vivo e «representam para nós uma via real de acesso a Jesus» (Bento XVI).

Madre Maria Clara foi verdadeiramente «sal da terra» e «luz do mundo». A sua vida deu sabor e sentido a muitas vidas que, através dela, descobriram e experimentaram o amor de Deus e para quem se abriram horizontes de esperança.

A luz divina que dela irradiou não se extingue, e a contemplação da sua vida e da sua imensa caridade levam-nos a glorificar o «Pai, que está nos céus», a louvá-lo e bendizê-lo, porque nela, criatura simples e humilde, o Senhor realizou grandes coisas, e lhe revelou os «mistérios do Reino».

 

3. Os santos são íntimos de Deus. Madre Maria Clara cultivou uma profunda intimidade com o Senhor, donde auria a força para enfrentar as dificuldades, abraçar o mistério da Cruz, irradiando paz e alegria, serenidade, esperança e otimismo, mesmo no meio das imensas dificuldades, perseguições e sofrimentos que atravessaram a sua vida.

Desta intimidade com Deus brotou aquele «ardor» de santidade que a levou a entregar-se sem reservas à «salvação das almas», a trabalhar afincada e generosamente na «vinha do Senhor», com «espírito de fé», procurando corresponder ao imenso amor de Deus que permeava a sua vida.

 

4. Deixemo-nos interpelar pelo seu testemunho de vida cristã e de santidade. Os santos são verdadeiros modelos de vida e excelentes companheiros de viagem. Madre Maria Clara pode sê-lo para cada um de nós. Procuremos conhecer a sua vida. Que ela nos inspire e ajude a fazer da nossa vida um dom ao Senhor, no serviço dos irmãos, particularmente aos mais pobres que, como nosso seu tempo, pululam nas nossas cidades, vilas e aldeias, clamando por um coração que os olhe, uma mão que se lhe estenda, um teto que os acolha.

 

5. Como Madre Maria Clara deixemo-nos atrair pelo amor de Deus que nos envolve, mesmo se não temos muita consciência disso; deixemo-nos atrair pela fascinação sobrenatural da santidade, colaborando com a Graça de Deus, colocando os dons recebidos ao serviço de Deus e dos irmãos, socorrendo-os nas suas necessidades.

Sejamos generosos para com Deus, como a Madre Maria Clara; deixemo-nos conduzir pelo Seu Espírito, para que Ele realiza em nós a obra do Seu amor, como realizou com Madre Maria Clara, a quem pedimos que interceda por nós junto de Deus.

 

Joaquim Mendes
Bispo Auxiliar de Lisboa

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