Também este ano Deus, nosso Pai, no seu amor misericordioso, nos concede a graça de poder celebrar o Tríduo Pascal, que se inicia com a importante e sempre emotiva Missa Vespertina da Ceia do Senhor. Esta nova oportunidade que Deus nos oferece carateriza-se, este ano, por três situações que não podemos ignorar:

= Em primeiro lugar, a Comunidade diocesana de Angra encontra-se temporariamente sem o seu Bispo, sendo o anterior transferido para a Diocese de Viana do Castelo. É uma situação especial pela qual toda a Diocese está chamada a viver esta celebração com um particular espírito de fé; há que rezar para o bom êxito do processo de nomeação do novo Bispo e por aquela pessoa que, segundo o plano da Providência, será escolhida pelo Papa Francisco para ser o novo Pastor desta Diocese. Este é, portanto, um tempo de intensa oração como também de renovado compromisso a continuar a cumprir o próprio serviço e o próprio testemunho na Igreja e na sociedade.

 

Em segundo lugar, a Comunidade internacional está a atravessar um momento de grande preocupação e sofrimento devido à guerra da Rússia contra a Ucrânia, que está a causar tantos mortos, feridos e refugiados, assim como destruição, pobreza, fome e doença. Temos o dever de dirigir a Deus a nossa oração para que, pela intercessão de nosso Senhor Jesus Cristo, Príncipe da Paz, termine a guerra, se sarem as feridas, se abram caminhos de paz, reconciliação e prosperidade.

= Em terceiro lugar, em Portugal como também em muitos Países do mundo a pandemia da COVID-19 continua a causar dor, incerteza, morte e muitas outras consequências negativas. Trata-se de uma situação que deve ser enfrentada com prudência, bem como com sentido de responsabilidade e solidariedade. Pedimos ao Senhor que nos indique o que tudo isso significa e quais são as decisões que devemos tomar para ser cristãos verdadeiros e coerentes.

O Mistério Eucarístico, cuja instituição celebramos nesta tarde de Quinta-Feira Santa, deve estar sempre profundamente vinculado à realidade que vivem as pessoas, a Igreja e toda a humanidade. O sacrifício que Jesus ofereceu de Si mesmo na cruz e do qual a Eucaristia é o memorial, está sempre profundamente vinculado às circunstâncias da história humana. A celebração da Ceia do Senhor não é uma evasão do mundo e da história, mas o momento no qual Jesus Cristo, em virtude da sua morte e ressurreição, assume e transforma também as nossas cruzes num sacrifício de expiação e de glória, agradável a Deus Pai. Todas as lágrimas da humanidade, unidas ao sangue de Cristo, podem transformar-se em pérolas preciosas para resgatar o mundo inteiro. Deus pede à Igreja que, exercendo o seu ministério sacerdotal, saiba unir ao sacrifício do seu Filho os sofrimentos de toda a humanidade para a sua salvação.

A celebração litúrgica desta Quinta-Feira Santa é um momento de graça em que temos ocasião de entender cada vez melhor a centralidade do Mistério Eucarístico na vida das pessoas e das comunidades. De facto, faz-nos entender que na nossa condição de seres humanos, criados à imagem e semelhança de Deus, temos como nossa primeira e fundamental vocação louvar, glorificar e agradecer a Deus por todas as suas maravilhas. É uma atitude de ação de graças que domina a experiência religiosa do Povo de Israel, que era também consciente de todos os prodígios que Deus realizou na sua história: os salmos são cheios de expressões de louvor, glória e gratidão; os mesmos sentimentos dominavam as celebrações e os ritos que os israelitas piedosos cumpriam com fé e devoção.

 

Como está muito bem expresso na primeira leitura de hoje, tomada do livro do Êxodo, um profundo sentimento de gratidão caraterizava sobretudo a celebração anual da Páscoa, em que se louvava a Deus por ter permitido que o anjo exterminador poupasse da morte os seus primogénitos graças ao sangue do cordeiro que marcava os umbrais das portas das suas casas. Este e muitos outros prodígios, realizados sobretudo durante o Êxodo, passaram a ser o motivo pelo qual o Povo de Israel tinha o costume de celebrar todos os anos uma série de festas para louvar e agradecer a Deus.

A partir da última ceia de Jesus com os seus apóstolos, a celebração da Eucaristia transformou-se na ação de graças mais bela, mais rica, mais intensa que os seres humanos podem dirigir a Deus; e tudo isso pelos méritos da paixão e morte que Jesus Cristo aceitou para a salvação do mundo, para a nossa redenção, para a liberação do diabo, da morte e do pecado. O sacrifício de Jesus na cruz tornou-se, portanto, a oferta mais agradável que os crentes podem apresentar a Deus para expressar toda a sua gratidão. É o sacrifício da nova e eterna Aliança, que nos permite reconciliar-nos com Deus, Bom e Misericordioso.

Entendemos, então, por que motivo a celebração da Santa Missa é tão importante na vida de um crente, da família, da comunidade: é a expressão mais bela, eficaz e significativa do nosso louvor e gratidão a Deus. É a celebração na qual – não obstante a nossa vida ser caraterizada por alegrias e tragédias, pela prosperidade e epidemias, pelo êxito e fracasso – sempre proclamamos: “Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do Universo!” Não obstante tudo, sempre aclamamos a Deus mediante o sacerdote celebrante com as palavras: “Por Cristo, com Cristo, em Cristo, a Vós, Deus Pai todo-poderoso na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, pelos séculos, dos séculos. Ámen”. São palavras que exprimem o louvor e a glória que continuamente, graças aos méritos de Jesus Cristo, devemos elevar a Deus e que caraterizam a grande festa na Casa do Pai, na qual todos somos convidados a participar na eternidade.

Seremos, porém, dignos de celebrar a Eucaristia nesta terra e de receber a herança eterna na medida em que imitarmos o amor concreto e total de Jesus que ofereceu a sua vida pela salvação de toda a humanidade. Sabemos que o gesto de lavar os pés aos apóstolos foi o símbolo daquele amor sem limites que atingiu a sua máxima expressão na cruz. A celebração desta Quinta-Feira Santa é, portanto, um momento de graça em que devemos renovar, em comunhão com toda a Igreja, o nosso compromisso de amar a Jesus, tomando a própria cruz e seguindo-O.

 

Sem dúvida, muitos de nós já louvam a Deus com a sua vida, imitando Jesus, tomando cada dia a própria cruz e seguindo-O. Mas pode não ser verdadeiramente assim devido a incoerências e mediocridades, hipocrisias e mesquinhezes. Pedimos, portanto, ao Senhor que a celebração desta tarde e de todo o Tríduo Pasqual seja uma ocasião para avaliar a qualidade da nossa fé, esperança e caridade.

 

Catedral de Angra, 14 de abril de 2022

D. Ivo Scapolo, Núncio Apostólico em Portugal

 

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