Tudo era paz e felicidade naquele jardim primordial. Até entre os animais reinava o melhor convívio. Era um convívio fraterno, sempre abrilhantado com uma sinfonia de tons e sons musicais que se combinavam, bem afinados, numa harmonia perfeita de vozes de inocência.

Todos eles conheciam bem aquele par de gente, homem e mulher, que diariamente visitava, de mãos dadas, todos os cantos do jardim. Fora graças à sua linguagem que eles ouviram pela primeira vez ressoar, em tons celestiais, o próprio nome.

Foi numa manhã de Primavera já adiantada, quando a sinfonia das vozes animais ainda mal se fazia ouvir. O jardim estava mais jardim do que todos os dias. As plantas haviam desabrochado com as pétalas mais viçosas e coloridas e outras ostentavam já frutos maduros. Uma pomba branca, branca de luz, apareceu a voar muito baixinho com uma açucena no bico a bater à porta do habitáculo da bicharada do jardim. Toca, cova, poleiro ou ninho, nada escapou a este inusitado voo rasteiro de alvorada. Era o sinal de chamamento. Todos os animais deveriam comparecer num solene cortejo a desfilar junto à macieira que já se encontrava repleta de maçãs bem atractivas. Aí, o par de gente, homem e mulher, havia de dar o nome a cada animal.

E assim se fez. Um a um, todos os animais passaram em frente daquele par de gente, homem e mulher. Grandes, pequenos e mais pequenos ainda, todos iam passando em inigualável cortejo. Olhavam, fascinados, a macieira reluzente, inclinavam depois a cabeça com veneração, ouviam o nome pronunciado com voz solene, contemplavam de novo as maçãs e regressavam cada um a sua casa sem qualquer discussão sobre o nome que lhe havia sido dado. E, se algum mostrava uma cara de menor contentamento, logo a pomba branca, numa revoada de luz, lhe vinha lembrar a alegria do amor e da paz reinante no jardim.

E o par de gente, homem e mulher, radiante com o trabalho, viu que tudo era muito bom. Por momentos contemplou com satisfação a árvore que lhe servira de abrigo para tão solene acto. Depois, aquele par de gente, homem e mulher, sentou-se à sua sombra e adormeceu profundamente embalado pela brisa perfumada daquele jardim paradisíaco.

Vinda suave e mansamente do abismo profundo da terra, uma serpente foi-se elevando, enroscada ao tronco daquela árvore onde os frutos brilhavam como sóis e lançou um silvo, candidamente musical, aos ouvidos da mulher. Ainda mal tinha acordado já a serpente lhe entregava a maçã mais atraente que pendia da árvore, enquanto lhe cantava a promessa da sabedoria e do poder que os assemelharia a Deus. Enfeitiçada, acorda o homem que ainda dormia um sono de paz. Meio estremunhado pela sonolência, aceita a maçã que a mulher lhe estende com a mão direita no mesmo instante em que, com a esquerda, recebe outro fruto que a serpente lhe oferece com visível graciosidade e contentamento.

A pomba branca, branca de luz, bateu asas mal a serpente silvou e, com a açucena no bico, rodopiou em círculos por sobre a cabeça daquele par de gente, homem e mulher, e, como recurso de urgência trágica, deixou cair algumas penas. De olhos bem abertos e vivos, a serpente espiava. Uma pena branca da pomba branca de luz ainda foi tocar a maçã que o homem se preparava para levar à boca com a mão direita.

Mas ele olhou para a mulher com sedução e sacudiu aquela pena impertinente. Ele, o homem, ainda se chegou a engasgar com o primeiro pedaço. Preso na garganta, parecia dar-lhe um derradeiro alerta. Mas, depois, de dentada em dentada, cada um comeu a maçã atirando os caroços para o chão.

Foi então que a serpente, lançando um silvo medonho feito de gargalhada infernal, desapareceu por entre a folhagem. E logo aquele par de gente, homem e mulher, fugiu cheio de medo a esconder-se sob os ramos de uma figueira, deixando atrás de si aquela macieira da sua vergonha que, de imediato, começou a definhar até de todo secar.

A pomba branca, branca de luz, alvoroçada e de tanto bater as asas, não conseguiu segurar mais a açucena no bico. Empurrada pelo vento, foi a esta flor murchando lentamente até ficar presa num ramo da figueira onde veio morrer à vista daquele par de gente, homem e mulher. Também eles estavam definhando enquanto iam tecendo um vestido de folhas para cobrirem a nudez.

Saída de uma nuvem, que lentamente foi cobrindo o jardim, ouviu-se uma voz que silenciou todo o espaço:

– Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela.

Num instante, logo a pomba branca, branca de luz, baixa à terra e recolhe os caroços cheios de sementes, que de imediato começa a espalhar pelos cantos da terra.

Uma sementinha veio cair no centro do povoado. Uma estrela acompanhou a pomba até ali. Estrela vinda do Oriente, lá das bandas do mundo onde primeiro se faz luz.

Era ali que havia um jardim. Foi há muito e ninguém sabe quando. Mas sabe-se que foi uma pomba branca, branca de luz, que ali a semeou. Ela germinou e uma macieira nasceu. É a macieira da Esperança. Ela ali se encontra, velhinha, mas sempre renovada a lembrar aos que por ali passam o mandato daquela voz prodigiosa do jardim primordial.

É por isso que as gentes do povoado vêem na macieira do seu jardim o tecto da cabana onde se instala uma Família, um Homem e uma Mulher, com um Menino acabado de nascer, mas sempre de mãos estendidas, a apontar para o céu azul. É aí que os Anjos cantam e dançam a alegria do Seu nascimento, enquanto os pastores descem da fria e branca Estrela e sobem ao povoado para adorarem o Menino.
Como há dois mil anos.

Guarda, 8 de Dezembro de 2021 – Festividade da Imaculada Conceição
António Salvado Morgado

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