Mendo Castro Henriques aponta duas mulheres nos anos 60 do século XX que abriram caminho para o cuidado com a natureza e o equilíbrio entre as espécies

Lisboa, 13 mar 2021 (Ecclesia) – O Professor Mendo Castro Henriques afirmou que a bióloga Rachel Carson e a economista Barbara Ward, “mulheres de coragem dos anos 60 do século XX”, contribuíram para o que hoje entendemos por ambientalismo e “desenvolvimento sustentável”.

“Desenvolvimento sustentável é o nome do relatório que Barbara Ward apresenta em 1972, para o que foi a Conferencia de Estocolmo, sobre o ambiente humano, e foi ai que se definiu a necessária resposta ao crescimento económico, não de uma forma qualquer, mas com um crescimento sustentável, e depois chegou-se ao desenvolvimento sustentável”, explica o Professor de Filosofia Política à Agência ECCLESIA.

Rachel Carson, uma bióloga em que 1962 publicou o livro «Primavera Silenciosa», procurou evidenciar no seu estudo e investigação que o relacionamento humano devia desenvolver-se em três direções, com os outros, com Deus e consigo, e que qualquer alteração provocaria um desequilíbrio no homem.

“A sua mãe levava-a, em pequena, a passear pelas florestas na Pensilvânia, e ficou sempre com essa marca na educação, que a natureza era para respeitar e cuidar. Na sua vida foi percebendo os ataques que a natureza recebia, e entendia o quanto era necessário cuidar dela”, explica.

O Professor fala num “humanismo religioso”, que indica que “a preocupação com a qualidade de vida não se esgota em objetivos materiais mas vai exigir um respeito pela natureza” e que, no caso de Rachel Carson, “entende esse cuidado como um reflexo da uma vocação”.

Barbara Ward foi uma “católica empenhada nos movimentos antinazis e de acolhimento de refugiados” que, nos anos 60 começou a trabalhar sobre os desequilíbrios dos ecossistemas que encontrou nos países desenvolvidos e que perturbavam a ajuda aos países em desenvolvimento.

“Quando publica o livro «Há uma só terra», tem um grande impacto nos círculos decisores americanos – é convidada na década de 60 para conselheira, pelos presidentes norte-americanos, na altura em que se cria a agencia de proteção do ambiente”, sublinha.

Como católica, e “em contacto com o Vaticano – é a primeira mulher a participar num sínodo dos bispos onde traz as preocupações da Justiça e do desenvolvimento e vai ser uma das fundadoras da comissão justiça e paz”, Barbara Ward vai “concentrar-se em romper as forças anti-ecológicas, mas como economista, vai falar sobre os limites do crescimento, e ai vão aparecer autores, muitos de inspiração religiosa, pouco conhecidos e pouco salientados, mas que ajudaram a chegar a 2015”, refere.

Para Mendo Castro Henriques, Rachel Carson teve a capacidade de unir conhecimentos científicos, numa linguagem que chegou e se tornou próxima das pessoas.

“O problema ambiental deixou de ser uma marca de uma pessoa ou de um grupo, mas passou a ser uma corrente sustentada. Em 1962 aparece um relatório do Clube de Roma, sobre os limites do crescimento, e a necessidade de a humanidade ter de definir quais os limites. Nascem nesta altura as Escolas da Economia Ecológica, com personalidades de inspiração religiosa, Herman Daly, teólogo John B. Cobb, e o inglês Ernst Friedrich Schumacher. Há vários nomes que vão fazendo um concerto de vozes que ajudam a criar a urgência de pensar noutros termos a sustentabilidade e por isso, surgirão cimeiras e conferências internacionais das Nações Unidas, por exemplo”, conta.

Rachel Carson e Barbara Ward foram “duas mulheres com coragem que falaram e insistiram, consumiram as suas vidas, lutando por estas questões”, reconhece.

«Gente de pouca fé?» é um espaço que a Agência ECCLESIA mantém a cada domingo com Mendo Castro Henriques, que pretende, ao longo da Quaresma, destacar percursos e testemunhos de contemporâneos que “se movem num espaço entre a fé e a falta dela”.

LS

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