Juan Ambrósio, professor da Faculdade de Teologia da UCP, projeta nova encíclica

Foto: Assis, Itália

Lisboa, 03 out 2020 (Ecclesia) – Juan Ambrósio, professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (UCP), disse à Agência ECCLESIA que a nova encíclica, que o Papa assina hoje em Assis, é um desafio a um mundo “fraterno”, com uma Igreja de serviço.

“Estamos habituados a pensar o mundo a partir do indivíduo, de cada um”, mas o Papa desafia todos a “pensar-se a partir dos outros”, numa “dinâmica da dádiva”, indicou, numa entrevista que vai ser emitida este domingo, no programa ECCLESIA na Antena 1 da rádio pública (06h00).

A encíclica ‘Fratelli Tutti’ é assinada junto ao túmulo de São Francisco de Assis, após a celebração da Missa, e vai ser divulgada este domingo, dia em que a Igreja Católica celebra a festa litúrgica do fundador dos Franciscanos.

Juan Ambrósio destacou o impacto da pandemia, que “trouxe ao de cima tantas fragilidades”, projetando uma preocupação do Papa em rejeitar uma ideia de “nova normalidade” e encontrar “paradigmas diferentes”.

“Devemos evitar uma normalidade igual ao que era antes da Covid, limitando-nos ao que a doença está a exigir: máscaras, distanciamento, higiene de mãos… O que nós temos verdadeiramente é o desafio de construir um mundo novo”, precisa o professor da UCP, destacando que a “existência cristã é constitutivamente relacional”.

O teólogo reconhece no Papa Francisco a mesma maneira de pensar, sobre a Igreja e o mundo, com atenção aos “sobrantes, os que estão a mais” para a cultura dominante.

A este respeito, cita a exortação apostólica ‘Evangelii Gaudium’, de 2013, onde se pede que as comunidades católicas estejam atentas às “periferias” e combatam a “cultura do descarte”.

“Aí já está o tema da fraternidade, não deixar ninguém de fora, incluir”, precisa.

Para Juan Ambrósio, o Papa propõe uma “inversão de paradigma”, para “pensar o centro a partir das periferias”.

O pontificado tem procurado propor uma Igreja “renovada”, que faz caminho em conjunto, “sinodalmente”, com um objetivo explicado pela encíclica ‘Laudato Si’: “Cuidar da casa comum, construir um mundo diferente, onde não haja espaço para sobrantes”.

O membro da Comissão Executiva da Rede Cuidar da Casa Comum, dedicada à divulgação e concretização desta encíclica, destaca a importância do “laboratório” da Amazónia, na qual se compreende a ideia de que “tudo está interligado”, num trabalho que exige que todos “trabalhem em conjunto”, independentemente de raças ou religiões.

Juan Ambrósio recorda a impacto do Sínodo especial de 2019, sobre a região pan-amazónica, que convidava à “escuta de Deus, até ouvir com Ele o grito do povo”

Foto: Lusa/EPA

Ainda em 2019, o Papa assinou em Abu Dhabi uma declaração conjunta sobre a Fraternidade Humana, para a paz mundial e a convivência comum, com o imã de Al-Azhar – a mais conceituada instituição teológica e de instrução religiosa do Islão sunita no mundo e a mais antiga universidade islâmica, tendo sido construída em 969.

“Pedimos a todos que deixem de usar as religiões para incitar o ódio, a violência, o extremismo e o fanatismo cego, e que se abstenham de usar o nome de Deus para justificar atos de assassinato, exílio, terrorismo e opressão”, refere o documento

Juan Ambrósio sustenta que, “em cima da mesa, neste momento, está uma nova maneira de ser Igreja, muito menos preocupada consigo própria”.

“O cuidado dos outros não decorre do facto de sermos cristãos, é a maneira como nós somos cristãos. A ação social, a caridade, não são uma ação em consequência de um ser, é a marca tipificante do próprio ser cristão”, acrescenta.

Num discurso aos jovens cubanos, em 2015, o Papa definia a amizade social, outro dos temas anunciados da nova encíclica, como a “busca do bem comum”, contraposta a uma “inimizade social que destrói”.

Para o docente da UCP, a amizade social é “fruto de uma comum pertença à humanidade”, num mundo que se tornou “inabitável e inóspito para cada vez mais pessoas”.

“O paradigma tem de ser outro, temos de ir por outro caminho”, conclui.

A encíclica é o grau máximo das cartas que um Papa escreve e a expressão ‘Fratelli Tutti ‘ (aos irmãos todos, em tradução livre) remete para os escritos de São Francisco de Assis, o religioso que inspirou o pontífice argentino na escolha do seu nome.

As duas anteriores encíclicas do atual pontificado foram a ‘Lumen Fidei’ (A luz da Fé), de 2013, que recolhe reflexões de Bento XVI, Papa emérito; e a ‘Laudato Si’, de 2015, sobre a ecologia integral.

OC

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