«É difícil pensar que este desastre mundial não tenha a ver com a nossa maneira de encarar a realidade», escreve Francisco

Foto: Lusa/EPA

Cidade do Vaticano, 04 out 2020 (Ecclesia) -O Papa Francisco alertou hoje a sua nova encíclica ‘Fratelli Tutti’, que tem como temática central a fraternidade e amizade social, para o impacto da pandemia nos mais velhos, falando em vidas “descartadas”.

“Vimos o que aconteceu com as pessoas de idade nalgumas partes do mundo por causa do coronavírus. Não deviam morrer assim. Na realidade, porém, tinha já acontecido algo semelhante devido às ondas de calor e noutras circunstâncias: cruelmente descartados”, denuncia, num texto divulgado pelo Vaticano.

A encíclica é o grau máximo das cartas que um Papa escreve e a expressão ‘Fratelli Tutti ‘ (todos irmãos) remete para os escritos de São Francisco de Assis, o religioso que inspirou o pontífice argentino na escolha do seu nome.

Francisco admite que a “tragédia global” da Covid-19 gerou a consciência de “uma comunidade mundial que viaja no mesmo barco”, deixando cair as “múltiplas máscaras” dos seres humanos.

“Se tudo está interligado, é difícil pensar que este desastre mundial não tenha a ver com a nossa maneira de encarar a realidade, pretendendo ser senhores absolutos da própria vida e de tudo o que existe”, escreve, antes de rejeitar a ideia de “castigo divino”.

“A Covid-19 que deixou a descoberto as nossas falsas seguranças. Por cima das várias respostas que deram os diferentes países, ficou evidente a incapacidade de agir em conjunto, acrescentou.

O Papa espera que a resposta à crise sanitária não leve a mais “consumismo febril” e “novas formas de autoproteção egoísta”.

Oxalá não seja mais um grave episódio da história, cuja lição não fomos capazes de aprender. Oxalá não nos esqueçamos dos idosos que morreram por falta de ventiladores, em parte como resultado de sistemas de saúde que foram sendo desmantelados ano após ano. Oxalá não seja inútil tanto sofrimento, mas tenhamos dado um salto para uma nova forma de viver”.

Num olhar sobre os meses da pandemia, o Papa considera que apesar de muitos viverem “hiperconectados” se verificou “uma fragmentação” que tornou mais difícil resolver os problemas que afetam todos.

Francisco rejeita a lógica do “salve-se quem puder” e elogia quem é capaz de optar pelo “cultivo da amabilidade”.

“Médicos, enfermeiros e enfermeiras, farmacêuticos, empregados dos supermercados, pessoal de limpeza, cuidadores, transportadores, homens e mulheres que trabalham para fornecer serviços essenciais e de segurança, voluntários, sacerdotes, religiosas… compreenderam que ninguém se salva sozinho”, acrescenta.

A nova encíclica dedica atenção especial às pessoas com deficiência, considerados “exilados ocultos”, tratados como “corpos estranhos à sociedade”.

O Papa lamenta que muitas destas pessoas vivam sem “pertença nem participação”, denunciando tudo o que as impede de “beneficiar da plena cidadania”.

A encíclica ‘Fratelli Tutti’ foi assinada este sábado, junto ao túmulo de São Francisco de Assis; simbolicamente, o documento é divulgado a 4 de outubro, dia em que a Igreja Católica celebra a festa litúrgica deste santo.

OC

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