Ricardo Perna e Octávio Carmo analisam encíclica do Papa Francisco

Foto: Lusa/EPA

Lisboa, 06 out 2020 (Ecclesia) – Ricardo Perna, da revista Família Cristã, considera que a nova encíclica do Papa é “um programa para os próximos tempos”, marcados pela pandemia e as crises que se lhe seguiram.

Em declarações à Agência ECCLESIA, o jornalista fala da ‘Fratelli Tutii’ como uma espécie de discurso do “estado do planeta”, com uma análise muito “dura” das situações negativas que marcam a humanidade atual.

O texto, acrescenta, reforça a preocupação com a globalização da “indiferença”, visível na atual crise provocada pela Covid-19.

Ricardo Perna vê no documento do Papa um alerta para as consequências “graves” da manutenção de um modelo global que explora seres humanos, descartando pessoas e recursos.

“Quem tem mais poder, económico e político, tem de conseguir abdicar do mesmo em favor das populações excluídas e menos desenvolvidas”, assinala.

O especialista da ‘Família Cristã’ sublinha que Francisco procura promover o diálogo e encontrar consensos, o que “implica cedências de parte a parte”, no plano social e económica.

“A miséria que não se resolve nos países mais pobres, neste mundo globalizado, acabará por vir bater-nos à porta”, aponta.

A ‘Fratelli Tutti’, indica o jornalista, convidada a colher a experiência local para que todos sejam “globalmente mais empáticos, próximos uns dos outros”, numa humanidade em crise, marcada também pela “cada vez maior ausência do aspeto religioso, espiritual”

O entrevistado destaca, nesse sentido, a importância declaração sobre a Fraternidade Humana assinada em 2019, em Abu Dhabi, com o imã de Al-Azhar, citada em diversas ocasiões na nova encíclica.

Ricardo Perna projeta uma boa aceitação da ‘Fratelli Tutti’, à imagem do que aconteceu com a encíclica ‘Laudato Si’ (2015), admitindo maior atenção face às próximas eleições presidenciais nos EUA, face às passagens dedicadas à “caridade política” e à defesa de uma visão nobre desta atividade.

“Falta aos nossos políticos a noção de missão”, acrescenta.

Fratelli Tutti’ foi assinada, simbolicamente, este sábado, em Assis, junto ao túmulo de São Francisco – e não “junto de São Pedro”, no Vaticano, como é tradição – sendo dirigida aos católicos e “todas as pessoas de boa vontade”.

 

O bispo do Porto publicou um comentário, na página da Diocese do Porto, em que destaca as consequências do “processo de globalização financeira”, promotor de um “paradigma antropológico do homem-consumidor”.

“Neste ciclo não cabe a dimensão fraterna, alegre, respeitadora da natureza e simples do viver em comum”, lamenta D. Manuel Linda.

Em resumo: a dimensão política matou a fraternidade e a globalização martirizou a igualdade. Se é que também não fez o mesmo à liberdade… Porém, há uma terceira força, ostensivamente afastada de cena: a religião. Melhor: as religiões”.

O bispo do Porto acredita que as religiões têm um papel de “recuperação da fraternidade”.

A encíclica é o grau máximo das cartas que um Papa escreve e a expressão ‘Fratelli Tutti ‘ (todos irmãos) remete para os escritos de São Francisco de Assis, o religioso que inspirou o pontífice argentino na escolha do seu nome.

Octávio Carmo, jornalista da Agência ECCLESIA, vê no documento publicado este domingo um “testamento espiritual” do Papa Francisco, projetada para o futuro e para a criação de “novos paradigmas” de vida em sociedade, como paradigma a um “globalismo sem rumo”.

“É uma síntese de um pontificado aberto sobre o mundo”, assinala.

O vaticanista sublinha a reflexão centrada sobre a exploração de seres humanos por outros seres humanos, marcada por um “sentido de urgência”.

“Estamos num momento da história em que é imperativo escolher de que lado ficamos”, assinala, considerando que a nova encíclica propõe “paradigmas” diferentes para a organização social e a vida económico-financeira.

PR/OC

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