Senhor dai-me força para mudar o que pode ser mudado.
Resignação para aceitar o que não pode ser mudado.
E sabedoria para distinguir uma da outra.
São Francisco de Assis

Faz um ano, estava a cumprir missão na República Centro Africana como 2º Comandante da Missão Multidimensional da ONU para aquele país. Era também o oficial português mais graduado e, por isso, com uma responsabilidade acrescida para com os nossos compatriotas que ali serviam, no âmbito da ONU e da União Europeia.

Aqueles que me conhecem, sabem bem o quão reservado sou, sendo muito raras as ocasiões em que me expresso sobre as minhas vivências, pessoais e profissionais, as suas alegrias e também as tristezas, antes optando por falar e escrever no plural daqueles que comigo servem.

Deste modo, o repto que me foi lançado pelo senhor Bispo das Forças Armadas e de Segurança, para escrever sobre a minha experiência pessoal de cumprir uma missão em tempo Natalício, constitui para mim um enorme desafio de humildade, ao qual procurarei responder, transmitindo o meu sentir, daqueles que comigo estavam na República Centro Africana e, claro, da família que por Portugal ficou.
Estávamos em plena época Natalícia, em Portugal vivia-se a pandemia COVID 19 com grande intensidade, situação que acompanhávamos com grande atenção e preocupação, com a esperança que não atingisse nenhum dos nossos familiares, o que infelizmente veio a acontecer. Na República Centro Africana a situação estava bastante mais complicada, também com o COVID 19, a que se juntava o desenvolvimento de uma ofensiva generalizada por parte dos Grupos Armados, que ia criando sucessivas crises humanitárias por onde passava, cujo principal objetivo era ocupar a capital Bangui e, assim, impedir a realização das eleições, depor o Governo e o Presidente da República.

Foi, pois, neste quadro que vivemos a noite de Natal, vigilantes e empenhados, uns guarnecendo os postos no Quartel-General, dormindo numa cama de campanha e ceando uma ração de combate, outros, destacados para os locais mais perigosos e exigentes, onde combateram e detiveram a progressão dos elementos dos grupos Armados, contribuindo assim para que a normalidade possível fosse assegurada, e que o povo martirizado da RCA pudesse gozar a sua consoada.

Distribuídos entre Bangui e Bossembele, alguns de nós, nem todos, conseguiram falar com as suas famílias, deste modo atenuando a dor da sua ausência. Partilhávamos entre nós as alegrias de ouvir a voz da bebé de um camarada, da consoada em família de outro, mas também as tristezas daqueles que assistiam impotentes ao sofrimento da sua família em Portugal, atingida devastadoramente pelo COVID 19. Fomos ainda mais família nessa noite, solidários, amigos e próximos.

Agradecemos nessa altura a mensagem do Senhor Bispo das Forças Armadas e de Segurança, que nos indicou com clareza quais os valores pelos quais nos devíamos orientar, e nos quais poderíamos igualmente encontrar conforto. Desde logo, “o rosto da solidariedade”, o porquê de estarmos neste martirizado país, dar o nosso melhor, oferecer o nosso tempo, fazer as pontes de diálogo e criar as redes de entreajuda, tendo sempre por referência a nossa principal responsabilidade, para proteger as pessoas. O segundo valor que o Senhor D. Rui Valério nos transmite é o da “alma da confiança”. De facto, não obstante tanta adversidade, e atentados à dignidade humana, que diariamente observávamos, sempre confiámos que seriamos capazes de desenvolver a esperança num futuro melhor. Os militares portugueses faziam a diferença pela sua competência, dedicação, imparcialidade e proximidade. Onde estávamos, víamos o olhar confiante, observávamos o sorriso das pessoas, naturalmente mais espontâneo nas crianças e, assim, foi na noite de Natal, uns a dirigir, outros a executar, mas todos irmanados dos mesmos propósitos. A nenhum passava a ideia de se ausentar, era preciso continuar a inspirar a confiança nos cidadãos e nos muitos contingentes das mais diversas nacionalidades. Nesta noite, talvez mais do que em qualquer outra, era importante estar presente, fazer ouvir a voz do comandante, para todos saberem que estávamos com eles e que em nós poderiam continuar a confiar. Foi assim também na noite de Natal, em Bossembele, a nordeste de Bangui, onde só a presença da nossa Força permitiu que aí se celebrasse o Natal. O terceiro valor “respeito pela dignidade humana” ganha especial acuidade neste país, em que quase tudo falta, em que as ameaças aos direitos humanos são perpetradas sobre uma população indefesa, reinando o sentimento de impunidade. Assegurar que todos estavam presentes no terreno, que vigiavam para zelar pelo bem-estar e segurança daqueles que, despojados de quase tudo, apenas pretendiam celebrar o Natal era um grande desafio, também porque muitos dos contingentes professavam outras religiões. Mas, posso dizer com muita segurança, todos estávamos irmanados dos mesmos valores humanistas, nos quais a promoção e a proteção da dignidade humana eram cimento e força motriz. O quarto valor, “coração da paz”. Como sublinha o Papa Francisco na mensagem para o dia Mundial da Paz de 2021 “a cultura do cuidado é percurso de paz”, nós, fomos chamados a cuidar do bem-estar do povo centro-africano, procurando a paz e, como dizia D. Rui Valério, na sua mensagem de Natal “seguimos o caminho pela estrada do bem-fazer e do fazer-bem” que nos permite o reconhecimento pelo nosso trabalho em proveito da paz. Esta noite, todos, sem exceção, procurávamos continuar a fazer o bem, com atenção seguíamos o evoluir da situação, alegrávamo-nos quando não se confirmavam as intenções hostis ou quando conseguíamos prevenir algum ataque, muitas vezes só por conseguir estar no local e momento certos. Não procurávamos reconhecimento, apenas queríamos que o povo Centro-africano não sofresse ainda mais.

Passada esta atribulada noite de Natal, a que se sucedeu mais um dia de intenso trabalho no Quartel-General da MINUSCA, o sucesso das nossas ações permitiu que a maioria das populações tivesse um dia de Natal calmo, um pouco por todo o país, tive a oportunidade de contatar os militares portugueses que estavam na Missão da União Europeia e o núcleo de apoio logístico, ambos em Bangui, que felizmente celebravam com alegria o Natal. Com o contingente que estava em Bossembele apenas falava por telefone, naturalmente preocupado com a sua segurança, pois a situação continuava muito instável naquela região. O Comandante garantia-me que todos estavam bem, que haviam tido o Natal possível. Celebraram na sua família, que testemunho, era unida e fraterna. Estou certo que, cada um, à sua maneira, foi capaz de encontrar alegria na camaradagem que tanto e tão bem cultivavam.

E nós, que estávamos em Bangui, agora um pouco mais libertos, pudemos finalmente celebrar o nosso Natal. De regresso à casa onde vivia com a minha equipa mais próxima, uma família de cinco militares, que vivemos juntos, ininterruptamente, durante mais de um ano. Com eles partilhava alegrias, algumas tristezas e também a exigência da missão. Forjamos uma amizade forte, grande cumplicidade e um enorme compromisso com a nossa missão. Com eles fui capaz de me superar em muitas ocasiões, viver com as adversidades, partilhar confidências. Foram a minha família em África.

A nossa celebração Natalícia, foi uma sucessão de surpresas, que revelaram uma cultura de cuidado e preocupação. Desde logo, pela decoração Natalícia da casa, que apareceu, parece que do nada. O presépio estava lá, a árvore de Natal também, complementadas por alguns enfeites africanos, que nos ligavam àquele país, às pessoas e aos costumes locais. Depois, o bacalhau, que estava em cima da mesa, acompanhado de outros produtos portugueses, que nos fez lembrar a mesa familiar, tão tradicionalmente portuguesa. Mas a maior surpresa ainda estava para vir. Um de nós, em total segredo, conseguiu fazer chegar a cada um, presentes da família. No nosso desconhecimento, contatou as nossas famílias, montou uma complicada logística e fez acontecer. Um gesto que nos soube tão bem, por inesperado, e porque nos trazia a família para bem perto. Também aqui tivemos Natal, de cuidado, de dádiva, de alegria.

Os dias que se seguiram continuaram a ser de grande exigência. As eleições realizavam-se no dia 27 de dezembro, e era preciso continuar muito vigilante. Era o tempo de estar no terreno, dia e noite, próximo dos vários contingentes responsáveis pela segurança de Bangui, confirmar a proteção dos vários locais críticos e assegurar que todas as assembleias de voto estavam montadas e a funcionar. Felizmente conseguimos garantir as condições para a realização das eleições, que, não obstante bastantes percalços, viriam a ser reconhecidas internacionalmente. Foi tão gratificante ver um povo a exercer livre e alegremente o seu direito de voto.

Foi só no dia um de janeiro que pudemos assistir à missa, a primeira em língua portuguesa desde a nossa chegada havia já um ano, pois tínhamos connosco um Capelão Militar, que em boa hora nos foi enviado para celebração e conforto, e foi também neste dia que reencontrámos o contingente português na Missão da União Europeia, para um alegre almoço de convívio.

Faltava ainda visitar os nossos militares que estavam em Bossembele. O meu empenhamento na condução das operações não me tinha permitido sair de Bangui, cidade por cuja segurança era responsável; uma tarefa que acrescia a muitas outras que me haviam sido confiadas do antecedente. Foi, finalmente, possível viajar para aquela localidade no dia 6 de janeiro. Por motivos de segurança, viajamos de Helicóptero, pois ainda havia combates entre os grupos armados e os as forças governamentais ao longo da estrada que conduzia àquela povoação, o principal eixo rodoviário do país, que liga Bangui aos Camarões. Viajei com a minha equipa de segurança, “acompanhado” dos mimos possíveis, nos quais se incluía o bolo rei, para entregar à Força. Para quem estava há mais de quinze dias a comer ração de combate, imaginem a alegria dos nossos militares. Também aqui se cumpriu Natal, de solidariedade, de cuidado, de reconhecimento pelo esforço feito para proteger as pessoas e contribuir para a paz.

Passar esta quadra Natalícia longe da família, embora não seja a primeira vez, revestiu-se de alguma singularidade, que adveio de uma situação enquadrante muito diferente e mais exigente do que as anteriores. De facto, foi a primeira vivida num ambiente de elevada conflitualidade, geradora de graves ameaças sobre as populações da República Centro Africana. Foi também aquela em que estava investido da maior responsabilidade de Comando sobre um contingente de cerca de 14.000 soldados da ONU implantados num território com uma área superior à França. Porque tinha o contingente português empenhado numa operação de elevadíssimo risco. Por sentir que com a minha ação de comando poderia ajudar a fazer a paz e trazer a confiança a todo um povo martirizado. Por sentir que não podia defraudar as expetativas que em mim depositavam. Senti, por isso, a nobreza do SERVIR, da dádiva de mim por uma causa e pela defesa dos mais nobres valores. Senti também o quão importante é a compreensão e o apoio da família, que vivia tempos muito difíceis e exigentes para aceitar a nossa ausência, para cerrar fileiras em torno dos problemas que vão surgindo, procurando libertar-nos para a nobreza da nossa missão. Mas também gostaria de relevar a importância dos pequenos gestos dos amigos e camaradas, os telefonemas, a partilha das boas notícias, a preocupação e compreensão manifestadas, que, às vezes, nos faziam encontrar forças para continuar a prosseguir no caminho do bem.

Nesta passada quadra Natalícia senti, sobretudo, o quão relevantes e inspiradores podemos ser para os outros quando somos competentes e referência dos valores da solidariedade, da disponibilidade e da entrega.

Valeu a pena!

Major General Eduardo Mendes Ferrão

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