Filósofo católico, especialista de metafísica, Jean-Luc Marion entra na Academia francesa, onde ocupará a cadeira do seu amigo Cardeal Lustiger. A sua eleição, em 6 de Novembro último, para a Academia Francesa passou praticamente desapercebida. Silêncio perturbador se nos lembrarmos que acompanharam as de Jean-Loup Dabadie ou de Jean-Chriophe Rufin. A instalação do filósofo Jean-Luc Marion, homem pequeno cheio de vivacidade, sorridente com o seu inamovível papillon, na cadeira do seu amigo cardeal Lustiger não é, no entanto, surpreendente. Ex-redactor chefe da revista católica Communio, este activo conselheiro frequentou os maiores teólogos (entre eles o actual papa, Joseph Ratzinger) e muito cedo se tornou amigo do futuro bispo de Paris. Mas em que momento se estabelece um dado destino intelectual? Nas pistas dos estádios que este corredor de fundo, especialista dos 1000 metros, praticava assiduamente? Na época, ele elevava as cores do Estádio francês. Tempo de referência: 2’ 43’’. Uma boa cadência para o antigo aluno da escola da comuna de Meudon que, em 1967, integra a Escola normal superior. Aí é aluno de Ferdinand Alquié e de Jean Beaufret, mas também de Jacques Derrida e de Louis Althusser. Licenciatura e filosofia, iniciação à teologia católica e, desde logo, a direcção da revista Réssurrection de 1967 a 1973. Depois da agregação, Marion torna-se assistente de Alquié na Sorbonne. A sua tese torna-o o especialista de Descartes. Professor em Poitiers e em Nanterre, regressa à Sorbonne em 1995, para assumir a cadeira de metafísica e dirigir o Centro de estudos cartesianos. Os seus trabalhos – L’Ontologie grise (1975), La Théologie blanche (1981) ou Le Prisme métaphisique (1986) – procuram subtrair o pensamento do Discours de la méthode a uma abordagem puramente científica para a reinscrever no movimento da história do ser. O que não o impede de percorrer alguns atalhos. No campo da banda desenhada, publicou, com Alain Bonfand, em 1977, Tintin le terrible ou l’Alphabet dês richesses. No da pintura, será publicado na próxima primavera, um seu ensaio sobre Courbet, nas edições da La Différence. No cruzamento da história da filosofia, da teologia e da fenomenologia, o seu pensamento marca os últimos trinta anos. O seu brilho condu-lo a dirigir a colecção “Épiméthée”, na PUF, e a participar na refundação dos arquivos Husserl na École Normale superior. Ensina frequentemente nos Estados Unidos – estadias durante os quais aproveita para se apropriar de todas as subtilezas do campeonato de baseball. Desde 2004 ocupa a cadeira que foi de Paul Ricoeur na universidade de Chicago. Com os seus trabalhos sobre “a dádiva”, a fenomenologia permite-lhe abordar questões muitas vezes negligenciadas pela filosofia. Em 2003, Le Phénomène érotique tem um grande eco: entre “o sentimentalismo desesperado da prosa popular” e “a pornografia frustrada da indústria dos ídolos”, ele procura reconstruir uma interrogação autêntica sobre o amor. Como dizer ”amo-te” no meio do desastre amoroso contemporâneo? O seu último livro, Au lieu de soi. L’Approche de saint Augustin, visa restituir a unidade interna da imensa obra do bispo de Hipona. O voltar-se para a interioridade, privilegiada por Agostinho, responsabiliza um eu “em atraso relativamente a si-próprio” voltado para fora de si, não se cristalizando na matéria pensante (como em Descartes), mas em força de amor. Aquele que doravante representará a filosofia ao lado de René Girard e de Michel Serres não se deixa adormecer sob os louros do seu novo jeito e não esquece que o pensamento é uma corrida de fundo nunca ganha definitivamente: “A maioria das vezes não pensamos, reflectimos: reflectimos o que nos acontece sem o transformar e sem o compreender”. De Jean Luc-Marion a Revista Communio publicou: Nada é impossível para Deus; Ama para que entendas. A hermenêutica cristã do mundo; Apologia do argumento. Aliocha Wald Lasowski in “Le Magazine Littéraire”, Janeiro 2009 (Trad: Maria do Loreto Paiva Couceiro). Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

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