“É no universal que nos realizamos como Povo”, afirmou recentemente o Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio no dia de Portugal e das Comunidades, em Bragança. Uma constatação que é sinal da globalidade, acolhimento e alegria “marítima” que marcam a nossa alma: identidade nacional! Afinal, sempre fizemos do acolher o outro e de receber em casa, uma festa! Chegaram os “estrangeiros”. O Portugal tranquilo “à beira da Europa plantado” é, outra vez, invadido. Não vêm para trabalhar. Vêm para o Futebol. Contudo, devido à hodierna conjectura global pós-atentados terroristas, o País lança-se, por um lado, em medidas excepcionais de controlo e de criação de estruturas que garantam eficazmente a segurança dos jogadores e do público e, por outro, que impeçam o engrossar das “quotas” da imigração ilegal e os excessos dos mais violentos da bola. Na verdade, está-se diante de um medo diferente daquele que o País tem crescentemente manifestado face aos imigrantes sob a forma de xenofobia e um racismo “politicamente correcto”. A palavra “estrangeiro” é sempre mais associada a medo, a perigo, a invasor… Os tempos mudaram. Não são os da sorridente EXPO 98 é certo, porém o EURO 2004 revela-nos uma Europa “ameaçada” que se tornou espaço inseguro e violento. Por isso, Portugal, em conformidade com as regras internacionais, toma precauções excepcionais para o bem de todos: as fronteiras foram repostas suspendendo o mítico Acordo “Schengen”, o terrorismo ameaça em cada esquina de multidão devido ao perpetuar-se da situação do Iraque e Afeganistão, as claques pacíficas e os “hooligans” violentos coabitam dentro e fora dos 10 estádios, e foram criados os temíveis “centros temporários de detenção para estrangeiros” candidatos à expulsão e repatriamento… O “estrangeiro” adquire uma nova conotação e, por conseguinte, estigmatização e a “liberdade de circulação” é vigiada policialmente! Afinal, o “dogma” europeu da liberdade de movimento parece necessitar de imediata reforma. No entanto, por umas semanas de alguma “alienação nacional”, o País vai esquecer os “apitos dourados”, que ainda continuam a existir e a alimentar a intransparente “indústria” nacional futebolística, como também ocultar outros “pecados sociais” – sem arrependimento à vista! – denunciados pelos bispos. Inesperadamente o negócio e a moda das Bandeiras da República pegaram como nunca; os Estádios modernizados – que os imigrantes ajudaram a construir e a terminar dentro dos prazos previstos – ficaram prontos a horas; o delicado destino da Selecção foi entregue a um estrangeiro de um país irmão da CPLP – o Brasil –; os nossos jogadores “emigrantes”, melhor aplaudidos lá fora do que cá, foram convocados e regressaram temporariamente. Em tudo paira uma “mestiçagem” cultural e cooperação transnacional que tem em cada equipa europeia em campo a “parábola” mais fiel e eloquente da identidade e cidadania europeias. As identidades ultrapassam os limites das fronteiras e até de continentes! Há algo novo no ar de que é preciso tomar consciência: uma outra cidadania, um outro modo de ser nação e povo! O que significa hoje dizer-se português, grego, francês, holandês, lituano, russo? O EURO, como o Encontro de Povos que praticam desporto, surge também como ocasião para “desmistificar” nacionalismos, separatismos e laicismos exacerbados, tacanhos, demagógicos e adversários que noutras matérias políticas, como acontece face à Imigração, à Família, à Vida, ao Trabalho e Asilo, parecem persistir entre os europeus. Mas, desta vez longe da alegria dos estádios e dos técnicas de balneário. Esse outro jogo de interesses que divide os Povos continuará a jogar-se nos Parlamentos e nos fóruns da Sociedade Civil. Será, de maneira especial, aí que nós teremos que agitar a bandeira dos direitos humanos, da justiça e da coesão social. Será um eterno campeonato que promete durar enquanto houver jogadores dispostos a jogar para ganhar troféus de dignidade e humanidade. Assiste-se, nestes dias, a uma excepcional demonstração de patriotismo à volta do futebol. Um sentimento colectivo reforçado pela exaltação “mediática” dos símbolos nacionais – Bandeira e Hino – que lamentavelmente não tem sido visto noutras áreas e momentos aonde ele se poderá tornar decisivo para o presente do País e da Europa no mundo: o Emprego e a Saúde, a Ciência e Tecnologia, a Agricultura e o Ambiente, o Mar e as Pescas, a Migração, as Eleições, só para citar alguns. Pelo contrário, nota-se indiferença social, descomprometimento político e muito pouco orgulho nacional. Por isso, pergunto-me: é patriotismo ou bairrismo provinciano? Estranho?! Em geral, orgulhamo-nos de ser portugueses em questões secundárias e lúdicas, em vez de o fazermos com forte “sentido nacional” e intransigente responsabilidade solidária em questões principais e decididamente vitais para o bem comum nacional ou internacional. A única excepção foi a luta por Timor Lorosae, se a memória não me falha, que uniu o País nos últimos 30 anos. Portugal e Timor pareciam uma única Pátria. “Portugal é a ousadia de um Povo (…). Um futuro para Portugal há-de medir-se pela capacidade de construir pontes entre as culturas, de pôr os homens em diálogo, de contribuir para o progresso da humanidade concebida como uma única família humana”. (cfr. Carta Pastoral “Responsabilidade solidária pelo bem comum”, nº 33). Foi dito recentemente e com razão! Portanto, depois dos Estádios, unamo-nos para construir pontes de diálogo e de progresso para todos! Aprendamos a ver nas migrações internacionais uma formidável oportunidade “pontifícia” de Unidade entre Povos e invistamos com realismo e utopia na edificação universal de uma “sociedade integrada”! Rui M. da Silva Pedro Director da Obra Católica Portuguesa de Migrações

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