Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Imaginarias alguma vez salvar pessoas de pijama? Apesar de parecer ridículo, essa parece ser a direcção daquilo que está a acontecer. O que é sensato, não é alarmista. E não me passa pela cabeça estarmos a ser derrotados por um minúsculo vírus, mas desafiados. Curiosamente, o tempo que se avizinha pode ser uma oportunidade que só em filmes acontece.

Faz hoje uma semana que recebi um e-mail da Universidade de Coimbra, onde dou aulas, para suspender todas as aulas presenciais. Havia pessoas que me diziam estarmos a entrar de férias, mas isso está longe de ser a recomendação da Universidade. Muito pelo contrário, essa convidou-nos a ser criativos, procurando soluções de ensino à distância, apesar das limitações que isso acarreta.

A minha experiência é a de que nada substitui o ensino presencial, mas vi neste desafio uma oportunidade de realizar coisas novas, de aprender, de ter de sair da minha zona de conforto para chegar aos alunos e, quem sabe, inspirá-los a aprender. E neste cenário, há escolhas que são mais importantes do poderíamos pensar.

De MAIS a MENOS e de MENOS a MAIS

O facto de ser necessário restringir os nossos contactos sociais à família mais próxima, e aos encontros ocasionais para reabastecer de alimentos essenciais, significa que uma boa parte do tempo em que não estamos em modo de teletrabalho é um tempo de solitude. Diferente de solidão onde nos isolamos dos nossos pensamentos e dos outros. A solitude é antes quando nos encontramos com os nossos pensamentos para reflectir e aprender a saber estar sozinho e a nos libertarmos de nós mesmos para estarmos mais disponíveis para os outros.

Muitos não têm qualquer problema com os períodos de solitude quando esses são uma escolha pessoal. Mas diante deste cenário, o facto de não serem uma escolha pessoal, o efeito em nós parece ser diferente.

A escolhas sobre o modo como usamos o nosso tempo quando temos menos opções disponíveis, tornam-se apenas um problema se nos deixarmos levar pela ansiedade. Porém, podemos pensar de uma maneira diferente. E talvez o que esteja a acontecer seja uma oportunidade para mudarmos de estilo de vida, descobrindo outros modos de nos ligarmos aos outros.

Parados em casa sem sair, a tendência será a de navegar MAIS pela net, jogar MAIS online, ver MAIS filmes e séries em streaming na Netflix, ou serviços semelhante. Mas, e se em vez de MAIS escolhêssemos MENOS? Navegar MENOS à deriva por conteúdos e redes sociais, MENOS vídeos no Youtuve, MENOS distracções digitais.

Aliás, se quisermos escolher fazer algo MAIS, que tal ler MAIS, escrever MAIS, jogar MAIS jogos de tabuleiro (algo possível em família), aprender algo MAIS que antes não tínhamos tempo? Os tempos de solitude e tédio são oportunidades para nos conectarmos de um modo diferente e responsável, aprender coisas novas e compreender melhor o que se passa à nossa volta.

O pânico é uma escolha que nos impede de produzir seja o que for, mas podemos escolher antes uma generosidade produtiva quando procurarmos ajudar quem está à nossa volta.

Esta é uma situação sobre a qual não temos um grande controlo, o que traz incerteza à nossa vida e ninguém gosta desta mistura que nos torna emotivos e reactivos, quando crises como esta podem tornar-se em ocasiões para aprender a gerir as emoções e a agir (em vez de reagir) com mais responsabilidade.

Ser testado

À primeira vista, parece-nos que somente as pessoas com sintomas do COVID-19 é que são testados, mas eu penso que TODOS estamos a ser testados.

Testados nos nossos estilos de vida, na resiliência, no modo como nos relacionamos, na capacidade de viver o equilíbrio entre prudência e sobriedade, na paciência connosco próprios e com os outros, no modo como lidamos com o que não podemos controlar, na capacidade de responder à dor com amor e no quanto estamos (des)apegados ao que temos.

Este período de solitude é, também, um convite a viver no essencial. Ter um novo olhar sobre hábitos de higiene que antes não dávamos muita importância. Será um teste à nossa fé em acolher o que nos reserva cada momento presente e à confiança que temos na inteligência que Deus nos deu para superar cada dificuldade.

A tendência para vermos o negativo será grande e contra-producente, mas se invertermos o nosso pensamento e nos focarmos no que é positivo, ou naquilo que podemos fazer com as limitações impostas pelas circunstâncias, quem sabe quantas coisas novas podemos descobrir sobre nós próprios.

Por exemplo, o facto de não poder dar aulas presenciais impulsionou-me a dar as aulas através de streaming. Não é a mesma coisa porque gosto de ver a reacção na cara dos meus alunos a algo que digo, podendo explicar melhor uma parte ou outra. Mas depois de ter dado a primeira aula prática online, comentei a um dado momento compreender que ter aulas assim pode não ser fácil porque a tentação de ir ver outras coisas na internet é grande. Mas, uma aluna escreveu-me que, pelo contrário, sentiu que o seu rendimento foi muito superior ao das aulas presenciais, e que ganhou um novo sentido de responsabilidade e empenho. Inesperado para mim e que me deixou muito feliz pela experiência que fez.

Onde há uma razão, há tempo. Quem sabe se este tempo de solitude não é o momento perfeito para parar, pensar e reencontrar as razões que nos movem. Razões que nos ajudam a fazer de cada obstáculo, um trampolim.

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