No último discurso de despedida, o prior da Comunidade Cartusiana de Scala Coeli revelou que os superiores da Ordem queriam que o Mosteiro fechasse há 30 anos

Évora, 31 out 2019 (Ecclesia) – O prior do Mosteiro da Cartuxa de Évora fez esta quinta-feira o seu último discurso de despedida após “um mês emocionado e emocionante”, revelando que a Ordem queria que os monges saíssem há 30 anos.

“Quero contar-vos que esta despedida de hoje, 31 de outubro de 2019, devia e podia ter sido feita há trinta anos. Em 1989, a Ordem Cartusiana decidiu fechar Scala Coeli, como fechou outras”, disse o padre Antão López, na Igreja do Salvador, em Évora.

No discurso de despedida de Portugal, divulgado pelo Jornal “A Defesa”, da Arquidiocese de Évora, o prior da Cartuxa lembrou que há 30 anos a Ordem fechou os Mosteiros de Jerez, onde estavam 12 monges, e de Zaragoza, com  11 cartuxos.

“Aqui deixaram-nos 5 e a mim como responsável para preparar o abandono”, afirmou.

O prior da Cartuxa de Évora disse que os cinco monges estavam “felizes e contentes” por estar “numa casa cheia de história”, com “o claustro mais belo da Ordem”, sentindo-se “enamorados” daquele mosteiro.

Após terem convencido os superiores a permanecer, há 30 anos, voltaram a ter de insistir em 2011, porque as indicações da Ordem eram no sentido deixar o Alentejo.

“Retorquíamos que vivíamos integralmente a vida cartusiana como nas nossas Casas grandes. Nonagenários e octogenários, não omitimos nem uma só noite o nosso canto”, argumentaram os monges cartuxos de Évora.

Este ano, os responsáveis pela Ordem Cartusiana voltaram a pedir aos monges para deixar a Comunidade Scala Coeli, lembrando que “antes da morte vem a invalidez”.

O prior da Cartuxa de Évora referiu que a persistência dos monges em permanecer em Évora é uma demonstração do “amor” da comunidade para com a cidade, que agradeceu e homenageou os cartuxos durante “um mês emocionado e emocionante”.

“Se a Cidade nos despede com afeto, permitam-nos despedir-nos dizendo que aqui temos persistido o mais tempo possível, lamentando ser tão velhos e não podermos esperar mais”, afirmou.

O padre Antão López desejou que, mesmo sem a  presença dos “vizinhos brancos”, em Évora, a “recordação que possa continuar” e a “estimular a todos a rezar mais e melhor, em momentos procurados de silêncio e solidão, hoje raros e difíceis, mas tão saborosos que valem a pena”.

“Queridos amigos eborenses, alentejanos, portugueses: se não mais vereis Cartuxos em Évora, em Portugal, procure cada um de vós ser um bocadinho Cartuxo, imitar um bocadinho a nossa vida silenciosa e recolhida, se não continuamente pelo menos de vez em quando. E, sobretudo, imitai o nosso desejo de ser santos, de viver unidos a Deus, isto não de vez em quando mas sempre”, concluiu o padre Antão López.

Os cartuxos de Évora fixaram o dia 31 de outubro para deixar o Mosteiro Scala Coeli por causa da “burocracia, recibo da luz, segurança social, conta bancária”, lembrou o prior, concluindo um mês de despedida que começou no dia 6 de outubro, com a ordenação de um antigo cartuxo, prosseguiu no dia 7, quando presidiu à Missa conventual, e depois a 8, quando aconteceu uma “despedida eclesial à Ordem na igreja monumental da Cartuxa” com a presença de mais de 1500 pessoas no Mosteiro.

Uma comunidade monástica feminina vai habitar o Mosteiro da Cartuxa, continuando a arquidiocese com um “pulmão ecológico de espiritualidade”, como referiu o arcebispo de Évora, D. Francisco Senra Coelho.

PR

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