«Patient advocate», que já passou por graves problemas de saúde, lamenta confusão de conceitos que reina na sociedade portuguesa

Fotos: RR/Miguel Rato

Lisboa, 27 fev 2020 (Ecclesia) – Raquel Abreu, que superou uma doença incapacitante e é hoje uma ‘patient advocate’, dedicando-se a acompanhar doentes com patologias graves, crónicas e raras, defendeu que é necessário “cuidar das pessoas” e nunca se pode “desistir” dos doentes.

“Vamos cuidar das pessoas enquanto elas sofrem. E sofrem até ao fim da vida, não é só depois de termos decidido se a doença que estamos a tratar tem cura ou não. Não podemos desistir dos nossos doentes”, referiu, na entrevista conjunta semanal Ecclesia-Renascença, que é publicada e emitida à sexta-feira.

Uma semana depois da aprovação, no Parlamento, de cinco projetos lei com vista à futura legalização da eutanásia, a entrevistada lamenta confusão de conceitos que reina na sociedade portuguesa, considerando que é preciso, também, parar tratamentos quando não há mais nada a fazer, rejeitando a distanásia.

“O que me preocupa muito foi que não se ouviram os especialistas, fez-se tábua rasa do que disseram os especialistas”, observa, criticando a “pressa” com que se legislou sobre esta matéria.

A ‘patient advocate’ considera inevitável que a legislação portuguesa ceda à lógica da “rampa deslizante”, admitindo cada vez mais “exceções”, assim que a eutanásia for despenalizada.

“A natureza humana é sempre a mesma. Os portugueses não são diferentes dos belgas, dos holandeses”, justifica.

Considerando o referendo como último recurso para travar a legalização da eutanásia, Raquel Abreu admite que está em causa “um esforço monumental” da sociedade civil e dos movimentos pró-vida, numa “enorme luta de consciencialização”.

Para a entrevistada, que tem dado a sua voz a várias iniciativas contra a legalização da eutanásia, a mentalidade vigente passa por “tratar a doença e não o doente”.

“É exatamente a obstinação terapêutica que fundamenta e que tem fundamentado a discussão em Portugal da necessidade da eutanásia”, indica.

Na década de 90, Raquel Abreu chegou a estar ligada à máquina e a receber morfina, e passou cinco anos entre uma cadeira de rodas e canadianas; em 2014 foi-lhe diagnosticada outra doença incurável, autoimune.

“Eu jamais pensei em pedir que me aliviassem o sofrimento, matando-me. Isso, para mim, está fora de questão”, assume.

A entrevistada considera que o sofrimento também pode ser “uma oportunidade de crescimento” e admite que, no seu caso, a ajudou a “reinventar” o sentido da vida.

“O meu apelo [aos deputados] é que, com o mesmo zelo, entusiasmo e vontade com que se dedicaram, tão prontamente, à legalização da morte assistida, se dediquem, já, a partir de hoje, à criação de uma rede de cuidados paliativos”, conclui.

Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

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