Sacerdote é capelão na Clínica de S. João de Ávila, da Ordem Hospitaleira, que integra uma unidade especializada em cuidados paliativos

Lisboa, 27 fev 2018 (Ecclesia) – A Clínica de S. João de Ávila em Lisboa, ligada à Ordem Hospitaleira de São João de Deus, integra uma das poucas unidades do país especializadas em cuidados paliativos e no acompanhamento aos doentes terminais e suas famílias.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, o capelão desta instituição, o padre Alberto Mendes, realça a importância de numa época em que se debate tanto “a eutanásia”, em que se discute “tirar a vida”, haver projetos que mostram que é possível “cuidar da pessoa” no fim da vida, “para que o sofrimento seja mais leve ou não haja sofrimento”.

“Nós aqui nunca tivemos um pedido direto de ‘eu quero morrer, matem-me’, as pessoas pedem isso sim é para aliviar o sofrimento, estão a sofrer muito às vezes e necessitam desse controlo sintomático”, sublinha o sacerdote.

Atualmente estão em debate no Parlamento várias propostas de partidos relacionadas com a eutanásia, destinadas à legalização ou despenalização da morte medicamente assistida.

Para o padre Alberto Mendes, a tónica deve estar “sempre na defesa da vida”, que significa também “intervir” na “dor” das pessoas, naquilo que muitas vezes as faz perder o alento e a esperança, seja de origem “física, social, espiritual”

Daí que esta unidade de saúde gerida pela Ordem Hospitaleira de São João de Deus aposte numa equipa multidisciplinar com a capacidade de responder às necessidades dos doentes em “todas as suas dimensões”.

“As pessoas têm muito medo de sofrer. Quando conseguimos assegurar que esse sofrimento tem uma resposta e assumimos esse compromisso de não abandono das pessoas, transmitimos um sentimento de segurança”, frisa Sofia Raquel Viegas, a enfermeira coordenadora da Unidade de Cuidados Continuados.

Nenhum sintoma é deixado ao acaso e o caminho passa pela criação de um plano com o doente e com a sua família.

De acordo com a enfermeira, “trabalhar o sentido de vida” é fundamental neste processo, porque é aí que os doentes encontram muitas vezes “o sentido do sofrimento”.

“É muito trabalhar o que foi o passado, o que é o meu presente, e de que maneira consigo perspetivar os dias que tenho, com maior qualidade de vida. Falamos muitas vezes em deixar biografias escritas e perceber quais são os objetivos”, conta aquela profissional de saúde.

Esses objetivos passam frequentemente por coisas simples como “estar com a família, momentos que ainda querem partilhar, conseguir estar num aniversário, num almoço de Natal”.

Hugo Lucas, especialista em Psicologia e que integra a equipa de Cuidados Paliativos da Clínica S. João de Ávila, frisa que a prioridade deveria estar sempre em proporcionar “que o percurso normal da natureza”, neste caso a morte, aconteça com a “maior dignidade possível”, “claramente” o que acontece em projetos deste género, onde acontece “uma morte acompanhada quer do ponto de vista farmacológico quer não farmacológico, com todas as abordagens que sejam possíveis, incluindo a espiritual e religiosa”.

Neste contexto, Hugo Lucas lamenta que o debate atual esteja centrado na questão da eutanásia e não na criação de um serviço nacional de cuidados paliativos, acessível a todos.

“Tenho a certeza que não chegamos a todas as pessoas, que não chegamos a todas as famílias. Esta é a questão fundamental, isto para mim é que é urgente e premente do ponto de vista daquilo que possam ser quaisquer atitudes regulatórias por parte dos organismos políticos, no sentido daquilo que seja a construção das propostas alternativas que fazem parte do Serviço Nacional de Saúde”, conclui o psicólogo.

Os temas da eutanásia e dos cuidados continuados estiveram no centro do mais recente Programa 70×7, emitido este domingo na RTP2.

HM/JCP

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