Rémi Brague sublinha importância de respeitar conceção cristã do ser humano, esteio do mundo ocidental

Lisboa, 21 mai 2091 (Ecclesia) – O filósofo e académico francês Rémi Brague, vencedor do ‘Prémio Ratzinger’ em 2012, defendeu em Lisboa que a erosão da própria identidade cultural é uma ameaça maior para a Europa do que perigos externos.

“O fulcro da questão é a conceção de ser humano que está subjacente à cultura europeia”, que não foi inventada, mas foi “fortemente influenciada” pela visão cristã do homem “criado à imagem de Deus” e com uma “dignidade especial”, disse em entrevista conjunta à Renascença e Agência ECCLESIA.

O docente emérito das Universidades de Sorbonne e de Munique considerou que “ninguém, com exceção dos cristãos, é capaz de dizer porque é que os seres humanos devem ter essa dignidade”, distinguindo-os de outros seres que também têm elementos de vida social.

Rémi Brague, tido como um dos intelectuais e académicos católicos mais respeitados na Europa, entende que as ameaças ao Velho Continente derivam de uma “ameaça fundamental”, ou seja, a incapacidade de os seres humanos se respeitarem a si mesmos.

O filósofo refere que as ameaças internas são “ainda mais perigosas”, como acontece com os populismos atuais, criando fortalezas de supostas “identidades reais”, com base políticas ou religiosas.

Se perdermos este sentimento de legitimidade, como povo europeu, não seremos capazes de produzir antídotos a ameaças externas”.

O especialista sublinha que a “aventura da Europa é uma aventura de expansão”, com capacidade histórica de “autocrítica”; nesse sentido, tem alertado para o que chama de “marcionismo cultural” –  uma referência ao século II, quando uma corrente cristã ligada ao nome de Marcion queria cortar os laços com o Antigo Testamento –, valorizando a “consciência da continuidade” em contraponto à “ideia estúpida de que não há nada a aprender com os outros”.

“Há uma tendência, uma propensão ao longo de toda a história cultural da Europa, de deitar fora o que veio antes, de renunciar à dimensão positiva da tradição”, observa.

O auto francês realça que as pessoas que “puxam os cordelinhos” devem fomentar esta “aventura europeia”, para que o continente não perca dimensão global.

“No presente, se olharmos para a forma como as ditas elites europeias veem o mundo, a ideia básica é que somos os mais simpáticos, os mais inteligentes, os mais bonitos, e todos os outros têm de imitar o que fazemos”, lamenta.

Por outro lado, existe muita “curiosidade” sobre o que vem de fora e pouca capacidade para estudar o que é “realmente interessante”.

Brague declara que aquilo que tornou a Europa possível foi “o facto de a cultura europeia, nas suas elites, ter escolhido colocar em prática as propostas da filosofia”, distinguindo entre o que é “bom” e o que é “meu”, enquanto propriedade.

“Desde que mantenhamos esta distinção em mente, conseguimos criar ferramentas” para distinguir as coisas pelo seu “valor”, independentemente da sua origem, precisa.

Especializado em filosofia medieval e religiões abraâmicas, Rémi Brague observa que Deus está para lá das “representações” que se fazem dele e que as mesmas palavras ou os mesmos nomes, na Bíblia e no Corão, têm conteúdos “distintos”.

“As histórias que contamos sobre eles são muito diferentes”, insiste.

Como exemplo, refere que no Islão a misericórdia é fundamental, mas numa conceção de Deus “misericordioso em relação às pessoas que lhe obedecem”.

“A ideia de que Deus nos poderia perdoar, enquanto ainda estamos a tentar ou mesmo a querer desobedecer-lhe” é totalmente estranha à religião islâmica.

“Isto torna o diálogo inter-religioso particularmente traiçoeiro”, adverte.

O trabalho académico do ‘Nobel’ de Teologia tem-se centrado no estudo da cultura e da civilização ocidental, com obras também sobre a religião, identidade nacional e direito.

Para Brague, o Islão pode ser uma ameaça à Europa se os europeus não colocarem diante dos migrantes e refugiados muçulmanos os seus valores próprios, “com força intelectual, moral e espiritual”.

“A verdadeira ameaça é, pela sua natureza, interior”, é a “falta de confiança, de acreditar em si”, por parte dos europeus, indica.

Se a cultura europeia for poderosa, intelectual e espiritualmente, qualquer ameaça exterior pode ser enfrentada, ainda que não eliminada”.

A respeito da chamada crise dos refugiados, o entrevistado distingue os deveres de ajuda imediata do direito a comportar-se a “regras que não são europeias, pela sua natureza ou origem”.

“Na Europa, sê europeu”, aponta.

O docente universitário alerta para o risco de os países europeus “sugarem” os jovens mais qualificados dos países pobres, “com os seus conhecimentos e energia”, para assegurar um melhor nível de vida para os seus próprios cidadãos, evitando o “trabalho sujo”.

Não tenho a certeza de que receber todas estas pessoas seja algo tão moralmente adequado como parece”.

No contexto do seu trabalho e pesquisa, o filósofo já recebeu várias distinções, incluindo o prestigiado Prémio Ratzinger, em 2012; no ano seguinte foi feito cavaleiro da Legião de Honra francesa.

Rémi Brague manifesta “grande admiração” pelo Papa emérito Bento XVI e a sua dimensão intelectual: “Podíamos dizer exatamente onde é que se concordava com ele e onde é que se discordava”.

O filósofo mostra-se “perplexo”, por outro lado, com algumas intervenções do Papa Francisco sobre temas em que considera haver falta de aprofundamento e declarações “ingénuas”.

“Compreendo que haja pessoas que se sintam inseguras”, admite.

Questionado sobre a liberdade na Europa da atualidade, o membro da Academia Católica da França diz que esta equivale ao que seria, no mundo antigo a “liberdade dos escravos, fazer o que se quer”.

“A verdadeira liberdade significa obediência a algo como a lei, um código de honra, a consciência”, contrapõe.

O autor usa a imagem do táxi que circula sem passageiros, “livre”: “Está vazio, não sabe para onde tem de ir e pode ser ocupado por qualquer pessoa que o consiga pagar”.

Rémi Brague visita Lisboa para proferir uma conferência sobre o futuro da Europa, marcada para as 18h30 de hoje, no auditório Cardeal Medeiros da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa.

Filipe Avillez (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

OC

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