Comunidade sobrevive no território desde o século I, com ritos próprios

Foto: Fundação AIS

Cidade do Vaticano, 04 mar 2021 (Ecclesia) –Francisco vai iniciar esta sexta-feira a primeira viagem de sempre de um Papa ao Iraque, onde o Cristianismo está presente desde o século I, apesar das guerras, terrorismo e discriminação legal.

Muitos dos lugares do Iraque são referidos na Bíblia, desde o seu primeiro livro, com destaque para Ur – a terra natal de Abraão – ou Nínive, locais que o Papa vai visitar durante três dias de “peregrinação”, como o próprio apresenta a visita apostólica.

Segundo a tradição, o Apóstolo Tomé, antes de seguir o seu caminho até à Índia, terá deixado na região dois discípulos, Mar Addai e Mar Mari.

Da sua pregação nasceu uma Igreja que, nos primeiros séculos do cristianismo, demonstrou uma enorme vitalidade e se espalhou nas regiões que hoje são a Síria, o Irão e o Iraque.

As raízes cristãs são testemunhadas por mosteiros e conventos nos séculos V e VI.

A chamada Igreja Assíria do Oriente obteve a autonomia no Concílio de Markbata, em 492, com a possibilidade de eleger um patriarca com o título de “Católico”.

Em 1830 o Papa Pio VIII nomeou o “patriarca da Babilónia dos Caldeus” como chefe de todos os católicos caldeus; a sede deste Patriarcado era Mossul, no norte do Iraque, e seria transferida para Bagdade em 1950, após a II Guerra Mundial.

O rito caldeu é um dos cinco principais ritos do cristianismo oriental e desenvolveu-se entre os séculos IV e VII, antes da conquista árabe.

A denominação de “caldeu” prevalece no Ocidente desde o séc. XVII, embora os habitantes da região prefiram a designação “siro-oriental”.

As celebrações conservam o uso do aramaico, num dialeto moderno, e possuem gestos, espaços e ritmos particulares, que remontam ao tempo dos primeiros apóstolos, nalguns casos: a Palavra é proclamada desde o “bema”, uma tribuna situada no meio da Igreja, como sinal de Jerusalém, centro do mundo, onde Jesus ensinou.

A consagração eucarística, chamada “santificação” tem lugar no “santo dos santos”, símbolo do céu, e a comunhão desenrola-se no “gestroma”, um local entre a assembleia e o santuário, como sinal do paraíso.

O Papa Francisco vai tornar-se, este sábado, no primeiro pontífice a presidir à Missa em rito caldeu, numa cerimónia marcada para a Catedral de São José, em Bagdade, que em 2010 foi alvo de um ataque terrorista da Al-Qaeda.

A situação dos cristãos no território iraquiano foi acompanhada com particular atenção pelos Papas, nas últimas décadas, a começar pelas intervenções de São João Paulo II contra as Guerras do Golfo (1991 e 2003).

O Papa polaco tencionava visitar a terra natal de Abraão, patriarca bíblico que é referência para judeus, cristãos e muçulmanos, mas seria impedido pelo regime de Saddam Hussein.

Já Bento XVI manifestou em novembro de 2007, no consistório em que criou cardeal o então patriarca de Babilónia dos Caldeus, Emanuel Delly, a sua “preocupação e afeto” pelas comunidades iraquianas.

“Esses irmãos e irmãs experimentaram na própria carne as consequências dramáticas de um conflito que persiste”, assinalou.

Em 2018, após a derrota militar do Daesh, o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, foi ao Iraque elogiar o testemunho da comunidade católica, “que se tornou um exemplo vivo para todos os cristãos do mundo”.

Em 2019, o Papa Francisco anunciou aos participantes na Reunião das Obras de Ajuda às Igrejas Orientais (ROACO) o desejo de viajar ao país do Médio Oriente em 2020, visita adiada até agora por causa da pandemia.

A importância de preservar a presença histórica dos cristãos no país e a necessidade de garantir-lhes segurança foram destacadas a 25 de janeiro de 2020, durante o segundo encontro oficial do Papa com o presidente iraquiano Barham Salih, no Vaticano.

O cardeal Parolin destaca, em declarações ao portal ‘Vatican News’, que Francisco retoma as suas viagens, após mais de um ano de suspensão, “voltando sua atenção para um país particularmente sacrificado, um país que carrega no seu corpo as feridas da guerra, do terrorismo, da violência, dos confrontos”.

“O objetivo e o significado da viagem é precisamente o de manifestar a proximidade do Papa com o Iraque e com os iraquianos; e de lançar uma mensagem importante: devemos trabalhar juntos para reconstruir o país, para curar todas essas feridas e para reiniciar uma nova etapa”, indica.

O secretário de Estado do Vaticano destaca o encontro com o grande aiatola Al-Sistani, líder xiita, realçando que este “sempre falou a favor da coexistência pacífica no Iraque, dizendo que todos os grupos étnicos, os grupos religiosos, são parte do país”.

Estima-se que mais de um milhão de cristãos tenha deixado o Iraque nas últimas décadas.

O território conta com comunidades de diversas tradições – caldeus, sírios, arménios, latinos, melquitas, ortodoxos e protestantes.

Uma das imagens da perseguição foi a letra ‘nun’ que o autoproclamado Estado Islâmico inscrevia nas casas dos “nazarenos”, os cristãos, em Mossul, para os expulsar da planície de Nínive; a alternativa seria a conversão ao Islão ou o pagamento de um imposto.

 

O Vaticano recorda que já na época da ditadura de Saddam Hussein se começou a verificar uma crescente emigração dos católicos, situação que se agravou depois da segunda Guerra do Golfo.

A partir de 2004 houve uma série de atentados contra igrejas cristãs, situação que se agravou em 2014, com os ataques do ‘Estado Islâmico’; muitos cristãos procuraram refúgio no norte do país, habitado maioritariamente por população de etnia curda.

Entre 2003 e março de 2015, foram mortos 1200 cristãos – entre os quais D. Paulos Rahho, o arcebispo de Mossul dos caldeus, assassinado em 2008, cinco sacerdotes e as 48 vítimas do ataque jihadista em 31 de outubro de 2010 contra a Igreja siro-católica de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro; 62 igrejas foram danificadas ou destruídas.

Dos cerca de 1,5 milhões de cristãos que viviam no Iraque antes da segunda Guerra do Golfo, em 2003, estima-se que permaneçam 250 mil, uma diminuição de mais de 80%.

Num relatório divulgada no final de 2019, a fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) alertava para o risco de “desaparecimento” do Cristianismo no Médio Oriente.

O documento sublinhava o “impacto” da perseguição contra comunidades cristãs em países como a Síria ou o Iraque no início deste século, falando mesmo em “período de genocídio”.

OC

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