Dioceses acolhem celebração sinodal, a nível mundial, pela primeira vez na história

Lisboa, 16 out 2021 (Ecclesia) – As dioceses católicas de todo o mundo vão acolher este domingo, pela primeira vez na história, uma cerimónia de abertura do Sínodo, por decisão do Papa Francisco, promovendo a auscultação e mobilização das comunidades, durante dois anos.

A 16ª assembleia geral do Sínodo dos Bispos vai decorrer em outubro de 2023, um ano depois do que estava inicialmente agendado, por causa da pandemia, sendo precedida por um processo inédito de consulta, com assembleias diocesanas e continentais.

A assembleia convocada pelo Papa tem como tema “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”.

Francisco presidiu à sessão de abertura e à Missa inaugural do processo sinodal, a 9 de outubro, perante uma delegação de centenas de pessoas, no Vaticano, que incluía cardeais, bispos, sacerdotes, religiosos e leigos dos cinco continentes.

Este conjunto de celebrações dá  início à “fase consultiva” da 16ª assembleia geral do Sínodo dos Bispos, a partir de um documento preparatório, um questionário e um vademécum (guia prático), com propostas de consulta em cada diocese.

Em setembro de 2018, o Papa publicou a constituição apostólica ‘Episcopalis Communio’ (Comunhão Episcopal) com a qual reforçou o papel do Sínodo dos Bispos, sublinhando a importância de continuar dinâmica do Concílio Vaticano II (1962-1965).

Em mais de 50 anos, as assembleias sinodais foram sempre consultivas, mas o Papa recorda que, segundo o Direito Canónica, o Sínodo goza de “poder deliberativo”, quando lhe é concedido pelo pontífice.

A nova constituição apostólica promove uma aproximação das assembleias sinodais ao modelo dos concílios ecuménicos [mundiais], como o que foi realizado entre 1962 e 1965, o Vaticano II, em quatro sessões.

O Sínodo dos Bispos pode ser definido, em termos gerais, como uma assembleia de representantes dos episcopados católicos de todo o mundo, a que se juntam peritos e outros convidados, com a tarefa ajudar o Papa no governo da Igreja.

A irmã Lúcia Pereira Manso, da Conferência Eclesial da Amazónia (Brasil), diz à Agência ECCLESIA que o desafio é “escutar aquelas vozes que ninguém escuta, chegar aos lugares onde ninguém chega”.

Nathalie Becquart, subsecretária do Sínodo e coordenadora da Comissão de Metodologia, apresenta o processo convocado pelo Papa como “um apelo à mudança, para que a Igreja tenha este estilo de irmãos e irmãs em Cristo, como uma só família, uma Igreja Povo de Deus que caminha junta, onde todos têm o seu lugar e se ouvem, uns aos outros, para escutar o Espírito Santo”.

D. Luis Marín de San Martín, subsecretário do Sínodo e coordenador da Comissão Teológica, destaca, por sua vez, a necessidade de “desenvolver estruturas de participação”, sem limitar a sinodalidade aos encontros de bispos.

Para o teólogo venezuelano Rafael Luciani, membro da Comissão Teológica do Sínodo, é necessário que as estruturas eclesiais se reconfigurem.

“Isso significa que as relações de participação, que antes eram à imagem de uma pirâmide, onde o laicado ajudava, mas não era realmente um sujeito, hoje, com a sinodalidade, mudam, têm de mudar. Esse é o apelo do Sínodo, para que nos consigamos entender numa relação mais horizontal, de participação de todos pelo Batismo, como dizemos na Teologia”, precisa.

O Sínodo segue-se a grandes assembleias, nos últimos anos, dedicadas à família, aos jovens e à Amazónia.

O padre Alexandre Awi Mello, secretário do Dicastério para os Leigos, Família e Vida (Santa Sé) defende uma “abertura da Igreja para as periferias, os que estão mais afastados”.

“Todas as famílias têm algo a dizer, as famílias que estão a passar por crise, as que já estão separadas, as que estão a passar por momentos difíceis. Todas essas famílias estão a chamadas também a participar neste processo sinodal e fazer ouvir a sua voz”, acrescenta.

Sem perder de vista a essência do Sínodo dos Bispos, o percurso inédito, em três fases, proposto pelo Papa Francisco, quer incluir todos, a começar pela base laical da Igreja, promovendo uma mudança de perspetiva.

Carmen Peña García, professora de Direito Canónico na Espanha e membro da Comissão Teológica, precisa que “a missão da hierarquia, que é própria, específica, deve fazer-se em escuta”.

“Nesse processo convém que seja ouvido o maior número de fiéis, dentro do razoável, sabendo sempre que a decisão é tomada, no final, pela autoridade. Mas é diferente que o faça de forma individual, autorreferencialmente, do que como consequência e fruto desse processo de escuta”, aponta.

Foto: Synod.va

Durante os próximos meses, deve ser lançada uma consulta a nível paroquial, com os fiéis a serem convidados a participar em sessões de diálogo.

Em março, haverá um encontro diocesano e nacional, seguido de um continental, com o processo a ser concluído em outubro de 2023, com a assembleia geral do Sínodo dos Bispos, no Vaticano.

O percurso sinodal promovido pelo Papa Francisco, de forma alargada, está em destaque na próxima emissão do programa ‘70×7’, este domingo, pelas 17h30, na RTP2.

OC

Sínodo: Dioceses inauguram fase inédita de consulta local, por decisão do Papa

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