Relação maternal dos mineiros e seus familiares com a santa católica é marcada pela interioridade

Representação de Santa Bárbara

Beja, 03 dez 2019 (Ecclesia) – A devoção a Santa Bárbara. que a Igreja celebra anualmente a 4 de dezembro. acompanha a vida dos mineiros em Aljustrel, numa relação maternal e silenciosa, que procura na intimidade a proteção diária para o trabalho.

“A relação com Santa Bárbara é especial: todos a adoram, mas todos evitam falar nela. Em casa era usual ouvir falar de Santa Bárbara, mas só a conheci depois de ser adulto. Isto porque as pessoas não gostam de falar sobre ela. Gostam e idolatram-na, mas expor o sentimento que têm é apenas, e somente, para eles e para Santa Bárbara. É um confessionário”, refere à Agência ECCLESIA António Campos, neto, sobrinho e filho de mineiro, que integra o Grupo Coral do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Mineira de Aljustrel.

“Santa Bárbara identifica-nos, mexe com as pessoas derivado à mina e à proteção pelos mineiros. Há sempre um sinal de respeito, seja a pessoa mais ou menos crente, há sempre algo que toca”, explica Tiago Pereira, da Paróquia de Aljustrel, recordando as celebrações neste dia em que a imagem sai da igreja matriz e percorre a localidade numa procissão.

Este ano, “sendo dia de semana”, a festa vai cingir-se à celebração religiosa na igreja matriz da vila alentejana.

A última vez que a imagem saiu há rua foi há quatro anos, em cortejo automóvel, “passando pelos bairros mineiros: Algares, Val D’Oca, de Santa Bárbara e de São João”.

“A imagem percorreu em cortejo automóvel. Foram «motards» à frente, todos eles mineiros, acompanhando assim a procissão”, recorda Tiago Pereira.

Fotografias antigas mostram que a 4 de dezembro de 1951 a imagem de Santa Bárbara desceu para abençoar a mina e os trabalhadores, ladeada por mineiros que seguravam o andor, voltando depois à superfície para prosseguir a procissão; outra imagem ilustra a procissão em torno da santa, acompanhada por Nossa Senhora do Castelo, padroeira de Aljustrel.

Dizem-nos que à entrada de cada mina a imagem de Santa Bárbara saúda o início e o final de cada dia: “Tenho amigos na mina que me dizem que não baixam ao fundo sem se benzerem, e quando saem é igual: sentem que têm uma proteção divina que os acompanha na missão”, dá conta Tiago Pereira.

 

“É curioso que os mineiros quando passam pela própria santa é quase que impensável, até por instinto, eles olham para ela e sai sempre qualquer coisa, mais que não seja no seu íntimo. E o desejo é aquele que ela está disposta a protegê-los, que é a morte. Quando se está exposto a um perigo iminente, só temos de apelar a Santa Bárbara e isso é o que todos os mineiros fazem, mas de uma forma muito pessoal e muito confidente entre os dois só”, indica António Campos.

Funcionário público, António Campos cresceu entre as músicas e as histórias dos mineiros que em Aljustrel entram em todas as casas: nunca foi mineiro mas viu o avô, pai e tios descerem à mina para trabalhar e sabe que aquele ar entranha-se em todos os aljustrelenses.

As gerações mais novas vão assimilando todas estas histórias e mantendo a imagem de mineiro como sendo quase de «herói» por todas as razões. Nós falamos de pessoas que têm uma vida que no fundo quando não estão a dormir, estão debaixo de terra. A luz do sol raramente entra pelos seus olhos o que é uma coisa que nos deve pôr a pensar”.

Talvez a solidão e a escuridão da mina ganhe consequências na personalidade dos mineiros, traduzida na sua devoção silenciosa a Santa Bárbara.

“O sentimento que nós temos sobre a mina é muito profundo, sentimo-la e referimo-nos à mina como se fosse nossa. O ambiente pode ter muito a ver com a personalidade do mineiro, mas o mineiro é uma pessoa corajosa, que gosta de enfrentar os problemas olhos nos olhos. Há sempre um companheirismo forte – tem de haver, caso contrário ninguém consegue estar no interior de uma mina sozinho”, explica António Campos.

“Os mineiros estão nas entranhas da terra, estão na escuridão, há sempre uma luz que os ilumina, uma proteção que a pessoa não fica insensível. Quando se baixa às entranhas da terra. Há sempre alguém que os protege”, conta ainda Tiago Pereira.

O dia da celebração litúrgica da padroeira convida a entoar o cântico a Santa Bárbara e o Hino dos Mineiros e foram várias as ocasiões em que o Grupo Coral do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Mineira entrou na igreja matriz da vila alentejana para emocionar os participantes.

 

A exploração mineira parou em Aljustrel em 1992 e, nessa altura, a devoção “esmoreceu” mas a tradição quer-se recuperar.

“Nos anos 90 houve uma quebra e agora tem-se procurado manter a devoção. No dia 4 de dezembro há sempre missa e procuramos vivenciar, umas vezes em parceria com a autarquia, ou a junta de freguesia, mas agora tem sido só a parte religiosa com a eucaristia”, explica Tiago Pereira.

Apesar de profissionalmente a vida o ter encaminhado para outros percursos, este jovem de 32 anos trabalhou alguns meses na mina, à superfície, mas desde o seu nascimento que se habituou a ser mineiro, através do seu pai, a quem ofereceu uma imagem de Santa Bárbara, guardada na mesa-de-cabeceira.

O vigário-geral da Diocese de Beja, a celebrar os 250 anos da sua restauração, dá conta da natureza contemplativa dos alentejanos, com marcas profundas de religiosidade.

“A religiosidade natural ou popular está muito patente e diria que é uma 1ª pedra ou alicerce sobre o qual podemos construir a fé em Cristo. Penso que é transversal a toda a sociedade alentejana, este sentido e esta religiosidade é algo que a diocese, em si, tem de trabalhar, conhecer melhor e tem de saber como responder e como elevar da religiosidade natural à fé em Cristo”, explica o padre Rui Carriço.

Tiago Pereira dá conta de uma “vergonha” na assunção das práticas cristãs marcadas por devoções maternais.

“Fazemos uma procissão do corpo de Deus, do Santíssimo e vem muita gente, mas se fazemos a Nossa Senhora, é um mar de gente com as ruas cheias”, explica.

Nas ruas que organizam a vila de Aljustrel ou do Lousal, aldeia mineira no concelho de Grândola, encontram-se as marcas de Santa Bárbara na toponímia e nas imagens ao longo das ruas, sinal de uma companhia silenciosa de uma relação maternal, vivida longe do sol.

LS

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