O pai queria que o filho fosse militar, a mãe advogado, mas o “menino Toninho” desde cedo gostou de pregar na varanda e decidiu entrar no seminário aos 10 anos. 50 anos depois da ordenação sacerdotal, D. António Marto partilha memórias do percurso formativo, académico e episcopal, e da forma como foi considerando o perfil do padre

Entrevista conduzida por Paulo Rocha

Agência ECCLESIA (AE) – Na infância, na sua aldeia, em Chaves, o seu pai queria que fosse militar e a sua mãe advogado, mas o “menino Toninho” já pregava na varanda. Que ideia tinha do ser padre na altura?

António Marto (AM) – Eu sou oriundo de uma aldeia serrana de Trás-os-Montes, conservo as raízes telúricas e as recordações de infância num tempo muito diferente do atual: era uma aldeia predominantemente católica, com o ritmo da vida marcado pelo campanário e as grandes celebrações eram as religiosas… Eu morava perto da casa paroquial, era assíduo às celebrações e o pároco ensinou-me latim para poder dar as respostas à Eucaristia e, como ele era amigo próximo, meu e da minha família, ficava encantado com a maneira como ele se relacionava com as pessoas, pela beleza da liturgia, tendo sempre a noção de que era Deus que estava presente. Interiormente fui elaborando esta ideia de ser padre como ele.

 

AE – E foi isso que o levou para o seminário?

AM – Sim, foi isso que me levou ao seminário e também pelo encanto que tinha pela figura de Jesus, que se aprendia na catequese, não como hoje, mas ficava o encantado pelo mistério de Deus e da figura de Jesus.

 

AE – Mas houve pouco entusiasmo familiar com esta ideia…

AM – Quando revelei esta intenção, depois de ter terminado o 4º ano da escola primária, o meu pai ficou surpreendido, porque nunca tinha dito a ninguém. Começou por apresentar as suas reservas: que era muito novo, que era melhor estudar fora no liceu e depois decidiria, que gostaria muito que fosse para os Pupilos do Exército. Eu respondi que se não me deixasse ir para o seminário, não iria estudar para lado nenhum… O meu pai contava isso e dizia que pediu conselho aos amigos que lhe disseram: deixar ir o rapaz e depois ele decidirá, na idade mais madura. E assim foi.

Entrei para o seminário com 10 anos, acompanhado pelo meu pai, com a mala e o enxoval que se exigia. O meu pai deixou-me lá no seminário, não havia visitas frequentes, porque não era fácil a mobilidade como nos tempos de hoje. Recebia uma visita a cada trimestre e depois nas férias, Natal, Páscoa e férias grandes.

Eu gostava de ser seminarista, até porque as pessoas da aldeia consideravam o seminarista, davam grande atenção ao menino seminarista.

 

AE – Acredito que estas reservas, por parte do seu pai e familiares, tivessem na origem o facto de dois irmãos terem falecido muito cedo…

AM – É natural! Ele só me disse mais tarde. Não gostava muito de falar da morte dos meus irmãos porque os dois morreram de acidente e era algo doloroso para ele. Uma vez contou-me essas histórias mas sem me dizer que era a razão das reservas.

Quando fui crescendo, fui conhecendo outros padres no seminário que tinham acabado de se formar e ser ordenados e exerciam a função de prefeitos com muita jovialidade. No seminário vivia-se boa camaradagem, embora fosse com disciplina bastante férrea.

 

AE – Em Vila Real e depois no Porto?

AM – Em Vila Real durante todo o tempo de seminário menor e alguns anos do seminário maior e depois fui terminar ao Porto, em 1968.

 

AE – É nessa ocasião que tem de esperar dois anos para ser ordenado e opta pela experiência fabril? Marcou-o de alguma forma essa decisão?

Foto: Agência ECCLESIA/MC

AM – Aos 18 anos tomei a decisão de ser padre, uma decisão madura, com os sobressaltos que uma vocação conhece, até porque quando via os amigos a sair também me apetecia sair com eles. Mas depois veio um diretor espiritual, um jesuíta, muito bom que nos ajudou a conhecer verdadeiramente a Jesus nos Evangelhos e nos ajudou no discernimento vocacional, chamava-se padre Norberto Martins. Recordo porque foi ele que me ajudou a tomar a decisão final e amadurecida.

Depois fui para o Porto. O bispo de então, D. António Cardoso Cunha, que recordo com muita saudade, homem que tinha acabado de estar em todas as sessões do Concílio, era formado em História, com uma visão clarividente. O Concílio tinha terminado em 1965 e ele, em 1968, decidiu que era insustentável ter um seminário maior na diocese, não só do ponto de vista económico mas também formativo, porque eram poucos os alunos, muitos mais os professores e decidiu que os alunos de Teologia iriam para outro seminário. Chamou os professores e prefeitos da casa e pôs-lhes o problema: está decidido que termina o Seminário Maior na Diocese e vão estudar para fora. E deu a escolher Lamego ou Porto. E escolheram o Porto! Ele respondeu – isto foi-me contado por ele – o meu coração pendia para Lamego, por ser natural de Lamego, mas a razão pende para o Porto. E foi assim que fui para o Porto!

Fui para o Porto com uma grande ânsia de abrir horizontes e foi isso que fui encontrar: um Seminário onde nos educavam para a liberdade e para a responsabilidade, um seminário onde nos ajudavam à maturidade humana, da fé e da vocação pastoral. Tive um reitor excelente, que morreu cedo, um diretor espiritual muito aberto que vinha dos movimentos da Ação Católica, que nos pôs em contacto com os Movimentos da Ação Católica. Era professor de Apostolado dos Leigos e de Doutrina Social da Igreja. Abriu-nos horizontes, abriu-nos para o mundo, para o diálogo com o mundo. Pôs-nos a estudar a constituição sobre a Igreja no mundo contemporâneo, que para mim era tudo novidade e novidade entusiasmante.

Dentro deste clima surgiu muito naturalmente a ideia, pela primeira vez, de em vez de estagiar numa paróquia, fazer o estágio num ambiente operário (na altura era muito conhecida a experiência dos padres operários). Fui para conhecer o mundo operário e testemunhar também o Evangelho e a Doutrina Social da Igreja no mundo operário.

 

AE – E que contributo teve essa experiência no seu percurso formativo?

AM – Abriu-me aos problemas do mundo, que não eram só resultado de um estudo mas de uma experiência, de uma vivência concreta, de quem trabalha, tinha de se levantar de manhã cedo, chegar à fábrica e vestir o fato de operário, e trabalhar diante de uma máquina com outros (fomos três e inicialmente ninguém sabia que éramos seminaristas) e experimentar a dificuldade de encontrar trabalho. Na altura batemos a várias portas de várias fábricas e a primeira pergunta era se já tínhamos feito o serviço militar, para não interromper o percurso de trabalho. Nós não queríamos dizer que eramos seminaristas e dizíamos que não e fechavam-nos logo as portas. Na última tivemos de dizer quem éramos e o que pretendíamos e então abriram-nos a porta com toda a hospitalidade. Foi a paixão pelo diálogo entre o Evangelho, a fé, a Igreja e mundo moderno, os problemas concreto.

 

AE – Tudo na onda de renovação do Concílio?

AM – Na onda de renovação do Concílio, tudo cheio de entusiasmo.

 

AE – Chegou muito de seguida o desafio de estudar em Roma?

AM – Depois, estava combinado com o bispo que iria fazer estágio diaconal na paróquia da Régua. Ia com todo o gosto porque estava combinado mas, à ultima hora, o bispo resolveu mudar e mandar-me estudar para Roma. Ainda pedi para pensar, mas os meus conselheiros, os padres do seminário, disseram que aceitasse porque era uma missão que a Igreja me confiava e que a Igreja precisava de gente preparada. E tenho de prestar homenagem a esse grande bispo que mandou estudar muitos padres em várias universidades, em Paris, em Toulouse, em Lovaina, na Alemanha, em Roma e, quando terminou o seu governo da diocese, confidenciou-me: “Viste que foram estudar muitos padres… Não foram mais porque não quiseram, sabes porquê? Porque vêm aí tempos difíceis e a Igreja precisa de ter gente muito bem preparada para isso”.

 

AE – Estava a pensar na mudança do Concílio, nos anos de hoje?

AM – Porventura não imaginava os anos de hoje, mas todo um processo de mudança. Estamos a assistir a uma mudança de época, mas a seguir ao Concílio foi uma grande transformação cultural, cheia de mudanças rápidas. A própria a constituição sobre a Igreja fala disso, das mudanças vertiginosas a que o mundo assiste e às quais a Igreja deve responder.

 

Ordenação sacerdotal em Roma

AE – Neste dia 7 de novembro temos de recordar o mesmo dia em 1971: em que circunstâncias é ordenado em Roma por D. António Ribeiro?

AM – Foi um equívoco: na altura não havia telemóvel, nem o telefone era muito usual, mas estava combinado entre mim e o bispo a ordenação ser em setembro, em Vila Real. Mas o bispo esqueceu-se de pôr na agenda e nesse mês foi de férias para a Alemanha e ninguém sabia onde estava. Só veio depois, em outubro, quando eu tinha de ir para Roma. Ele disse: “Ordenas-te em Roma”. Foi na ocasião em que havia o sínodo dos bispos, estava lá o cardeal António Ribeiro e aproveitei essa ocasião: fui ordenado na capela do colégio português (e vim a encontrar aqui na Diocese de Leiria-Fátima alguns padres que já eram padres e estavam a estudar em Roma e me impuseram as mãos no dia da ordenação sacerdotal).

 

AE – Queria recordar uma frase que o seu pai lhe disse na altura: “Tu agora és padre, mas não te suba o poder à cabeça”. Por ocasião da ordenação, queria ser padre para quê?

Foto: Agência ECCLESIA/MC

AM –  Eu quando era seminarista pensei ser pároco e trabalhar com a juventude, era o meu gosto. Tinha trabalhado com movimentos de Ação Católica, a Ação Católica Rural, a Liga Operária Católica, conheci também a Juventude Operária Católica e havia o Movimento Católico de Estudantes. O meu sonho era ir para paróquia e trabalhar com a juventude! Mas o sonho não se realizou: O bispo pediu, em nome da Igreja, uma especialização em Teologia. Depois já sabia o que me esperava, porque o bispo disse-me que iria para o Porto como educador do Seminário Maior do Porto, acompanhando os seminaristas da Diocese de Vila Real, e professor.

Quando vim de férias, fizemos celebração familiar e o meu pai disse-me: “Meu filho, tu agora és padre, não há problema nenhum, só te quero pedir uma coisa: lembra-te sempre que vens de uma família humilde! Que não te suba o poder à cabeça! Trata sempre bem os pobres e os humildes!” Eu isso nunca esqueci na vida! Foi uma marca que recordo sempre, praticamente todos os dias, sem grande esforço. Assim, o meu pai também foi educador e formador de um pastor.

 

AE –  Que pertinência vê nessas palavras, pensando no que é ser padre, hoje?

AM –  Um padre tem de ser um homem de relações: Relação com Deus, porque as pessoas gostam de um padre muito próximo mas gostam de saber que é um homem de fé e que é diferente, mas depois tem de ser homem de relações próximas com todos, de acolhimento, atenção a cada um, de escuta, de partilha das alegrias e sofrimentos. Porque um padre pode saber muito, ter grande formação em Teologia, Filosofia, Sociologia, saber explicar muito bem as coisas, fazer grandes sermões, mas se não tem a proximidade com seu povo, com as pessoas, falta-lhe algo, não serve! E o que é que lhe falta? Falta-lhe a língua, falta-lhe o poder de falar? Não, falta-lhe o coração, a humanidade. O padre tem de ser humano. Eu dizia sempre aos alunos do seminário, quando terminavam o curso: quando fordes nomeados párocos, as primeiras cartas credenciais com vos apresentais ao povo será a vossa relação humana, o resto virá por acréscimo.

 

AE – Foi isso que o seu pai desde cedo quis dizer…

AM –  Foi sempre o que o meu pai me aconselhou e depois a opção preferencial pelos pobres, aquilo que o Papa Francisco diz: uma Igreja em saída às periferias. Na altura não se usava esta expressão nem o meu pai a sabia… Hoje concretizo-a deste modo: ir às periferias, ao encontro dos que estão sós, abandonados e necessitados. É isso, os humildes e os pobres.

 

O Professor

AE – Seguiram-se sete anos em Roma, um doutoramento, olhar a fé de forma muito racional… Alterou esta conceção do ser padre?

AM – A formação em Teologia é uma coisa muito bela, porque ajuda a aprofundar realidades profundas e a conhecer o coração e alma humana. Não era Teologia abstrata (quando estudei Teologia, era a chamada Teologia Escolástica, que era de facto abstrata, parecia um esqueleto à qual faltava a carne), era renovada, com atenção, como dizia o Papa Paulo VI quando terminou o Concílio, à pastoral do bom samaritano.

 

AE – No caso do D. António, várias vezes admitiu esse racionalismo…

AM – É verdade, era a compreensão racional da fé! Mas quando vim, nunca deixei o exercício pastoral do ministério, era professor e formador.

 

AE – Durante 24 anos…

AM –  Mas procurei estar sempre ligado a uma paróquia. E as duas primeiras a que estive ligado eram pobres, a paróquia de Miragaia e a paróquia da Sé. Depois as outras já eram mais urbanas, mais ricas, a Paróquia do Marquês e de Matosinhos. Em todas aprendi a ser pastor!

Recordo-me que, na paróquia da Sé, havia a Missa das crianças e, a primeira vez que o pároco me pediu para presidir, disse “Mas eu não sei falar às crianças”. E ele ajudou-me. Depois fazia reuniões com ele para saber como começar e estabelecer diálogo com elas.

 

AE – Também com as expressões que usa agora no santuário de Fátima, os “pequenitos e as pequenitas”?

AM – Sim, isso depois fui acrescentando, na altura não usava. Essa frase resultou desta experiência: Eu via as crianças nas celebrações com os adultos e as nossas celebrações são praticamente para adultos. Pensava comigo: o que será que as crianças levam daqui? Devem sair daqui desiludidas… Então, passei a fazer essa saudação, às vezes uma frase só, para elas levarem consigo algo e saberem que alguém as considera e isso é importante, é uma maneira de estabelecer laço com a Igreja e com Jesus.

 

AE – D. António Marto, tem pena de ter deixado a vida académica?

AM – Gostava muito, sentia-me como peixe na água. Gostava de ser professor, conviver com os alunos, conhecia-os de perto, não me fechava no gabinete. Quer na Faculdade de Teologia quer na de Direito, no Porto, tinha relação fraterna com os alunos. Era exigente e tinha essa fama, mas ao mesmo tempo era fraterno e procurava ajudá-los também.

Gostava imenso da vida académica, porque puxava por nós e estávamos sempre a ser desafiados a estudar coisas novas.

Quando fui chamado para ser bispo, pedi para que me deixassem 24 horas para pensar e para dar resposta. Consultei dois ou três dos melhores amigos e começaram por dizer: o que a Igreja te pede está na linha do sim que deste no sacerdócio. Mas, para ser sincero, chorei quando deixei a Universidade.

 

AE –  Não conseguiu despedir-se dos alunos?

AM – Não consegui, por três vezes fiz a tentativa. Eles bateram palmas e assim ficou a despedida, na última aula.

 

O bispo

AE – E neste percurso que fazemos sobre o perfil do sacerdócio, ao longo dos 50 anos, chegamos ao momento em que é bispo, primeiro auxiliar de Braga, depois de Viseu e agora bispo de Leiria-Fátima. Acredito que também pelo contacto com os sacerdotes e necessidades a acudir, o perfil de padre foi-se alterando enquanto era bispo?

AM – Foi-se alterando e agora está diante de desafios inéditos, como a Igreja se encontra também. Como diz o Papa Francisco, não se trata só de uma época de mudanças mas de mudança de época, ao nível cultural, económico-financeiro, social e tecnológico: tudo isto está a dar origem a um novo mundo que está a nascer e cujos contornos ainda não estão definidos.

 

AE – E a Igreja Católica está a ser capaz de pensar nesses contornos? Porque há problemas graves por resolver, temos de admitir, consegue pensar nessas mudanças?

Foto: Agência ECCLESIA/MC

AM – Temos um grande Papa, que veio de outro mundo, diferente do ocidental, muito sensível a aspetos que o mundo ocidental esquece, porque é da abundância e não imagina  o que é a pobreza, por exemplo. É um mundo consumista e não imagina que são precisos limites para não pôr em causa a dignidade dos pobres, o reconhecimento da dignidade de todos, a sobrevivência da casa comum.

Temos um Papa que tem o dom do discernimento, por ser jesuíta certamente, não só ao nível pessoal, mas comunitário e global. Hoje, estamos a viver de forma inédita a globalização, à qual se junta depois a inovação tecnológica, com todos os meios novos, que implementam uma nova cultura. Todo este mundo digital não é só de técnica, mas é uma cultura que abre muitas possibilidades, mas traz grandes riscos. Hoje, espalha-se uma mentalidade de pôr a confiança numa espécie de omnipotência nos meios tecnológicos digitais que dessem solução a tudo. O Evangelho diz “nem só de pão vive o homem” e hoje temos de atualizar isso e dizer “nem só de algoritmos vive o homem”. Os algoritmos são bons e necessários para encontrar meios ou soluções de ordem tecnológica e até financeira, mas a dimensão humana é insubstituível.

 

AE – É preciso mudar as parábolas de Jesus trazendo os algoritmos e a tecnologia para o ser padre hoje?

AM – Naturalmente! Eu já não tenho a linguagem da juventude de hoje… Eles são nativos digitais, têm esta cultura, modo de ver o mundo e de se relacionar, a questão dos valores… Tudo isso cria um clima de incertezas e inseguranças em que a Igreja vive e precisa de orientação.

O nosso Papa tem pelo menos três grandes chaves de compreensão do mundo moderno. O mundo pós-moderno que é o mundo novo que está a nascer, é de muitas desigualdades, divisões, crispações e da chamada terceira guerra mundial aos pedaços. É o mundo de feridos e muitas feridas. E isto vale para a Igreja e para a imagem do padre: a Igreja como hospital de campanha, onde a primeira função é acolher os feridos e ajudar a cuidar as feridas.

 

Perfil do padre hoje

AE – E isso define o papel do padre hoje?

AM – Define também! Não é ir com condenações imediatas ou juízos imediatos. Isso é lógica do poder, do autoritarismo! A Igreja hoje tem de saber falar ao mundo de hoje como Jesus, que não era de condenação ou juízo imediato, mas de acolhimento e compaixão, misericórdia. Melhor dito: proximidade, compaixão e ternura, uma expressão do Papa que resume a presença da Igreja no mundo de hoje e o perfil do padre também.

Outro aspeto é o da casa comum, a ecologia integral. Os países que mais poluem o mundo e põem a causa a sobrevivência da humanidade são aqueles que menos se querem empenhar na diminuição do carbono que põe em causa as alterações climáticas.

E depois outro aspeto: a fraternidade. Hoje vivemos, no mundo ocidental, um relativismo de valores que leva a um individualismo exacerbado. Cada um é o criador de si mesmo, sem olhar aos outros. É o risco da cultura da indiferença.

Não basta só o slogan liberdade e igualdade, mas é preciso a fraternidade que estende e lança pontes entre todos e daí a necessidade do diálogo inter-religioso e o diálogo ecuménico. Religiões irmãs para fazer povos irmãs.

São grandes chaves para interpretar o mundo de hoje.

 

AE – Uma missão sacerdotal a construir nessas três linhas que define… Mas não se pode esconder um problema que há a resolver, nomeadamente dos abusos, a fragilidade com que o sacerdócio acontece nalgumas dioceses…Esse é um problema a enfrentar sem rodeios?

AM – Sim! Hoje a figura do padre não tem aquele prestígio social que teve antigamente, a Igreja não tem aquela força de atração que teve no regime de cristandade, no ocidente estamos a viver aquilo que o Papa Bento XVI, quando era jovem teólogo, em 1969, previa que Igreja fosse feita de minorias, mas minorias criativas, com algo a dizer e inspirar para o mundo. Depois, o clima de secularização que avança no ocidente é sentido por quem exerce o ministério: sente que não tem o apoio cultural que tinha e tem medo do momento presente. Esta nova realidade exige também inovação de métodos e linguagens para chegar às pessoas e às vezes não temos receitas prontas. Então há dois riscos: ficar fechados no imobilismo (sempre se fez assim, vamos continuar) ou ficar no tradicionalismo da nostalgia do passado (o que acontece nalgum clero jovem também). Depois o medo do presente e medo ou receio de fazer face a estes desafios porque não há receitas prontas e não encontramos o eco que desejaríamos, uma vez que somos minoria e não estamos habituados a trabalhar em minoria.

 

AE – Isso pode levar à desistência ou ao poder?

AM – À desistência no sentido do desânimo: “Para quê tanta fadiga se não consegui nada, para quê correria, tantas coisas a fazer…”

Isto exige reconfiguração das comunidades cristãs para que o padre não seja o catalisador de tudo, porque cai tudo sobre ele, é uma infinidade de coisas a fazer, não tem tempo para descansar, atender pessoalmente as pessoas e pode levar a este desânimo que eu dizia e não se sentir bem na sua pele, no que anda a fazer. Isso é um risco grande.

As comunidades cristãs também têm de se sensibilizar para dar apoio efetivo ao seu padre.

 

AE – O risco do poder é real?

AM – O risco do poder é real, mas hoje… Deus me livre quem tenha a ambição do poder… Falta-nos um laicado maduro e responsável! Por exemplo, agora o Papa abre um caminho novo, o modelo sinodal da Igreja, que exige participação e corresponsabilidade de todos, segundo a diversidade da função e carisma que cada um exerce, todos participam, o que exige maior diversidade de ministérios também. Uma descentralização, o padre descentrado, onde o centro é Cristo e uma partilha de ministérios. O ministério do padre não é açambarcamento dos ministérios dos outros, mas o ministério da síntese, a comunhão entre todos, em que todos os ministérios e serviços confluem para o bem da comunidade mas isto leva tempo…

 

 

AE – Não vai ser o sínodo a resolver? Mas pode ajudar…

AM – Não, vai levar tempo! Isto está em gérmen no Concilio Vaticano II e já lá vão 60 anos, mais ou menos, e leva tempo. Agora o Papa está a implementar isto: inicia-se um processo que há de germinar, crescer e dar frutos…

 

AE – Estamos a terminar… Como espera continuar a ser sacerdote nessa tal resposta que procurava e na resposta à cultura de mudança que estamos a assistir?

AM – É uma paixão que tenho por compreender a cultura de hoje. Eu às vezes digo ao grupo de crismandos, quando faço a comparação entre o mundo em que nasci e cresci, em que não havia televisão, nem havia rádio. Ouvi pela primeira vez rádio aos 13 anos e televisão aos 15 anos e era a preto e branco. Quando digo isto, eles abrem a boca dizem: “ahhh”, como se isto fosse uma coisa impossível e inimaginável… Não havia telemóvel, não havia iPad, quando fiz a tese de doutoramento não havia computador. Perdi tanto tempo a fazer páginas novas na máquina de escrever. Quando comparo esse mundo em que nasci e cresci com este mundo em que eles nascem e crescem, parece que vim de um planeta longínquo para um novo planeta.

Não tenho medo da morte (fui professor de escatologia, da esperança cristã). Irei para o céu com todo o gosto. Acho que será um encontro belíssimo, surpreendente. Mas gosto de andar no mundo, não tenho ressentimento em relação ao mundo, deste tempo que é nosso, sem lamentações do que passou. Vivi uma infância feliz, com os outros na rua, não havia medos de raptos de crianças, as portas das casas ficavam abertas de noite, se alguém batia à porta ninguém perguntava quem era, dizia-se “Entre!” Hoje não há nada disso… Mas não vale a pena chorar junto ao muro das lamentações! Vamos viver este tempo como um desafio e com as novas oportunidades que oferece, sabendo que se assemelha a um parto e, por isso, temos de sofrer as dores de parto, até que chegue um mundo mais fraterno, mais justo, em que todos os homens se possam encontrar como irmãos.

Não sei quantos anos mais viverei, mas farei o que puder ao serviço da Igreja e do Mundo.

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