No dia 21 de outubro de 1979, Dia Mundial das Missões nesse ano, foi para o ar o primeiro programa «70×7». Há 40 anos em emissão na RTP, é a «expressão da Igreja na praça pública», que encontrou na linguagem simbólica a ferramenta para traduzir a força de muitas mensagens, desde logo a que passa pelo nome do programa, «70×7»

 

Entrevista conduzida por Paulo Rocha

Voltemos a 1979, ao dia 21 de outubro, quando começou o 70×7. Com que espírito?

Nós andávamos à procura da expressão da Igreja na praça pública. E a praça mais publica que havia era a televisão. Por isso, houve um esforço de tomarmos a linguagem do Evangelho e da Igreja para a colocarmos nesse local teoricamente profano e, da fusão desse encontro, fazer uma comunicação evangélica. Isso não se fazia sem as pessoas, sem os lugares, sem as celebrações, sem as ações da vida da Igreja e do mundo. E da relação da Igreja com o mundo.

Talvez de uma forma não muito organizada, foi isso que procuramos ativamente, com o apoio da hierarquia, porque era um programa oficial da Igreja Católica (não posso deixar de lembrar D. António Marcelino pelo grande apoio que nos deu). E a outra parte era a loucura da nossa juventude apostólica, que achava que não havia meio que não tivesse obrigação de falar do Evangelho.

Nós demos a cara, as mãos e os braços para percorrermos este país e um bocado do mundo para dizermos que a Igreja não está fechada nem no ermitério nem o cemitério, mas viva na cidade.

Poderia ter-se chamado ‘Igreja na cidade’. Chamou-se ‘70×7’, por causa da medida incapaz de se fechar num circuito, mas de se abrir a todas as circunstâncias, a todas as pessoas e dar lugar a todas as vozes.

Penso que foi um lugar plural na Igreja e no mundo, o que se deveu a muita gente. Eu dava muitas vezes a cara, as pessoas relacionavam comigo, mas havia muita gente: a que fazia o programa e a que recebia a ressonância e devolvia o que deveria ser a sua presença.

Queria recordar a participação do público, as pessoas do norte, do centro, do sul, das ilhas. Elas próprias intervieram muito e interessaram-se muito porque sabiam que eram Igreja, que poderiam dizer às outras igrejas e ao mundo o melhor que tinham e faziam.

 

70×7 inaugurou uma nova forma de fazer televisão, fora do estúdio?

A experiência que nos deu D. António Marcelino, na sua linguagem próxima, é para nós um estímulo. Indiretamente, é nele que o programa está inspirado. O passo seguinte que demos foi ir para a rua, ouvir a Igreja na rua, os cristãos na ação e surpreende-los mais a fazer do que a dizer. Isso foi uma certa originalidade, que não foi por inspiração especial, mas porque as circunstâncias, as pessoas, a comunidades, a variedade de ações e intervenções, os vários grupos na Igreja, as crianças, jovens, adultos, padres leigos, leigos, bispos (nós nunca expurgamos os bispos do 70×7), tudo fazia com que esta palavra “Ecclesia”, Igreja, pudesse caber dentro deste projeto de a revelar.

 

E com que linguagem televisiva o foram fazendo?

Esse foi o nosso problema, a nossa procura constante! Isto é: tínhamos coisas bonitas para dizer, mas não basta isso em televisão. É preciso transmitir de forma que as pessoas entendem, adiram sensorialmente, que as pessoas sintam o programa. Sem sentirem o programa, não chegam a ouvi-lo.

Em cada domingo, numa hora discreta, onde as pessoas estavam em casa ou pelos cafés, nos apercebemo-nos que havia muita gente que achava que estava dentro desses espaço. E penso que é o espírito que hoje continua e presta um excelente serviço à Igreja.

 

Até ao 70×7 havia presenças pessoais, de alguns sacerdotes, na televisão. A partir deste programa passou a existir uma presença institucional?

Houve de facto presenças – recordo D. António Ribeiro, que abriu, D. António Marcelino, que nos estimulou e inspirou muito – e depois o 70×7 ganhou o uma autonomia de linguagem, de localização: deixou de ser um programa feito num púlpito ou à porta da igreja para ir à porta do mundo, onde as pessoas estavam, ouvir o que diziam. Não apenas os clérigos, os sábios, os teólogos e os moralistas, mas essa moral e essa teologia estava no coração do povo. Era uma preocupação nossa! E penso que foi das coisas interessantes que se foram fazendo e vai fazendo. Quase tudo o que eu digo do passado continua no presente. E quero felicitar-vos por essa fidelidade não apenas à história do 70×7, mas também à história da vossa evangelização em televisão, que é um marco rico da nossa Igreja em Portugal.

 

Nessa história fica também um modo de fazer que o padre Rego tinha e que passava por deitar mão ao que fosse necessário: filmar, editar, iluminar… A arte tocava todos esses aspetos…

Isso já era um pouco atrevimento meu. Eu tive alguma preparação nessa matéria, mas gostava eu de construir a linguagem como um pianista gosta de dominar as teclas de um piano. Gostava de construir a linguagem quer da palavra, quer da ilustração, da imagem, dos ambientes que se criavam, dos lugares que procurávamos, das pessoas que ouvíamos de forma que isso se tornasse algo vivo e envolvesse a comunidade ouvinte que também tínhamos o cuidado de fazer presente no 70×7.

 

Para si uma câmara de filmar é um instrumento próximo que agrada sempre estar a manobrar?

É um instrumento interessante! É um novo olhar.

Quando estamos a trabalhar em televisão vemos talvez quatro ou cinco vezes a mesma coisa: Vemos primeiro com os nossos olhos; vemos que vale a pena que outra câmara veja; depois essa câmara vê com os nossos olhos; depois isso vai para a mesa de montagem e voltamos a ver; vamos recortando o que é interessante, voltamos a ver; estamos insatisfeitos até chegar ao produto final onde se conjuga o som, o ambiente, a imagem, a presença das pessoas, os planos muito próximos que apanham quase só os olhos, as paisagens, os planos abertos, os locais mirabolantes que acabamos por filmar, quer desertos, quer grandes palácios, grandes cidades ou grandes espaços, como também o micro espaço de pequenas coisas, aparentemente insignificantes, mas que no cristianismo tem um aspeto ritual, porque significam sempre alguma coisa. Na própria liturgia são utilizados objetos maiores e menores. Diria que na liturgia da vida isso também acontece e estávamos atentos em trazer à presença do 70×7 essa realidade.

 

Recordemos dois programas, desde logo o programa da Cartuxa: que ousadia foi essa de entrar no ambiente de clausura?

Eu recordo com emoção o programa da Cartuxa, porque os cartuxos acabaram de sair de lá há muito pouco tempo. E, de facto, tive primeiro muito receio em bater à porta e perguntar se podia filmar um pouco da Cartuxa. Estava à espera de uma resposta do género: mas vocês não têm vergonha da trazer a televisão aqui para dentro? Eu pensei: não, porque vai ser o povo que eu vou trazer para aqui, os olhares do nosso povo sobre vocês. Não vão fazer nada para ser filmados, mas o que fazem, o que rezam, o que cantam, o que passeiam, os arcos, as celas… Cada um. dos vossos espaços, desde o mais público aos mais íntimo.

Pegamos numa câmara e fomos, muito discretamente. Penso que não falamos… Era quase tudo silêncios e sons ambientes que surgiam da própria comunidade, alguns cânticos e orações… E foi com imenso respeito, quase como se fossemos monges, que estivemos dentro do Mosteiro da Cartuxa. E trouxemos um programa que recebeu um prémio pela originalidade do local e a forma delicada como foi tratado.

 

Um outro: “Cinza e morte”. Os incêndios criaram um ambiente para tratar o tema da morte?

Vi primeiro com os meus próprios olhos. Fui visitar a cinza na região centro e de facto era desolador olhar para uma paisagem vasta toda negra, plana e negra, composta apenas por areia. E a primeira sensação que tive foi esta: isto não tem nada a filmar, é só areia e cinza. Areia e cinza? É isso que a gente vai filmar. Então lá fomos, com a câmara, buscar pormenores, buscar conjuntos, ver o que ainda havia de sinais no meio dessas cinzas e dessa areia e fomos pacientemente, humildemente, muito humildemente construindo um programa, convencidos que as pessoas iam pensar: mas que grande chatice vai estar ali na televisão! Acabou por não ser e as pessoas sentiram-se integradas, nos simbolismos que passavam por toda aquela circunstância.

E queria pegas nesta palavra: o simbolismo foi o mais forte que encontramos. Ou seja: Uma coisa não é apenas o que é, o que se vê, mas o que simboliza, o mundo que está por trás dela, aquilo que a gerou, aquilo que ela provoca, as imagens que ela cria, as palavras que ela inspira, os poetas que ela toca. Claro que era uma pretensão apanhar isso tudo, de uma vez só, mas fomos aos poucos habituando-nos a ir descobrindo coisas de aparência insignificante, mas que tinham uma realidade perfeita na vida das pessoas e do mundo. Ou seja, não há nada inútil e sem significado.

 

Que relevância teve o programa, nos primeiros anos?

Para nós, muitas vezes, era difícil responder a tantos pedidos que nos chegavam. Por vezes perguntavam: “como é que o padre Rego arranja temas para tantos programas?”. Eu respondia o contrário: como é que eu sou capaz de responder a tantos temas que nos propõem para o programa.  E, de facto, o programa 70×7 teve esse mérito catalisador de juntar muitas sensibilidades, em muitos pontos do país e do estrangeiro, e nós íamos lá com meios tecnicamente frágeis ainda (ainda nem o vídeo havia quando nós começamos e fazer um programa em filme era um tormento: contávamos os fotogramas, porque tínhamos uma medida para um programa, e havia coisas interessantes que interessava valorizar e não conseguíamos). Foi dentro dessas contingências todas e desse gemido de não ter o quanto se pretendia que nós fomos dando um sinal.

70×7 já era um nome atrevido! Homenagem a D. António Marcelino, que penso que esteve também no nascimento deste nome (como passaram muitos anos – já lá vão 40! – já coisas que escapam). Foi assim que apareceu: 70×7! Cá está! Uma coisa que diz tudo, 70×7, não diz nada. Só números, que na Bíblia ganham uma dimensão infinita. É isso que a gente quer: ir até ao infinito, trepar até ao infinito. E sei que o 70×7 continua ainda hoje a fazer essa subida na corda que não se sabe onde irá terminar.

 

E é um programa que deve ter lugar na televisão, nos dias de hoje?

Todo o lugar! A televisão precisa dessa dimensão! Precisa do desporto, da informação geral, das temáticas da arte, da poesia… dessas temáticas todas! Mas precisa da temática religiosa vista nessa perspetiva: não apenas a transmissão litúrgica, mas a experiência religiosa comunicada e vivida. Nós filmamos mais o que as pessoas do que o que as pessoas dizem. De facto, a palavra é forte, mas o gesto é que arrasta.

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