Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

O mundo vive grandes desafios, mas assistimos à dificuldade de nos entendermos (entre pessoas), e de nos entendermos com o mundo natural. Para nos entendermos precisamos de uma linguagem. E se os interlocutores são tão diferentes quanto um ser humano e uma árvore, que linguagem permite um diálogo que aprofunde uma relação autêntica e séria entre os dois?

Foto de Elizabeth Ordonez

Ciência?

Na revista de divulgação de ciência New Scientist lia uma entrevista feita ao biólogo Richard Dawkins, sinceramente, mais conhecido pelas provocações ateístas à religião, do que por qualquer avanço extraordinário do pensamento científico. Mas há uma coisa que Dawkins pensa, e muitas pessoas pensam também, independentemente de acreditarem, ou não, em Deus. Pensam que a ciência é uma linguagem universal.

A ideia é simples. Perguntem a um português, a um japonês e a um palestiniano o que é uma molécula. A resposta será a mesma. Mas se perguntarem qual o sentido da vida, muito provavelmente, cada um dará uma resposta de acordo com a sua experiência religiosa e humanitária.

Mas as plantas e os animais não humanos nada dirão. Depois, nem sempre os cientistas usam os mesmos termos para designar a mesma coisa, o que pode gerar alguma confusão. Mas se pensarmos na matemática, talvez seja aí que encontramos uma linguagem universal. Mas o que sabem as cigarras de matemática?

Se pensarmos bem, ainda que me custe admitir, a ciência tem sido um paradoxo quanto ao diálogo que através dessa podemos ter com o mundo natural. Tanto serve para o compreender, como para o dominar.

Fraternidade?

Quando pensava nas irmãs árvores, referia-me à noção de fraternidade universal presente no Cântico das Criaturas de S. Francisco. Nada tinha a ver com o gesto de abraçar uma árvore, apesar de o considerar belo. Tinha antes a ver com a experiência de sermos criaturas fruto do amor do mesmo Criador.

Talvez seja a fraternidade a linguagem universal que podemos usar num diálogo com a natureza. Mas depois proveio a dúvida. Houve quem ligasse o facto de usar a expressão “irmão” ou “irmã” ao que assistimos, actualmente, nas sociedades – ditas – modernas. Isto é, quando vemos pessoas tratar os animais com mais respeito e cuidado do que tratam outras pessoas.

Neste caso, se a fraternidade fosse uma linguagem universal, não trataria um animal abaixo ou acima de outro ser humano. Fico perturbado quando me dou conta de partidos políticos que fazem tudo pelos animais e lutam com uma bandeira ecológica na mão e, depois, são favoráveis ao aborto. Quer isso dizer que um ser humano com 24h de vida nem sequer é um animal? Estranho.

A fraternidade é fundamental para um relacionamento aprofundado com a natureza, mas parece-me ser mais um enquadramento do que uma linguagem.

Onde menos esperava encontrar

Num livro do cosmólogo Brian Swimme e do sacerdote Thomas Berry sobre a história do universo (The Universe Story) li como a comunhão é considerado o princípio cosmológico que impulsiona a evolução do mundo, pois, expressa a interrelação, interdependência, parentesco, mutualidade, relacionalidade, reciprocidade, complementaridade, inter-conectividade que assistimos em todo do lado, desde o nosso interior, ao espaço à nossa volta, ao planeta, ao universo.

Isso significa que tudo está em relação com tudo, como o Papa Francisco refere várias vezes na Laudato Si’. Mas estes relacionamentos não são de um tipo qualquer, mas relacionamentos de amor. Porém, também o modo de entender o amor não é um qualquer, mas como dom-de-si-mesmo. A amar é dar-se.

”Os rios não bebem a sua própria água; as árvores não comem os seus próprios frutos, o Sol não brilha para si mesmo; e as flores não espalham a sua fragância para si. Viver para os ouros é uma regra da natureza.”
(Papa Francisco)

Será amar a linguagem universal para dialogar com a natureza?

Quando pensava nisto estava convencido disso, mas amar é, também, o fruto da experiência do paradoxo. Pois, é infinitamente pequeno e infitamente grande. Amar é incrivelmente simples e incrivelmente complexo. Aquilo que no mundo é negativo transforma-se em positivo sob o olhar e agir do amor. Amar possui toda a potencialidade de uma linguagem universal, mas ainda estamos a aprender a falar.

Talvez precisemos de crescer um pouco mais na nossa humanidade até estabelecer um diálogo com o mundo natural através da linguagem universal do amor. Sinto que, do mesmo modo que um bebé se expressa e dialoga antes de pronunciar palavras, também nós precisamos de nos expressar com uma linguagem universal mais simples do que o amor e que seja concreta. Mas qual?

Fiz silêncio enquanto pensava e foi no silêncio que me dei conta de qual poderia ser essa linguagem.

O silêncio.

Quando era miúdo gostava de fazer jogos de palavras e inventar frases. Recordo-me bem de uma dessas frases ser – “um sábio quando se cala sabe o que está a dizer.”

O silêncio é a linguagem universal falada por nós que intelectualizamos tudo e mais alguma coisa (mesmo em silêncio), mas também falada pelas árvores. Quando estamos imersos num parque e nos calamos, não dialogamos com a natureza no silêncio?

Silêncio não é a ausência de som, mas de ruído exterior e, sobretudo, interior. O silêncio fala-se através de uma escuta atenta. O que ouves da brisa que te refresca a face é o seu modo de falar com a linguagem do silêncio. O agitar das folhas não é mais do que um diálogo entre a brisa e as árvores com a linguagem do silêncio.

”Vê como a natureza – árvores, flores, erva – cresce no silêncio; vê as estrelas, a lua e o sol – como se movem em silêncio… Nós precisamos do silêncio para sermos capazes de tocar as almas.” (Madre Teresa)

O silêncio é a linguagem universal que se fala no espaço de comunhão que partilhamos com o mundo natural. É através dos diálogos que podemos ter com o mundo natural, usando a linguagem do silêncio, que chegaremos à consciência plena de onde estamos, quem somos e qual o nosso desígnio. Pois, não é o silêncio a linguagem através da qual Deus mais nos fala?

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