Antigo ministro defende reforma do sistema, para aproximar eleitores dos seus representantes

Marçal Grilo. Foto: Joana Bougard/RR

Lisboa, 13 set 2019 (Ecclesia) – Eduardo Marçal Grilo, antigo ministro e ex-administrador da Fundação Gulbenkian, considera que os eleitores têm “pouca relação” com os seus representantes, um dado que considera “muito negativo para o sistema democrático”.

“Nós temos pouca relação com os nossos eleitos, há uma relação muito ténue, o que é muito negativo para o sistema democrático, porque no fundo os nossos deputados não são delegados, são representantes, têm a sua própria opinião e devem prestar contas da opinião que têm. Nós elegemo-los, devemos saber o que é que eles pensam, o que é que eles pretendem fazer”, assinalou, na entrevista semanal conjunta à Renascença e à Agência ECCLESIA.

Defensor da reforma do sistema eleitoral, o membro do Conselho de Curadores da Fundação Francisco Manuel dos Santos espera que os dois principais partidos portugueses, PS e PSD, “sejam capazes de se entender” já na próxima legislatura para uma reforma que exige a aprovação por dois terços dos eleitos.

“A questão central é esta: é que o deputado, o membro do Parlamento, depende muito mais da vontade do secretário-geral ou do presidente do partido do que propriamente do eleitor”, advertiu.

Marçal Grilo considera “excessiva” a cobertura mediática da campanha eleitoral, lamentando que a mesma persista em modelos do passado, “sem inovação”, incapaz de contrariar os valores elevados da abstenção.

“Eu tenho um bocado a ideia de que os partidos políticos continuam a fazer campanhas eleitorais muito parecidas com o que eram há 30 ou 40 anos”, observa.

O entrevistado espera que a atual preocupação com o clima seja “genuína”, e não “uma moda”, porque a defesa do ambiente é “uma obrigação de qualquer governo”.

Apresentando-se como “independente”, mas “não neutro”, o antigo ministro vê com bons olhos que a Igreja tenha apelado ao voto, mas discorda que os partidos tenham de esclarecer o que pensam sobre os temas “fraturantes”, por serem “questões de consciência”.

“As campanhas eleitorais, no fundo, acabam por ser um repositório de discussões de pequenos temas, porque a discussão dos grandes temas não pode ser feita no meio deste alarido todo das campanhas eleitorais”, precisa.

Marçal Grilo deixa ainda elogios ao Papa Francisco, por considerar que “diz coisas verdadeiramente extraordinárias”.

“Às vezes tenho a sensação de que ele é mais compreendido e a sua palavra mais aceite fora da Igreja do que dentro da Igreja, e isto pode ter duas leituras, uma é de crítica, outra é de louvor. A minha é de louvor, porque a Igreja tem internamente muitas correntes hoje em dia”, aponta.

A entrevista, publicada esta sexta-feira, pode ser ouvida hoje na RR entre as 13h00 e as 14h00.

Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

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