Fernando Magalhães aborda dificuldades provocadas pelos fins de contratos de Associação e denuncia desvalorização da profissão docente

Foto: Joana Gonçalves/RR

Lisboa, 23 out 2020 (Ecclesia) – O presidente da Associação Nacional de Escolas Católicas (APEC) alerta para o risco de um aumento das desigualdades no setor da Educação, por causa da pandemia, deixando crianças “para trás”.

“Não se trata apenas das crianças que não têm os recursos tecnológicos para poderem estar a par”, indica Fernando Magalhães, convidado da entrevista conjunta semanal Renascença/Ecclesia, publicada e emitida à sexta-feira.

O responsável destaca que, apesar da mobilização das instituições para encontrar recursos informáticos e tecnológicos, há vários alundos “em todo o sistema de ensino, que podem ficar de fora”.

“A nossa realidade tem essas clivagens, mas existe uma consciência mais societária de chegar junto a elas”, sustenta.

Numa entrevista a propósito da Semana Nacional da Educação Cristã, que está a decorrer até domingo, e da nova realidade que a pandemia coloca aos educadores e às famílias, Fernando Magalhães realça a importância da “capacidade de reinvenção” e de estabelecer “uma relação de confiança”.

“Não podemos querer que uma família que passou por uma experiência de doença, no contexto desta pandemia, ou tenha outra história de doença, de morte, que viva isto de uma forma completamente serena. Temos de ser nós a induzir essa serenidade, mas sem negacionismos, sem negar a experiência que essa família tem e aquela que nós estamos todos a fazer”, acrescenta.

O presidente da APEC admite que, entre o confinamento e o início do novo ano letivo houve “histórias que ficaram a meio”.

“Houve coisas que não se fizeram, abraços que não se deram, e houve um regresso que também não contou com essa possibilidade total do abraço, do tato”, precisa.

O entrevistado assinala a aposta em “pensar na formação integral da pessoa”, com as adaptação necessárias à realidade provocada pela Covid-19.

A APEC tem mostrado a sua preocupação com o impacto do fim dos contratos de Associação – em 2015 havia perto de 1700 turmas financiadas, que eram pouco mais de 500 em 2019.

Não queremos que as escolas católicas sejam escolas para aqueles que possam pagar, queremos que sejam para todos aqueles que a elas querem aceder, porque entendem que esse é o melhor projeto educativo para os seus filhos”.

Fernando Magalhães refere que várias escolas encerraram e deixaram de ser projetos educativos “altamente válidos”.

“Não deixaremos de, em perspetiva negocial com o ministério da educação, estar sempre abertos a encontrar outras formas e outros modelos que não privem as pessoas daquilo a que entendemos elas têm direito”, observou.

O responsável lamenta ainda a perda de um dos valores centrais na relação entre colégios e famílias, a “fortíssima estabilidade do corpo docente”, considerando que os professores têm sido “muito maltratados nos últimos tempos”.

“A dificuldade de recrutamento e a escassez de professores que existe em larguíssima medida fica a dever-se aos maus tratos que foram feitos à classe dos professores”, insiste.

Para o presidente da APEC, a falta de professores vai obrigar a “uma grande reinvenção”, inclusive ao nível das habilitações necessárias para a docência.

Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

 

Partilhar:
Share