Habitar este planeta da comunicação é algo de complexo e fascinante “ […] habitar este planeta da comunicação é algo de complexo e fascinante. Trata-se do meio onde ‘nos movemos e somos […]. Acontece que nos chove uma espécie de chuva miudinha trazida por ventos de todas as direcções que nos molha até ao âmago. Não conseguimos escapar. Se fugimos para um abrigo vamos encontrar milhares de milhões de pessoas que andaram à chuva como nós. Como que ficou colada a frescura da água, pura ou ácida, que se pode misturar com todas as gotas que caem do céu. Ou seja: trata-se do ambiente, do ar que se respira, do envolvimento em todos os recantos da existência, da permeabili-dade de qualquer ser ou comunidade, a este olhar e dizer o mundo que habitamos. A esta forma de sentir a existência. E quando se intromete o sentir, estala uma espécie de sismo global que faz estremecer todo o sistema de vida, concepção do homem, perspectiva de futuro. Estamos no centro da cratera de um vulcão que vomita fogo ou cinza. E a nossa presença alimenta essa convulsão ainda que seja com um respirar passivo.”1 Estas palavras, que tomo António Rego, introduzem-nos bem no tema que vou abordar. Eu não sou especialista nesta temática, mas como pai e educador (e é nesse sentido que estão a ser escritas estas linhas) parece-me que há atitudes que devemos evitar a todo o custo: Por um lado, aquelas que se situam nos extremos quer ‘diabolizando’ os meios de comunicação social, vendo neles a causa de todo o mal e de toda a injustiça; quer ‘divinizando-os’, encontrando neles a única salvação possível para todos os males e privações do mundo. Uma e outra posição parecem-me de todo insustentáveis, pois ambas acabam por pecar por ingenuidade. Por outro lado, parece-me Igualmente de evitar aquela atitude que, partindo da constatação de que a realidade que nos rodeia é desta ordem, assume uma postura de tolerância e aceitação (algo forçada convenhamos), uma vez que as coisas são o que são e não podemos mudá-las. Certamente que muitas outras posições poderiam aqui ser referidas. Não disponho, no entanto, nem do espaço, nem do conhecimento para fazê-lo, deixando, por isso, a sua enumeração à experiência de cada leitor. O que sim quero fazer é dar conta de duas pequenas notas que, como pai e educador, me parecem muito importantes. A primeira diz respeito à dimensão da comunicação como dimensão consti-tutiva da vida do ser humano. Não tenhamos ilusões: somos o que somos também a partir da comunicação. Todo o nosso processo de crescimento e de construção da identidade pessoal pressupõe e exige a dimensão da comunicação. A este propósito, parece-me importante fazer referência a uma reflexão antropológica (à qual faço alusão à maneira de telegrama). O ser humano é um ser acolhido e reconhecido. O seu crescimento e a sua qualidade humana estão intimamente relacionados com as estruturas nas quais ele é acolhido e reconhecido como pessoa2 . Neste processo, parece-me evidente que a comunicação ocupa um lugar fundamental, sendo também ela corresponsável pela ‘qualidade do humano’ que nos é dado viver (algo de semelhante se pode dizer ao nível da edifi-cação da sociedade e mesmo da Igreja, salvaguardando, como é obvio, as especi-ficidades de cada uma destas realidades). É verdade que esta dimensão da comunicação a que me refiro não pode ser reduzida aos meios de comunicação social, tenho consciência clara disso. Mas tenho igual consciência de que eles não podem ser ignorados, nem mesmo secunda-rizados, em todo este processo, o que me leva a avançar com a segunda nota que me propunha partilhar. Eu não sei qual a evolução que os meios de comunicação social terão no futuro, embora saiba que existirão grandes mudanças, que certamente ultrapassarão qualquer intuição que agora tenha das mesmas. Sei, por outro lado, que esses mesmos meios continuarão a desempenhar um papel fundamental na vida humana, pelo que me parece indispensável pensar em critérios de discernimento a partir dos quais possamos pensar as dinâmicas e as interacções que com eles estão relacionados. A título de exemplo faço referência a duas áreas de intervenção. A primeira tem a ver com as ‘tutelas’ dos diversos meios de comunicação social. É importante que assumam com clareza e sem subterfúgios o seu papel na construção da sociedade e na vida das pessoas, de tal modo que não continuem a fazer passar a ideia de ser apenas o local, o espaço e o meio onde se veicula a informação, se fazem as propostas e se apresentam as reflexões, das quais não são minimamente responsáveis. Parece-me indispensável que, a este nível, se assumam todas as responsabilidades. As opções que neste contexto forem tomadas influenciarão certamente o futuro que estamos a construir. A segunda tem a ver com o papel dos pais e dos educadores. Estes devem preocupar-se em dar também critérios de discernimento, para que os seus filhos (educandos), que não são simplesmente receptores passivos mas participam activamente e como protagonistas neste processo, possam discernir o que é bom e favorável ao seu crescimento pessoal. Sei que os critérios de discernimento, de que falo, não trarão a solução para todos os problemas, mas sinceramente julgo que eles poderão ajudar a evitar e minorar os muitos perigos que a este nível se continuarão a manifestar e, igualmente, a potenciar as muitas e positivas possibilidades que o futuro certamente nos trará. Quanto à concretização desses critérios, isso passa pela visão que possamos ter do mundo, da pessoa humana e da sua vida no mundo. Para quem é cristão, esses critérios terão sempre de ter em conta o projecto que, em Jesus Cristo, Deus revela a toda a humanidade. Juan Francisco Ambrosio Professor universitário 1 – António Rego, Media, Webm, @, Cultura, in Communio 1 (2007) 8. 2 – A título de exemplo podemos aqui referir a família, o grupo, a escola, a sociedade, a paróquia. Veja-se a este propósito o interessante trabalho de Lluís Duch, Antropologia de la vida cotidiana. Simbolismo y salud, Editorial Trotta, Madrid 2002, onde esta tese se apresenta claramente desenvolvida.

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