Fernando Soares , Bispo da Igreja Lusitana e Presidente do COPIC Desde há já algum tempo que se verifica uma viragem da atenção das confissões cristãs para o diálogo inter-religioso. O ano de 2003, dominado como foi pela guerra do Iraque, tanto na discussão da sua justeza como na análise das suas consequências, ampliou as preocupações das Igrejas e marcou as suas agendas com a prioridade do diálogo entre religiões. Naturalmente, o diálogo ecumé-nico ficou secundarizado. Compreende-se, pois, a instância das relações entre as três religiões monoteístas – o judaísmo, o cristianismo e o islamismo – são no presente enquadramen-to geo-estratégico planetário uma prioridade e uma emergência, perante os riscos para a paz no mundo dos fundamentalis-mos que parecem querer emergir de qualquer delas. Demo-nos conta da verdade do aviso do teólogo Hans Küng quando há alguns anos atrás dizia “sem diálogo entre as religiões não haverá paz”. Como consequência natural desta situação não há dúvida de que o ano que findou foi de importância menor para o ecumenismo. Olhando para trás, tanto no ano que passou como nos que lhe antecederam, experimento sentimentos de perplexidade e de alegria. Por um lado, a ausência de avanços nas formulações teológicas permite pensar que o ecumenismo se tem estiolado nas preocupações das Igrejas, levando-as a descobrir rotinas que mantêm distâncias e permitem viver alegremente com o “trânsito” para a unidade. É uma situação que adormece entusiasmos fundados e diminui a tomada de consciência das implicações para a fé cristã da manutenção da actual divisão. O vulgo, sem “ver” resultados palpáveis de aproximação entre as Igrejas, tem vindo a alhear-se da questão ecuménica, tantas são as preocupações de outra natureza a enfrentar. Mas, por outro lado, os encontros e as celebrações ecuménicas, quando acontecem, permitem sentir a abertura alegre e a aceitação fraterna entre os fiéis das Igrejas que participam no Movimento. Foi assim em 2003 nas muitas celebrações diocesanas e paroquiais da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que em Portugal se realiza com o Programa editado pela Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé e pelo Conselho Português das Igrejas Cristãs – COPIC (Igrejas Anglicana Lusitana, Metodista e Presbiteriana), na celebração na Capela do Hospital de S. João, no Porto, em Junho, e, com especial importância, no V Fórum Ecuménico Jovem, ocorrido em Aveiro, em Outubro passado, com a presença de mais de 200 jovens. Ainda, na realização dos Encontros Ecuménicos, entre a Comissão para a Doutrina da Fé e o COPIC, e dos Encontros Interconfessionais, entre aquelas e a Aliança Evangélica Portuguesa. A nível internacional, o que de mais importante retenho foi o Acordo firmado entre a Igreja de Inglaterra (Anglicana) e a Igreja Metodista da Grã-Bretanha para uma cada vez maior cooperação com vista à plena unidade visível da Igreja de Cristo. Também, na continuidade da aceitação e prática da “Carta Ecuménica” pelas Igrejas da Conferência das Igrejas Euro-peias (CEC) e da Comissão das Conferências Episcopais Euro-peias (CCEE), Católica Romana, este ano se deram passos importantes na cooperação eclesial, tanto no plano social como no da aceitação comum de cada parte, especialmente nos países do Leste europeu, onde ainda é premente a questão das divisões religiosas. Acredito firmemente que o Ecumenismo é um movimento com uma dinâmica própria ditada pela acção do Espírito Santo, o que significa que, mesmo nas circunstâncias menos apropriadas aos olhos humanos, não deixa de “avançar”. É, não há “recuos” num movimento que se inspira no desígnio divino. Podemos querer “dar-lhe a volta”, mas, tal, mesmo que nos pareça o contrário, não é possível porque “Deus escreve direito por linhas tortas”, como diz o povo. Neste sentido, percebemos que o andar das Confissões cristãs em direcção à unidade plena – o reconhecimento dos ministérios e a aceitação da validade da celebração eucarística – é menos do que lento, mas também conseguimos ver o povo das diversas Igrejas a descobrir-se umas às outras em atitude de fraternidade e de caminho comum no exercício da fé num mesmo Deus. E isto é acção do Espírito. Como diziam os Presidentes do Conselho Mundial de Igrejas, na sua mensagem do Pentecostes de 2003, “Nunca devemos desanimar na nossa busca e no nosso entusiasmo ecuménicos. O Espírito Santo, que nos alimenta e sustenta, nos concederá o poder de amar os que são diferentes de nós e nos unirá para que formemos uma só família de fé.” Fernando Soares , Bispo da Igreja Lusitana e Presidente do COPIC

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