Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Não sei ainda bem expressar as razões, mas o modo como vejo as pessoas embrenharem-se cada vez mais no mundo digital, leva-me a crer que experimentam um isolamento sem ter consciência disso. Aliás, pensam estar cada vez mais ligadas a mais pessoas, mas alienadas do que se passa fora do seu écrã, conseguirão ver o outro ao seu lado que estende a mão ou abre o coração?

O que é mais forte? Uma rocha ou água? A rocha, pensamos, mas se a água bate, bate, bate e continua a bater na rocha, essa desgasta-se. Esse é o perigo que vejo em certos hábitos digitais como estar numa audiência a ouvir alguém e não resistir em pegar no telemóvel para ver se tem novas mensagens. São pequenas distracções que parecem inofensivas, mas se se tornarem hábitos, gradualmente perdemos a capacidade de escutar activamente o outro em profundidade.

Tudo tem de ser tão veloz quanto a velocidade com que recebemos uma mensagem e respondemos a essa mensagem, vivendo de gratificações instantâneas, quando a atenção, como dizia Simone Weil, ”é a mais rara e pura forma de generosidade.””Mas responder logo não é dar atenção ao outro?” – até podia ser, mas não estará a substituir o espaço real de relação com o outro? Cuidado com os diminuídos substitutos.

Inversão inesperada

A maior parte das tecnologias de comunicação começou como diminuídos substitutos da comunicação presencial, uma ideia do escritor Jonathan Safran Foer num artigo; muito interessante escrito para o New York Times e que me inspirou a escrever este. Diz Jonathan Froer que

”Nem sempre foi possível vermo-nos face a face, por isso, o telefone possibilitou mantermo-nos em contacto à distância. Nem sempre estávamos em casa, logo, a ‘mensagem de voz’ viabilizou um tipo de interacção sem que a pessoa estivesse perto do telefone. A comunicação online surgiu como um substituto da comunicação telefónica, considerada, por alguma razão, demasiado pesada e inconveniente. E depois os SMS, que facilitaram a troca de mensagens mais rápida e móvel. Estas invenções não foram criadas para serem melhoramentos à comunicação face-a-face, mas um declinar para, apesar de diminuídos, serem substitutos dessa.

Contudo, Froer notou que algo de inesperado aconteceu – afirma – “começámos a preferir os diminuídos substitutos.” Não é mais fácil fazer uma chamada ou enviar um SMS do que suportar o fardo de ir ter com uma pessoa?

Quantas vezes – e contra mim falo – enviamos um email, ou uma mensagem de WhatsApp, em vez de falar directamente com uma pessoa? A desculpa é sempre a mesma: não queremos incomodar. Mas não será isso escondermo-nos por detrás do silêncio vocal, e ficar descansados da vida porque “até enviámos um email!?”

Cada passo em frente na tecnologia (redes sociais, serviços de mensagem como o WhatsApp e outros) parece facilitar um pouco mais o modo como comunicamos, mas o que tenho notado é que se têm tornado numa forma de evitar o trabalho emocional de estar presente diante do outro, preferindo a transmissão de informação em vez de humanidade. Apesar de simples, faz-me pensar na experiência que actualmente vivo com os SMS.

Quantas vezes não recebi um SMS de alguém a dizer que quer falar comigo, mas não refere o assunto, deixando-me em suspensão, sob uma estranha “pressão” que me leva a pensar sobre o que quererá falar, distraindo-me daquilo em que deveria pensar, como seria uma expressão matemática para generalizar os comprimentos de canais construtais numa geometria radial (desculpem os jargões).

É uma pressão que me deixa perturbado. Por esse motivo, as pessoas que me conhecem sabem que, por não atenderem uma chamada minha, ou tendo consciência de estarem no período de trabalho, quando recebem um SMS da minha parte, vêem explícito o motivo pelo qual quero falar-lhes. Faço o que gostaria que me fizessem e, acreditem, dá bem mais trabalho escrever esse SMS do que insistir numa chamada vocal, mas considero um esforço que faz parte do trabalho duro de construir relacionamentos profundos.

O problema em aceitar – em preferir – diminuídos substitutos é o de que, ao longo do tempo, nós, também, tornamo-nos diminuídos substitutos. Pessoas acostumadas a dizer pouco, acostumam-se a sentir pouco.” (Jonathan Froer)

Esta é uma percepção de Froer que me leva a reflectir e fazer um exame de consciência. Usamos a tecnologia para poupar tempo, mas essa está a consumir o nosso tempo e a fazer do tempo que poupamos menos presente, íntimo, e relacionalmente rico. Nunca foi tão importante como agora um verso de uma música feita por um amigo da minha mãe que dizia “o meu presente é estar presente.”

Comunicar Equitecnologicamente

Comunicar é um acto fundamental na construção de relacionamentos autênticos. Mas o modo como a vida digital está a transformar a forma como comunicamos, leva-nos a pensar em expressões como “habitar no mundo digital” como boas e reais. Mas… serão boas?

É que, quanto mais próximo o mundo fica dos dedos, mais parece afastar-se do coração. Não é uma questão que se soluciona com uma postura anti-tecnológica, mas antes no equilíbrio entre a vida real e a digital, ou seja, equitecnológica. O desafio está naquilo que se equilibra. O tempo? A atenção?

A empatia que leva a colocarmo-nos na pele do outro é uma capacidade essencial na era digital. Só a desenvolvemos a partir das interacções que temos no mundo real, com pessoas diante de nós, na escuta atenta e sincera, ou na palavra dada com um tom que transmite segurança, confiança e amor fraterno. Nada disso é possível com um emoji, mensagem ou Imagens-Com-Letras-Grandes.

Vivemos num mundo de história, não de escória. Somos criaturas feitas de memória, não de lembretes. Mais importante do que reagir com um like é agir com amor. Estar atento às necessidades, anseios, dramas do outro pode não ser o propósito da nossa vida, mas é, seguramente, o trabalho de uma vida porque as relações autênticas são confusas, dolorosas, e com dificuldades quase impossíveis de superar. Mas se não estamos prontos a morrer nas pequenas coisas pelo outro, como poderemos construir os relacionamentos que transformam, realmente, as nossas vidas?

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