Pais de seis filhos, «dois no céu» e quatro crianças entre os seis anos e os 10 meses, Clara e o marido Luís fizeram o luto da morte filho velho, Mateus, que viveu 43 dias

Lisboa, 29 abr 2026 (Ecclesia) – Clara Keel Pereira, mãe de seis filhos, estreou-se na maternidade com 24 anos mas o Mateus, o seu primeiro filho, viveu 43 dias e faleceu no seu colo, sem ter nunca saído do hospital.
“A minha primeira experiência de maternidade foi de um bebé que eu nunca pude trazer para casa, a quem nunca mudei uma vez uma fralda e só dei de mamar uma vez”, conta à Agência ECCLESIA.
O Mateus é o primeiro filho do casal Clara e Luís Keel Pereira, que nasceu em agosto de 2018, foi batizado na neonatologia e, indica a mãe, “teve uma morte assistida porque toda a unidade parou para acompanhar o Mateus”.
Clara fala de um bebé “muito desejado” e que “relativamente cedo na gravidez”, o casal percebeu “que alguma coisa poderia não estar bem”, havendo suspeitas de Trissomia 21.
“O primeiro impacto foi forte. Eu era uma jovem cheia de esperança na vida, com a minha família perfeitinha, é o meu primeiro filho que ia ser perfeito. Fomos fazendo um caminho, fomos também conhecendo mais sobre a Trissomia. Quando o resultado se confirmou já estávamos em paz porque já tínhamos chorado muito antes, já nos tínhamos informado e estávamos bem. E fui-me sentindo em paz com o tempo da gravidez e acho que essa foi a resposta de Deus – a paz”, recorda.
O Mateus nasceu bem mas a sua saúde foi-se deteriorando, com a necessidade de uma intervenção cirúrgica os três dias de vida e uma infeção que foi terminal aos 43 dias.
“Foram dias duros, mas dias muito bonitos, que eu não recordo com mágoa, com tristeza, pelo contrário – recordo com saudade porque foi pouco tempo com o meu filho. Ele estava no meu colo e eu estava a pedir-lhe ‘Mateus, reza por nós, estás a ir para o céu’. Foi duro, é um momento de sofrimento, não é um caminho linear, mas acompanhei o meu filho na sua vida, na vida que ele teve. Eu chorava, descontroladamente, mas não era um chorar desesperado, era um chorar de amor. E ele está no céu, numa felicidade que nós não conhecemos”, explica.
Clara e Luís são ainda pais da Maria da Luz, com sete anos, da Maria da Paz, com cinco anos, do Lourenço, que tem três anos, da Esperança, com 10 meses, e da “Maria, nome que as nossas filhas deram a um filho que perdi às 12 semanas de gravidez”.
“Eles sabem que têm um irmão. A Maria da Luz diz muito que gostava de ter o conhecido e que ele estivesse aqui mas sempre lhes dizemos que um dia nos vamos encontrar todos no céu. Todos os dias, na oração da noite que fazemos em família, pedimos sempre para o Mateus no céu rezar por nós e interceder pela nossa família. É espantoso ver estas coisas pelos olhos das crianças. E falar sobre isto com os filhos ensina-lhes uma confiança em relação à vida e às coisas que nos podem acontecer. Eu acho que isso também é muito pedagógico para eles”, reconhece.
A morte do primeiro filho fez Clara perceber que o controle não passa por si e que como mãe o seu papel é “acolher”, mas indica que a despedida do filho “aprofundou muito a vivência de família”.
“É muito bonito ver como as crianças falam com naturalidade disto e fazem muitas perguntas. Para nós, foi muito importante vivermos isto no início do nosso casamento, porque, de repente, foi uma prova e não nos sentimos sozinhos. Ao contrário do que as pessoas pensavam, decidimos ter mais filhos e não ficarmos marcados pela morte do Mateus”, conta.
“Lembro-me da primeira vez que levei a Luzinha para casa de pensar ‘meu Deus, eu nunca mais vou estar descansada na vida; vou ter sempre esta preocupação’. Ser mãe é sempre com lutas, angústias, irritações, é um equilíbrio entre o sofrimento, as dores, o dormir pouco, o ter de dar sempre mais e mais. Mas é também esta alegria de trazer alguém ao mundo e o que essa criança traz é único”, acrescenta.
A conversa com Clara Keel Pereira vai ser emitida no programa ECCLESIA, na Antena 1, pouco depois da meia-noite, e disponibilizada no podcast «Alarga a tua tenda».
LS
