Conferência Episcopal Portuguesa

A reflexão “Desafios pastorais da pandemia à Igreja em Portugal”, aprovada a 13 de novembro de 2020 na Assembleia Plenária da CEP e divulgada a 1 de janeiro de 2021, vem no seguimento do documento “Recomeçar e Reconstruir – Reflexão da CEP sobre a sociedade portuguesa a reconstruir depois da pandemia Covid-19”, aprovado a 16 de junho na Assembleia Plenária da CEP.

I – A IGREJA E A PANDEMIA

1. A Igreja em Portugal, através dos seus bispos, sente-se unida a quantos foram diretamente atingidos pela pandemia e sofrem nas suas casas e famílias, nos lares e nos hospitais, na Igreja e suas instituições, pedindo a bênção de Deus e a recuperação da saúde e da esperança para as suas vidas. Partilha, igualmente, a dor das famílias que perderam os seus entes queridos, confiando-os aos braços misericordiosos do Senhor, assim como a angústia dos que perderam ou viram substancialmente reduzidos os seus rendimentos necessários a uma vida condigna.

2. A Igreja quer manifestar reconhecimento e gratidão a todos os que mais de perto têm tido a missão de conduzir o país, mesmo com decisões difíceis, aos prestadores de serviços na saúde, nas escolas, nas instituições de solidariedade e a todos os voluntários que enfrentam mais de perto todo o tipo de riscos. A Igreja pensa em todas as pessoas de diversas profissões e atividades humanas que não pararam de trabalhar para que outros pudessem sobreviver encerrados em suas casas; pensa em todos os que fazem da vida um dom aos irmãos; pensa nos especialistas e investigadores; lembra os profissionais das casas de idosos e dos hospitais que conseguem acrescentar um “algo mais” e bem precioso às obrigações e horários, e que fazem da vida um talento e uma dádiva; lembra os autarcas nas diversas funções para que foram eleitos e as forças de segurança e de proteção civil; lembra as pessoas com deficiência, nas instituições e em casa de família; lembra e encoraja os párocos e outros agentes pastorais no enorme esforço de adaptação e presença no meio do seu povo. A todos garante a sua solidariedade e oração.

3. Com este documento, a Igreja procura discernir desafios pastorais e lançar alguma luz sobre o que vivemos. Mais que conclusões apressadas, que o Espírito nos conceda a Sabedoria. O primeiro desafio que se coloca à Igreja e ao mundo é saber “habitar este silêncio”. Só assim conseguirá ouvir Deus que nos deixou ficar “sem palavras”, bem como o grito da terra e o grito da Humanidade.

 

Uma Terra em agonia

 4. Esta não é apenas uma pandemia, mas encruzilhada de tantas outras, a mais visível das quais é a crise ambiental. A Terra agradeceu a nossa travagem. Olhando a natureza doente, podemos mesmo perguntar: “onde foi parar o ser humano?”. Esgotamos os recursos ambientais e humanos para edificar uma sociedade que, na hora da verdade, se mostra frágil e voraz. A destruição acelerada de espécies animais e vegetais, a poluição e tantos outros pecados graves contra a natureza ameaçam a própria sobrevivência da Humanidade.

5. Falando do ser humano e da natureza, o Papa Francisco afirma: “tudo está conectado”. Constitui, porventura, a mensagem central da Encíclica “Laudato Si’”. O ser humano não está dissociado da Terra ou da natureza, eles são partes de um mesmo todo. Portanto, destruir a natureza equivale a destruir o Homem. E destruir o Homem, criado à imagem e semelhança de Deus, é atentar contra o próprio Deus Criador. Da mesma forma, não é possível falar em proteção ambiental sem que esta envolva também a proteção do ser humano, em especial os mais pobres, os vulneráveis e os refugiados do clima.

 

II – DESAFIOS PASTORAIS

Embora a pandemia não tenha terminado, há inúmeros desafios “concentrados” no período de confinamento.

6. Defender a saúde dignifica a vida, mas o direito à vida não é só ter direito de viver. É exigível criar e manter as condições para uma vida digna, sem discriminações, minimizando o sofrimento decorrente de uma doença e tratando os doentes com todos os meios humanos, técnicos e científicos disponíveis para um cuidado com qualidade. Cuidar de um doente significa prestar assistência a uma pessoa fragilizada, abalada e insegura, em que a responsabilidade de quem cuida implica zelar, consolar e medicar de acordo com a individualidade de cada um. O cuidado para com a pessoa doente implica igualmente restaurar e curar a vida espiritual e suscitar esperança. Conscientes de que é na doença que se revelam as suas fraturas e deficiências, o acompanhamento visa recuperar e desenvolver a comunhão com Deus. Cuidar da vida desde a sua conceção até à morte natural é uma exigência da sociedade que decorre do bem comum.

7. Sabemos que não há recursos ilimitados, sobretudo devido às políticas económicas deficientes. Mas, se a vida não for prioridade inquestionável, o que o será? O conceito de lucro na saúde é problemático, quando se torna o critério decisivo, exclusivo ou principal. Quais as consequências para a qualidade do serviço de saúde público e privado? “Estamos todos no mesmo barco”, mas sabemos que a saúde não é igual para todos e que se vive e morre em “barcos muitos desiguais”. Se não formos capazes de alterar este binómio vida e saúde , onde se mede a igual dignidade de todos, não teremos uma sociedade justa e solidária.

8. As questões levantadas por esta pandemia não são apenas sanitárias, económicas ou sociais, mas devem ser ocasião para provocar uma mudança de mentalidade e uma reviravolta cultural concretizada em modos de ver, sentir, pensar e agir imbuídos de verdade, de justiça, de fraternidade e de paz, à medida de toda a família humana. Precisamos de homens sábios e santos dentro de todas as áreas do saber e do agir, criativos da palavra e do amor.

9. Um desafio pastoral urgente poderá ser o de reunir pessoas atingidas pela experiência do sofrimento, que caminhem lado a lado e rezem na companhia de quem sofre. Pessoas que não tenham medo de abordar com palavras e espiritualidade a vida até à morte, sem esquecer a Vida Eterna. Não se pode abandonar na solidão quem está nos momentos mais exigentes e decisivos da vida. Saberá ajudar a morrer quem souber viver a transcendência.

 

A solidão

10. A solidão mata, ouve-se dizer. Mas morrer na solidão deve ser tremendo. E quantos, nos hospitais, nos lares e nas famílias viviam e morriam já na solidão?

A questão dos idosos e a ideia de que são descartáveis é um escândalo que se revelou em toda a sua brutalidade. Devemos isolar de nós o vírus e não o idoso, tornando-o desumanamente solitário. Sentir-se solitário é o equivalente social a sentir dor física. Lembra o Papa Francisco: «Isolar os idosos e abandoná-los à responsabilidade de outros, sem um acompanhamento familiar adequado e amoroso, mutila e empobrece a própria família. Além disso, acaba por privar os jovens daquele contacto que lhes é necessário com as suas raízes e com uma sabedoria que a juventude, sozinha, não pode alcançar» (FT 19).

Mostrámos não ter capacidade de resposta para a solidão. Dói pensar nos idosos que não pudemos visitar, nos filhos que viram os seus pais e mães partirem na solidão, bem como a impossibilidade prática, tantas vezes presente, de lhes fazer chegar o conforto e a esperança espiritual.

11. O lugar ideal para vencer a solidão é a família. Neste campo, servem as palavras da Comissão Nacional Justiça e Paz de 13 de outubro último: “Ao Estado não compete tudo, mas é a ele que tem de se exigir a criação de uma política de apoio aos idosos onde estejam definidos objetivos e meios para aplicar com recurso a meios financeiros próprios e de terceiros. Quando esgotada essa possibilidade, o recurso aos lares deve ser encarado”. O modelo e o funcionamento dos lares devem ser profundamente repensados, tanto no que se refere ao equilíbrio do seu financiamento e gestão pelo Estado e por entidades da sociedade civil, como no respeitante à diferenciação dos serviços aí prestados e à articulação com as famílias.

12. As comunidades cristãs devem ser estimuladoras de uma cultura de proximidade, organizada e proativa, que anime os sós. A partilha dos bens, do saber, do tempo, da simpatia e da amabilidade deve ver-se na elaboração de projetos de serviço voluntário que envolvam crentes e não crentes, para que ninguém viva, sofra ou morra na solidão. Quanto as gerações mais novas beneficiariam! Quanto individualismo e egoísmo seriam queimados para sempre pelo fogo da caridade!

 

A inclusão e a solidariedade

13. Com a pandemia arriscamo-nos a deixar para trás faixas da população que já eram frágeis e que viram agravar a sua situação. Este tempo faz-nos olhar com preocupação para o fosso escandaloso entre os ricos e os pobres, entre os privilegiados e os não-privilegiados. Em muitos lugares, o doente, o mais velho e o deficiente sofreram de forma mais grave, muitas vezes com poucos ou quase nenhum cuidado de saúde. O preconceito racial continua a existir. Pessoas das periferias, sobretudo migrantes, refugiados e prisioneiros, têm sido os mais afetados por esta pandemia. Preocupam-nos os problemas nas famílias desestruturadas, monoparentais, com problemas ou conflitos relacionais, com habitação deficitária e as vítimas de violência doméstica que também aumentaram… Seria longa a lista!

14. A nossa sociedade precisa de uma Igreja que seja “hospital de campanha” pronta a socorrer, a cuidar, a abrigar, como já o foi em tantos momentos de crise. A Igreja quer ser mãe de todos e casa para quem a procura. Porém, também ela é carente de pessoas e meios. Não são risonhas as perspetivas futuras, mas é nestes momentos de grandes desafios que surgem jovens generosos que entregam a sua vida a Deus, no sacerdócio ou noutra forma de consagração religiosa ou laical. A generosidade e o altruísmo precisam de ser desenvolvidos como vocação a servir. Só uma sociedade com alma pode ser inclusiva, solidária e justa.

Uma boa pergunta para um exame de consciência em Conselhos Pastorais Paroquiais e Diocesanos deveria ser: “Somos de facto um hospital de campanha”, pronto a estar entre os feridos desta e de outras guerras? Somos a “casa do Bom Samaritano”, com espaço para os abandonados nas estradas da vida”?

 

A Igreja doméstica

15. O fecho das igrejas às celebrações comunitárias nos inícios da pandemia deverá ter-nos aberto os olhos para descortinar um outro modo de ser Igreja, feito não só de liturgia e de oração, mas de vida quotidiana, até que toda a vida se torne oração e a oração vida. Se na paróquia é necessário haver um lugar de oração, é também importante valorizar formas concretas de exercer a diakonia ou o serviço da evangelização, uma dimensão constitutiva do ser Igreja e da sua missão, que acontecem onde existem necessidades sociais.

16. É bom haver catequese na paróquia, mas o seu fecho forçado disse-nos que talvez a primeira catequese seja a que é feita em casa, pelos pais, avós, tios, irmãos. Temos a oração da Eucaristia, mas há também a oração da manhã, da noite, antes das refeições e o terço, entre outras.

É um desafio redescobrir a oração doméstica, promover uma autêntica espiritualidade familiar e levar a sério a liturgia da Palavra no lar. São João Crisóstomo, dirigindo-se aos pais de família, dizia: “Com a vossa mulher e os filhos repitam juntos a palavra escutada na igreja. Voltem a casa e preparem duas mesas, uma com os pratos para a comida, a outra com os pratos da Escritura (…), façam da vossa casa uma igreja”.

17. Para viver, a Igreja tem necessidade da Igreja doméstica, pois esta é a chave da transmissão da fé. O precioso trabalho dos catequistas, sempre necessário, não substitui o ministério da família. Seguindo o exemplo da “Igreja em saída”, a Igreja doméstica deve orientar-se para sair de casa; também ela deve ser colocada em posição de assumir as suas responsabilidades sociais e políticas.

18. A Igreja está consciente da diversidade de tipos de família. A comunidade paroquial tem capacidades únicas para se fazer próxima, como mãe que abraça a todos. Deve, porém, ter a criatividade suficiente para evangelizar “dentro da situação concreta” de cada uma.

Precisamos de passar de uma pastoral familiar de eventos para uma pastoral de processos. Não se podem preparar atividades em gabinete esperando que as famílias adiram. Precisamos de uma pastoral “com” as famílias.

 

Sacerdotes, profetas e reis

19. Este é o momento oportuno para que os leigos tomem consciência do seu sacerdócio comum, nascido com o Batismo, bem como a sua função real e profética. O Concílio Vaticano II convidava os fiéis leigos a “oferecerem-se a si mesmos como vítima viva, santa, agradável a Deus” (LG 11).

São inúmeras as circunstâncias da vida em que os leigos podem exercer o sacerdócio comum: dar testemunho de Cristo em toda a parte, através do anúncio e da escuta; exercitar o testemunho de uma vida santa, com abnegação e caridade, no hospital, nos trabalhos mais humildes que asseguram os serviços sociais essenciais, na atenção às pessoas mais necessitadas, no campo político, nas associações locais, no trabalho da escola; sentir e unir-se à dor da separação, da insegurança económica, da proximidade muito estreita e prolongada com pessoas doentes, idosas, com problemas físicos ou psíquicos.

20. É bom voltar à igreja e redescobrir a preciosidade da Eucaristia, da comunidade cristã, do serviço dos sacerdotes. Mas esperemos que se tenha descoberto a extraordinária vocação sacerdotal dos leigos, um sacerdócio real exercido com criatividade, capaz de abrir novas estradas à missão e ao nascimento de muitas Igrejas domésticas, de proximidade, de bairro.

 

As relações

21. As separações e desconfianças em relação ao outro, muitas vezes considerado como um possível portador de contágio da pandemia, exigem um renovado esforço para voltar a ter relações fraternas e generosas. É vocação dos leigos criar relações cada vez mais enformadas pela caridade, seja no interior das nossas comunidades, seja nos ambientes nos quais vivemos e trabalhamos.

O amor vence a tentação do “confinamento em si mesmo”, pois tem o poder de ensinar como “se vive o outro”. O amor vence o medo que mata mais do que a pandemia, porque domina as pessoas, as faz adoecer, as bloqueia psicologicamente, as impede de viver e de dar o melhor de si.

22. A Igreja é chamada a viver em comunhão com todos. A experiência da fragilidade que a pandemia nos faz viver mostra quanto é absurda a tentação de autossuficiência ditada pela técnica e pela ciência, quanto é artificial o mundo do bem-estar que estamos a criar.

 

A vida comunitária

23. O alheamento mata a vida das comunidades e multiplica a indiferença, talvez mais do que a descrença. Num mundo onde o institucional é cada vez menos apreciado, também a Igreja se ressente nas suas comunidades e instituições. Muitos cristãos tendem a gerir a sua vida espiritual de forma cada vez mais privada, tal como certas ideologias pretendem.

24. Nunca é demais olhar para a comunidade primitiva, descrita nos Atos dos Apóstolos. A presença de Cristo Ressuscitado era mais forte do que todas as ameaças de morte ou exclusão. Dentro do poderoso e conquistador mundo romano, o Evangelho ia-se escrevendo com a própria vida dos discípulos de Jesus. Eles eram Evangelho, comunidade de testemunho e de missão.

A comunhão fraterna “atraía a atenção” por simpatia e não pelo proselitismo. Uma comunidade minoritária, mas que não tinha medo de ser profecia no meio do seu velho mundo. Era um estilo de vida fascinante que deve ser sempre retomado!

25. É fundamental ter a coragem de avaliar a vida das comunidades e os seus dinamismos de integração, criatividade e generatividade. É preciso identificar as “salas de catequese modernas”, os espaços novos para uma evangelização missionária. O campo da missão alargou-se, requer pessoas com paixão comunitária e estilo missionário, comunidades vivas e unidas, capazes de acolher, integrar e voltar a convencer da riqueza da vida em comum: todos juntos.

 

III – UM NOVO ANÚNCIO DO EVANGELHO

 26. São João Paulo II introduziu o conceito de “nova evangelização” para indicar o esforço de renovação que a Igreja é chamada a fazer para estar à altura dos desafios que o contexto social e cultural de hoje coloca à fé cristã, ao seu anúncio e testemunho, como consequência das profundas mudanças em curso.

O Papa Francisco, no seu primeiro documento “A Alegria do Evangelho”, recorda-nos que a evangelização é dever da Igreja, entendida esta como o anúncio de Cristo morto e ressuscitado e que revela e comunica a misericórdia infinita do Pai (cf. EG 164).

O anúncio do Evangelho pede aos cristãos a coragem de habitar “novos areópagos”, encontrando os instrumentos e os percursos para tornar audível, também nesses lugares, o património educativo e de sabedoria preservado pela tradição cristã.

27. O primeiro anúncio, primeiro porque o mais importante, precisa de uma linguagem simples, compreensível e direta que conte como Deus é Amor e ama cada um, porque deu a vida por nós em Jesus Cristo e está sempre pronto a acreditar e caminhar connosco.

28. Evangelizar significa falar de uma novidade que não diz respeito só ao método, mas ao próprio Evangelho. O problema mais sério não é como anunciar o Evangelho numa cultura diversa, mas como retomar o Evangelho dentro dessa mesma cultura. Um novo ardor no anúncio do Evangelho mostrará como este pode responder aos problemas da pós-modernidade.

O Papa Francisco tem-se revelado um especialista nesta arte de pensar o Evangelho dentro da cultura e das grandes questões da humanidade: a crise ecológica e climática, o problema dos refugiados e da pobreza, a educação, a economia.

 

Construir a fraternidade universal

29. “Todos irmãos” é o título da nova e desafiadora Carta Encíclica do Papa Francisco sobre a fraternidade e a amizade social. Haverá melhor modo de apontar o futuro, em tempos de crise planetária?

30. A palavra “todos” começou a usar-se mais no nosso léxico, como sinónimo de humanidade inteira, sonho de percursos comuns, de esforços, consensos e soluções globais. Preocupam-nos, porém, os dramas que encobrem este desígnio universal: a fome que duplicou no mundo desde o início da pandemia, o gritante abismo entre os multimilionários cada vez mais ricos e a grande franja da humanidade cada vez mais pobre, a xenofobia, o racismo, as guerras fratricidas, a ameaça da crise climática.

Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos” (FT 8).

 

Comunicar nos ambientes digitais

31. Os meios digitais podem tornar o virtual “quase real” e servir para aproximar, partilhar, construir laços e até “tocar” o coração do irmão. Muitos profissionais de assistência ou saúde “ligaram” famílias aos seus doentes em hospitais, em lares ou até em casa. Igreja e Instituições estão a servir-se dos meios telemáticos para a oração, as catequeses alternativas ou complementares, a formação, a educação, a comunicação e o teletrabalho. Estes meios permitem multiplicar os destinatários e diversificar os formadores.

Há três desafios importantes e urgentes em relação ao uso destes meios: o da sistematização e disponibilização de materiais bem preparados e adequados, a formação dos utilizadores e a importância de não deixar perder a relação pessoal que, mesmo com a ajuda do digital, é possível e prioritária. Nada substitui a presença real, a conversa pessoal, a voz, a palavra que mexe com os sentidos.

32. Os meios digitais são um contributo pastoral subsidiário. Pensamos na preparação das famílias para os sacramentos do matrimónio e do batismo, dois momentos fundamentais para lançar bases ou consolidar a Igreja doméstica do próprio lar. Na dificuldade de várias reuniões presenciais, algumas – talvez a maior parte – poderiam ser por meios telemáticos.

 

O primado da Palavra

33. A obra decisiva deste novo ardor missionário consiste em voltar a colocar o Evangelho no centro. Os primeiros cristãos conheciam a sua novidade e a força de convencimento que tinha. Nenhuma outra emergência os tirava deste centro. Hoje, muitos cristãos ainda são “analfabetos do Evangelho”.

Explicar o Evangelho é falar de Cristo como contínua surpresa que convém suscitar. Jesus realiza as expectativas e, ao mesmo tempo, supera-as. Há na sua pregação um “algo mais”, que abre à pessoa horizontes inesperados e que, quando conhecidos, faz empalidecer as expectativas iniciais. A Palavra do Evangelho não é um conjunto de histórias do passado, é um anúncio feito hoje e que deve surpreender, indo muito além de todas as expectativas.

34. No primado da Palavra, é relevante a formação, a comunicação, a linguagem. Grande parte dos cristãos não está a par da “gramática” utilizada na Igreja, e muitas vezes não conhecem os documentos da Igreja, porque não houve o devido estudo, nem estão por dentro do que realmente se celebra na liturgia. O cuidado na formação “ao longo do caminho” e de acordo com os serviços a desempenhar nunca está acabado, precisa de ser contínuo.

 

Celebrar é evangelizar

35. A liturgia pode e deve ser evangelizadora, desempenhando um papel de iniciação para muitos que, sem formação, participam nas celebrações em momentos especiais da existência humana. Pensemos em quantos, por simpatia, se aproximam de cristãos no batismo, nas exéquias, nos matrimónios e noutros eventos celebrativos. São mulheres e homens para quem a única ocasião de encontro com o cristianismo é exatamente a liturgia na qual participam. Para muitos “cristãos praticantes”, a única fonte de evangelização e formação permanente está exatamente na missa dominical.

36. A celebração da liturgia comunitária é uma experiência única numa sociedade onde prevalece o egoísmo e o individualismo. De modo particular, a celebração da Eucaristia é já a Assembleia de irmãos reunidos e unidos, um pedaço de humanidade fraterna, renovada pela Boa Notícia (Evangelho) que é Cristo ali, no povo reunido. Ao sair da porta da igreja que se abre para a rua, o cristão sabe quanto caminho tem a fazer para realizar o que rezou lá dentro: “assim na terra como nos céus”! Mas sai com a certeza que lhe vem da esperança: o Senhor irá com ele construir o Reino.

 

Novos desafios de serviço e missão

37. Todos os serviços e ministérios na Igreja, tanto os existentes como os que possam ser criados, devem estar impregnados por um profundo dinamismo missionário, um renovado anúncio do Evangelho nas comunidades cristãs, nas famílias e na sociedade. Como exemplo, os catequistas exercem um papel fundamental de anúncio do Evangelho. A publicação recente do Diretório para a Catequese tem de nos levar a pensar outras formas de educar na fé onde a família, enquanto Igreja doméstica, seja o centro na transmissão do Evangelho aos mais novos.

38. Saber acolher é uma arte que evangeliza. A pandemia mostrou a importância dos grupos de acolhimento na Eucaristia e a necessidade de recuperar o tradicional serviço dos “ostiários”, acolhendo e saudando as pessoas em nome da comunidade, dando indicações e encaminhando-as para o respetivo lugar nos espaços celebrativos. Um serviço de acolhimento e integração na comunidade que deve ser retomado e alargado a outros momentos, para além da Eucaristia.

39. No âmbito do novo anúncio do Evangelho, adquire especial destaque pastoral o serviço da comunicação, quer pela presença nas redes sociais e no uso dos meios digitais, contribuindo para a unidade da comunidade cristã e para a abertura missionária, quer pelo diálogo com a sociedade civil e instituições diversas. Durante a pandemia percebemos a relevância do clima de abertura e diálogo das comunidades cristãs e seus responsáveis com as autarquias, as forças de segurança e as autoridades de saúde e da proteção civil. Seria uma falha grave desperdiçar esta experiência.

40. Os Consagrados encontraram, também eles, na situação de pandemia novos contextos para encarnar os próprios carismas, através do serviço aos outros, sobretudo aos mais pobres e fragilizados, indo ao seu encontro, acolhendo-os, sustentando-os e acompanhando-os.

 

Partir das periferias

41. Se se trata de recomeçar, que seja sempre, como no Evangelho, a partir dos últimos. “Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade” (FT 235).

42. Pensar a pastoral a partir dos últimos pode também significar preparar os planos pastorais a partir das periferias. Há muitos pobres? Vamos partir deles e com eles! A comunidade vai ficar mais rica, pois “é necessário que todos nos deixemos evangelizar por eles. A nova evangelização é um convite a reconhecer a força salvífica das suas vidas e a colocá-los no centro do caminho da Igreja. Somos chamados a descobrir Cristo neles: não só a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas também a ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles” (EG 198).

Há muitos “sem abrigo”, com fome e sem casa? Como envolver todos os serviços paroquiais num plano integrador, mais que assistencial? Poderão ter que alargar horizontes, envolver outras paróquias, comunidades religiosas, movimentos, associações de fiéis públicas e privadas, criando redes entre elas. Não significa que os projetos tenham a marca paroquial. Importa é que as pessoas sejam o centro e o amor o betume que une a missão comum. Há muitos idosos e doentes? Sem parar os serviços paroquiais habituais, como colocá-los no centro, envolvendo-os no amor da comunidade? Há muita solidão? Como vamos criar uma cultura de proximidade e de novas vizinhanças?

43. Oxalá por todo o lado – das dioceses às paróquias, dos movimentos aos consagrados, do simples fiel aos professores, teólogos, eclesiólogos ou pastoralistas – se iniciem percursos sinodais de escuta prolongada, autênticos laboratórios de reflexão em ordem a uma “nova etapa da evangelização”. Oxalá o Espírito inspire percursos novos que, feitos com todo o povo de Deus, consigam envolver mulheres e homens de boa vontade e lançar, em conjunto, itinerários imbuídos de amor solidário para não abandonar ninguém pelo caminho.

 

IV – A PARÓQUIA, COMUNIDADE SINODAL

 44. Para a evangelização é decisivo que na comunidade tudo seja comum, que aquilo que um faz seja de todos e diga respeito a todos. Na comunidade, deve acolher-se os projetos dos outros como se fossem seus, cada um deve pensar no bem do outro, ajudá-lo a crescer, interessar-se pelo seu sucesso, sacrificar-se e dar a vida pelos fins comuns. Numa paróquia que seja verdadeira comunidade, não deve entrar a disputa, a discórdia, os interesses pessoais, os desejos de afirmação ou poder; não deve haver autoritarismos, críticas, invejas, ciúmes; o que se faz deve ser direcionado a todos, deve haver comunhão na diversidade. A sinodalidade é a síntese entre o caminhar juntos da Igreja e o seu olhar para o Limiar Eterno.

 

Dois ou mais!

45. Para a conversão pastoral das comunidades paroquiais em chave missionária, o Papa Francisco rebatiza a paróquia com nomes novos: “comunidade sinodal”, célula da “Igreja em saída” e “casa do povo de Deus”. A sinodalidade, inspirada no “ícone de Emaús”, não é um novo método pastoral, mas uma maneira de ser, um estilo que nos anima e nos faz caminhar como irmãos de estrada, chegando a todos. A sinodalidade exige a humildade de “ir lado a lado”, com o Mestre em companhia. Evangelizar numa paróquia sinodal passa por “ir dois a dois”!

46. “Sinodalidade é o que Deus espera da Igreja neste terceiro milénio” (Papa Francisco). É o modo de ser Igreja! Este é um estilo de que o mundo muito pode beneficiar, porque é escola de vida, de exercício da corresponsabilidade e colaboração ativa, onde se pode aprender o serviço, a escuta recíproca e o diálogo respeitador. Até a própria democracia, a política, a gestão, a administração e o serviço de cidadania teriam muito a aprender. Na sinodalidade, vale mais o menos perfeito em unidade que o mais perfeito em desunião. De igual modo, vale mais o menos perfeito em grupos alargados que o mais perfeito feito por um só ou poucos.

 

Paróquia, célula da “Igreja em saída”

47. Em tempo de pandemia percebe-se ser real o apelo a passar de uma atitude de “espera” à atitude de “saída”. Não basta a atitude cómoda de ficar à espera que as pessoas venham até nós. A paróquia é “extroversa” por natureza, ou seja, está atenta e “em saída”, vai onde se sente necessária. Passar de uma pastoral de manutenção a uma pastoral missionária é uma conversão que vai durar o seu tempo. Não pode haver pressa, mas é necessário planear, definir objetivos e percursos para lá chegar.

 

Paróquia, “Casa do Povo de Deus”

48. Na abertura do Congresso Pastoral da Diocese de Roma, em junho de 2014, que teve como lema “Um povo que gera os seus filhos: comunidade e família”, o Papa Francisco desenhou um perfil de Igreja no contexto da Igreja local e da paróquia, descrevendo a comunidade como Igreja “que saiba acolher com sentimentos maternos, mostre ternura com todos, saiba olhar para o futuro com esperança, cultive a memória de povo de Deus, queira tratar os homens com aquela paciência que possibilita suportarem-se uns aos outros, possua a doçura do olhar de Jesus, tenha maternalmente a porta sempre aberta a todos, seja capaz de falar a linguagem dos jovens, seja audaz a explorar novas vias, novas linguagens, novas atitudes para dilatar o anúncio da salvação, tenha sentido de gratuidade”.

 

V – OLHAR O FUTURO

49. A mudança está sempre no ADN do jovem. Ele sabe que ela faz parte da sua vida de todos os dias. Quando se fala de grandes mudanças na história dos homens, os jovens estiveram lá: sonharam-nas, defenderam-nas e deram a vida pelas causas.

A pandemia fez com que os mais velhos ficassem em casa. Para vários serviços e onde lhes deram oportunidade, os jovens foram fundamentais e adaptaram-se de imediato: no acolhimento e higiene, nos lares de idosos, na comunicação, no uso das novas tecnologias, na proteção da natureza, etc. Muitos se ofereceram para ajudar na catequese, “porque tinham jeito para as tecnologias”, diziam os mais velhos.

50. Sem a escuta atenta dos jovens, sem a sua visão da Igreja e do mundo, não haverá adequada renovação e conversão pastoral. O domínio do digital dá-lhes uma forma nova de ver a realidade. Além disso, são peritos na abertura à novidade, ao diferente, às pessoas e aos povos. Com eles a fraternidade é mais possível. Nasceram já numa cultura de grandes preocupações ambientais e defesa da natureza.

51. Caríssimos jovens, a Igreja entre nós, mais ainda pela preparação da Jornada Mundial da Juventude em Portugal em 2023, está ciente de quanto podeis ser agentes da evangelização, trazendo o vosso modo de ser, agir, pensar, servir e amar. Vinde inteiramente, vinde dizer que Cristo continua jovem e vive no meio de vós com a força do seu Evangelho, com a arma potente do seu e do vosso amor.

52. Conscientes de que o testemunho de unidade é decisivo na construção de uma sociedade mais justa e fraterna, pedimos juntos a luz de Cristo Ressuscitado para todos os homens e mulheres do nosso país, para que nos conceda a coragem de olhar para além das chagas abertas por esta pandemia e descortinar uma aurora de esperança capaz de nos lançar decididamente numa “nova etapa da evangelização” (EG 287).

53. Que Maria, a Mãe do Evangelho, acompanhe todos os seus filhos, os assista nos perigos desta pandemia e lhes dê a saúde esperada, juntamente com a paz, a solidariedade e o conforto do amor recíproco. Todos irmãos e irmãos de todos.

Fátima, 13 de novembro de 2020

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