D. Manuel Linda

Quando se contempla o sol, podemos ficar-se pelos seus efeitos ou considerar antes a grandeza desta estrela. Mas mesmo que nos fixemos neste segundo âmbito, nem todos equacionaremos a sua dimensão: para um astrónomo ou cientista estará presente a ideia de uma massa atómica imensamente maior que a terra; para outros de nós, apenas aquele pequeno círculo avermelhado e provocante que fotografamos nostalgicamente quando se põe, nos dias sem nevoeiro.

Assim acontece com os grandes. Tanto podemos apreciá-los na sua efetiva grandeza como apouca-los, reduzi-los a uma insignificância, jugando-os, porventura, fruto do acaso ou de alguma circunstância que os favoreceu.

D. António Ferreira Gomes não poderia constituir exceção. Para alguns, embora, certamente, devotando-lhe uma certa simpatia, não passa do bispo político, do bispo que bateu o pé a Salazar. Para outros, encarnará a figura do mal-agradecido, do deselegante em relação a quem libertou a Igreja em Portugal das afrontas, das perseguições e da pilhagem da Primeira República. Como sempre, nestes casos, a perspetiva depende mais de quem observa do que de quem é observado. Seja como for, é sempre uma visão superficial, exterior, que não atinge o núcleo originador de sentido. Mas, então, onde repousam as razões da grandeza deste bispo?

Não é possível desligar D. António da Igreja que foi chamado a servir: a sua Diocese do Porto. No exercício do seu magistério episcopal, deu-se conta de que só a teologia, a doutrina pregada pela Igreja, é resposta soteriológica ou salvífica ao questionamento do real. Observou a realidade e interrogou-se se o fundo ético da sociedade e a nova ordem emergente correspondiam ao acontecimento de Cristo que “faz novas todas as coisas” (Ap 21, 5). Foi, portanto, o homem de Igreja que olhou para o conjunto dos seus fiéis e, usando o método tradicional do ver/julgar/agir, pregou as atitudes que, como gostava de dizer, lhe impunham a sua “consciência profissional de bispo”. Sempre à base de dois pressupostos que definem a pessoa enquanto pessoa: liberdade e autonomia.

Interessa, pois, não perder de vista o homem de Igreja que teve de se relacionar com as estruturas do mundo, mormente com a política. Porque “o cristão tem duas pátrias”, sentiu-se obrigado a intervir na de cá de baixo a partir da luz recebida da do alto. Assumiu que o tempo da cristandade, qual simbiose entre as duas, já há muito passou. Por isso, à base da mundividência de Pio XII e, muito mais, munido com o “milagre de novidade” do Concílio, deu como ineludível que os tempos eram de mudança. Pregou a fidelidade às origens –nisto se parece com os critérios de atuação do Papa Francisco- e reconduziu a “pequena grei” dos seus fiéis à sublime tarefa de ser “sal da terra, luz do mundo”, “fermento na massa”. Não enjeitou a história, mas também não a quis repetir nem, muito menos, assumir o que não é nosso, dos cristãos. É o caso da Inquisição, fenómeno eminentemente régio e político, posteriormente colado à Igreja de tal forma que hoje (quase) todos a dão como se fosse criação desta. E a odeiam por isso.

Nesta linha, bateu-se fundamentalmente em duas direções, ambas tendentes a fazer com que a Igreja do Porto falasse a uma só voz: criar uma mentalidade social assente na tal “constelação de valores”, tão cara ao “Bom Papa João XXIII”, ou seja, a verdade e a liberdade, a justiça e o amor/fraternidade; e formar líderes que assumissem a condução da coisa pública quando chegassem os tempos novos da democracia. Vê-se isto no “pró-memória” a Salazar e nas perguntas incómodas que lá vão, mormente aquela que mais «chocou» o governante, qual seja a de saber se o homem do poder via inconveniente na formação política dos quadros dirigentes da Ação Católica.

A fidelidade a estes princípios orientadores ditaram-lhe as célebres “homilias da paz”, a partir de 1970, logo após o regresso do exílio, e a demarcação completa da guerra colonial, não se coibindo de chamar a atenção para as suas consequências dramáticas lá, nas «colónias», e cá, na «metrópole». É significativa, por exemplo, a homilia do Dia Mundial da Paz de 1973 e, fundamentalmente, a de 1974, quando tudo já apontava para um “25 de Abril” eminente. Não é de admirar que, depois da “revolução dos cravos”, muitos dos pais da nossa democracia fossem originários do Porto e, quase sempre, das relações pessoais de D. António. E quando o “verão quente” de 75 substituiu a racionalidade e a ética pelo aventureirismo e o atropelo dos direitos humanos, colocando o país à beira da guerra civil, mais uma vez, foi determinante a verticalidade de D. António, a par, é preciso dizer-se, com a grandeza cívica de muitos, mormente do Dr. Mário Soares. Sabemos que isso lhe valeu a injustiça de ser acusado pelos extremistas de se haver “passado para o outro lado da barricada”, apenas porque não embarcou em leviandades perigosas. Mas foi isso que, mais uma vez, o constituiu como que sinalizador da liberdade democrática e garantia de que, perante a verdade e o bem-comum, pode-se sofrer, mas não se pode mudar de rumo.

Eis, pois, alguns traços da grandeza deste homem da religião, legítimo continuar dos Bispos do Porto de todos os tempos, dos “bispos medievais”, por ele tão invocados, para quem a liberdade da sua Igreja e a defesa dos direitos do seu povo sempre foram valores inegociáveis. Mesmo que tivessem de ser defendidos com a dor da perseguição política, o vexame e o exílio, como aconteceu, por exemplo, cá dentro, com esse “mártir da República”, o venerável D. António Barroso e, lá fora, com D. Sebastião Soares de Resende, outro ilustre portuense amigo, confidente e «cúmplice» de Mons. Ferreira Gomes.

Tudo isto fez dos meus antecessores verdadeiros “senhores da cidade”. Se, desde há muito, administrativamente, nenhum reclamou essa referência, não lhes fica mal esse título, pois, pela sua vida e obra, mereceram acolhimento no afeto dos cidadãos do Porto cidade e Porto região. Que o diga, por exemplo, o meu direto antecessor, o senhor D. António Francisco dos Santos: alguém se plantou tanto no coração do povo como ele, a ponto de lá despontar um amor que nem a morte conseguiu extinguir?

A herança de D. António Ferreira Gomes pode sintetizar-se precisamente nisso: quando todas as instituições, mormente a política, a economia e a cultura, se afadigam em cortar com o antecedente ou mesmo demarcarem-se dele na mais hostil oposição, esse arauto dos tempos novos encarnou, com a mais ousada valentia, a fidelidade à longa tradição que caracteriza os Bispos do Porto: defesa acérrima da liberdade da Igreja e não menor preocupação com o bem comum da sociedade.

Por isso, a grei tem-no no coração. E a liberdade democrática de que hoje gozamos sabe quanto lhe deve. É que o povo não se deixa enganar facilmente e distingue bem quem está do seu lado ou quem pretende usá-lo em seu benefício. E D. António esteve do lado do Povo e encarnou o seu mais nobre e profundo sentir.

D. Manuel Linda, Bispo do Porto

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