Livro visita autores de vários continentes e culturas, ao longo dos séculos

Foto: Agência ECCLESIA/HM

Lisboa, 01 dez 2020 (Ecclesia) – José Carlos Seabra Pereira, investigador e professor universitário, assina a obra ‘As Literaturas em Língua Portuguesa (Das origens aos nossos dias), num itinerário que atravessa séculos de história, através de culturas e continentes.

O diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC) reconhece em entrevista à Agência ECCLESIA a “ambição maior” que o levou a abraçar um desafio cuja dimensão se revela logo no título.

O livro centra-se nas literaturas que, partindo de um tronco comum, se vão diversificando e encontrando o seu caminho noutros espaços.

Para o autor, o português como língua literária “vai ganhando feições diferentes, mesmo como língua, no Brasil, em Cabo Verde, em Angola, em Moçambique”.

José Carlos Seabra Pereira destaca Mia Couto, que considera “o maior escritor moçambicano dos nossos dias e um dos maiores da língua portuguesa”.

“Faz um trabalho com a língua portuguesa que parece transformá-la, mas que não nos impede de entender o texto e manter aquela familiaridade com que lemos o português”, precisa o entrevistado.

O diretor do SNPC fala do livro como uma viagem ao que “Bernardo Soares (Fernando Pessoa) disse ser a sua pátria”, procurando também identificar a forma como a dimensão religiosa e espiritual aflora em diversos autores e épocas.

José Carlos Seabra Pereira reconhece que, no caso português e brasileiro, a sensibilidade espiritual está sempre presente na literatura.

O autor identifica épocas em que nos “meios intelectuais bem-pensantes e progressistas” surgiu a tendência de ignorar aqueles que manifestavam a sensibilidade pela dimensão religiosa.

“E esses escritores, apesar da sua dimensão universal, são hoje menos estudados só por causa desse preconceito”, acrescenta.

O especialista assinala que no panorama português, na última metade do século XX, “houve uma presença forte do religioso”.

Ainda que com sensibilidades diferentes, Seabra Pereira destaca o grupo ligado à revista ‘O tempo e o Modo’, num discurso que “pode passar por valores religiosos ou por uma inquietação metafísica”.

“O século XXI vê aparecer uma nova geração de escritores que se enquadram nesta dimensão, onde destacaria José Tolentino Mendonça e Gonçalo M Tavares”, prossegue.

Como católico, José Carlos Seabra Pereira reconhece que sempre leu os autores a partir da matriz cristã que o define, porém “sempre com o cuidado de fruir e retirar prazer estético” da leitura de obras literárias que possam diferir da sua visão do mundo e relação com Deus.

Está disposição de estar meio literário “sem armadura” ajuda a “ser sensível aos diversos matizes e mesmo levando à interrogação sobre a minha forma de viver essa relação com Deus”.

Com 800 páginas, o livro dedica 200 ao período das origens medievais até ao século XX; a época contemporânea mobiliza as restantes 600 páginas.

‘As Literaturas em Língua Portuguesa (Das origens aos nossos dias)’ é uma obra editada pela Gradiva.

HM/OC

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