Cultura: Redescobrir Santo Agostinho e «abrir caminhos de interrogação» num tempo de «Inteligência Artificial» é «extraordinariamente necessário» para a Igreja hoje – Paulo Ramos

Professor, tradutor e investigador em grego e latim, reconhece na Patrístrica uma «diversidade litúrgica, intelectual, retórica, homilética» a propor hoje 

Foto: Agência ECCLESIA/MC

Lisboa, 22 jul 2026 (Ecclesia) – Paulo Ramos, Professor, tradutor e investigador em Patrística e línguas clássicas, afirmou a importância de se redescobrir Santo Agostinho, autor que investiga, e a quem atribui “abertura de caminhos de interrogação”, que hoje importa realizar na Igreja.

“Num momento em que a própria humanidade enquanto tal é questionada, interrogada e desafiada, por exemplo, pela Inteligência Artificial, era extraordinariamente necessário, penso, de um enriquecimento indizível essa redescoberta de Santo Agostinho enquanto teólogo do corpo, conduzindo a Igreja a outros diálogos – diálogos de interrogação interior, de descoberta desafiante e, consequentemente, ousada em relação àquilo que é a sua própria vivência e sua própria linguagem”, sugere.

O investigador afirma a oportunidade para, a partir do carisma e inspiração de Leão XIV em Santo Agostinho, se poder “desconstruir uma certa imagem que se cristalizou” acerca do bispo de Hipona, como “alguém absolutamente obcecado com o pecado original e com uma convivência extraordinariamente difícil com o corpo”.

O autor defendeu recentemente a tese de Doutoramento, na Faculdade de Letras, na Universidade de Lisboa, «Lux, Verbum, Principium na interpretação hexameral de Agostinho. Tradução, comentário e notas de De Genesi ad Litteram Libri XII».

“No livro «Sobre a Trindade», que é uma obra absolutamente colossal que Santo Agostinho escreveu acerca do Ministério da Trindade, ele diz qualquer coisa como ‘estou absolutamente deslumbrado com estes pensamentos e grato pela possibilidade de os ter elaborado e escrito. Espero, anseio, que eles estejam o mais próximos possível da verdade’. Sempre me fascinou esta humildade em Santo Agostinho – não reivindicar a verdade para si, mas ansiar humildemente que aquele colosso que ele tinha acabado de escrever se aproxime por dignidade, mas também por caridade para com os irmãos, o mais possível da verdade”, indica.

Paulo Ramos descobriu as línguas clássicas, o grego e o latim, na juventude, altura em que se maravilhou com a Patrística, reflexões desenvolvidas pelos primeiros padres da Igreja.

“Estamos habituados a ver a Patrística e a classificá-la como sendo uma época dogmática, extraordinariamente obscurantista… Nada mais falso: foi de uma riqueza e de uma diversidade litúrgica, intelectual, retórica, homilética, capaz de hoje nos fazer corar”, sublinha.

“Houve uma série de pessoas que definiram, sem instrumentos prévios, uma forma – uma, entre várias – de verbalizar a fé. E eu acho isto assinalável. Esta ousadia de criar palavras para designar coisas que não existem, tem qualquer coisa de criador e com uma liberdade muito pedagógica, creio, até para a Igreja moderna”, acrescenta.

A descoberta das línguas clássicas aconteceu a par da descoberta da linguagem bíblica.

“Se nas línguas clássicas me fascinava a respiração, o ritmo, a liberdade, sobretudo a liberdade de dispor e de brincar, de encarar uma frase como se fosse uma dança, na linguagem hebraica e bíblica havia ali qualquer coisa de profundamente verdadeiro no sentido mais íntimo da palavra. A minha paixão pela poesia, se calhar, está mais relacionada com a descoberta do texto bíblico do que propriamente com a descoberta dos poetas clássicos”, explica.

Paulo Ramos é autor de orações partilhadas na Comunidade de Santa Marta, que se reúne no Hospital de Santa Marta, em Lisboa, e na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, dos Redentoristas, no Porto.

“A Eucaristia celebrada no local da fragilidade, o cuidado com os gestos, os cânticos, a disposição da Assembleia com o altar fisicamente no centro, desafia a vivência e interpretação da fé. A celebração da Eucaristia não é um privilégio de puros, mas é um dom gratuito, uma oferta para todos. Todos, irmãos em Cristo, caminhando na mesma esperança, sinodalmente, para um horizonte que nós sabemos de júbilo e de misericórdia”, assinala.

A conversa com Paulo Ramos pode ser acompanhada esta noite no programa ECCLESIA, emitido na RTP Antena 1, pouco depois da meia-noite, e disponibilizado no podcast «Alarga a tua tenda».

LS

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