Paulo Rocha, Agência Ecclesia

Os filmes com cenários apocalípticos, argumentos sempre próximos de permanentes ameaças e cenas a sobreviver pela tensão gerada por destruições globais nunca foram grande atração pessoal para umas horas nas salas de cinema. Isso não significa que o acontecer de cada dia seja olhado como um mar de rosas, sem problemas, longe de limites ou de fragilidades. E muito menos que o quotidiano se distancie do necessário esforço, do empenho permanente em definir criativamente objetivos para cada ocasião e assuma o constante compromisso com causas pessoais e sobretudo coletivas.

Nesta forma de ser e de estar, a pandemia em curso – como qualquer outra – teria cenas suficientes para não gerar grandes interesses ou curiosidades. Se fosse um filme! Não sendo, é da nossa história, faz parte do nosso quotidiano, passa por atitudes e comportamentos que temos de assumir empenhadamente para a conter e confiar à ciência a frente que for capaz de lhe fazer.

Depois, há um ponto de encontro onde um vírus está a colocar todos os humanos. Entre todas as vozes de todos os setores sociais – da política à ética, da economia à proteção social, do trabalho à família e do relativismo individualista à religião – a convicção é a mesma e certezas não são muitas, a não ser uma determinação: temos de cuidar uns dos outros!

Assim, na constatação de que um vírus chega a todos, independentemente de geografias, condições sociais, crenças ou etnias, mulheres e homens de todas as latitudes envolvem-se nesse compromisso, deixado normalmente ao cuidados de uma minoria altruísta ou benemérita. Porque, de facto, um vírus veio dizer que de nada vale proteger-se, criar muros, cuidar apenas de um “eu”. Esse cuidado não serve! Não serve agora como nunca serviu.

O envolvimento coletivo em torno da mesma causa – temos de cuidar uns dos outros – configura-se a uma proposta com 2000 anos de história: o cristianismo anunciado e vivido por Jesus. Não se trata de uma proposta do passado, antes de cada geração e cada vez mais urgente. Tem no centro uma palavra, amor, e descobre-se apenas quando se conjuga um verbo, amar.

Em tempos de pandemia, da incerteza que gera e da necessidade de criar pontos firmes que sejam de recomeços mais à frente, é maior o desafio dos “discípulosmissionários” de Cristo, convergindo vozes em torno da mensagem essencial, o cuidar uns dos outros que o verbo amar sobretudo conjuga, e com projetos e determinações que sejam apenas sinal disso mesmo!

A sucessão dos acontecimentos, a experiência de uma globalização que implica verdadeiramente todos, pela primeira vez, e o comum envolvimento no cuidar do outro, como imperativo principal em ordem ao bem comum, mostra que a vida é, de facto, viral. Que o seja, nesta e em todas as ocasiões.

PS. A Agência ECCLESIA inicia nestes dias um projeto de publicação de opinião sobre a atualidade que deseja envolver as várias dioceses e diferentes estruturas da Igreja Católica em Portugal. Uma ideia acalentada há algum tempo, que começou a ser proposta em cada dioceses, como bem apresenta a diretora do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais no artigo que marca o início deste projeto, e que vai continuar a chegar aos vários responsáveis diocesanos. Em causa não está – como nunca esteve – a ideia de falar a uma só voz, mas a certeza de que todos falamos em nome de uma só voz, a de Jesus Cristo. E temos por relevante a matriz cristã para a história que construímos nas circunstâncias de cada tempo!

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