Frei Hermínio Araújo aborda desafios ao desconfinamento, a partir da «Laudato Si» e da figura de São Francisco de Assis

 

Foto: Agência ECCLESIA/HM

Lisboa, 26 jun 2020 (Ecclesia) – O religioso franciscano Hermínio Araújo, que há vários anos acompanha doentes nos cuidados paliativos, afirmou que o debate sobre a legalização da eutanásia em Portugal, num contexto de pandemia, revela “falta de seriedade”.

“Temos de levar as pessoas a sério, levar o sofrimento das pessoas a sério”, apelou o superior do Convento Franciscano do Varatojo (Torres Vedras), convidado da entrevista semanal conjunta Renascença/Ecclesia que é publicada e emitida à sexta-feira.

Frei Hermínio Araújo lamenta o desconhecimento e a mistura de conceitos, no que se relaciona aos cuidados paliativos, lamentando a falta de atenção dos responsáveis políticos por este campo.

“Há evidência científica até à exaustão para perceber que a espiritualidade é uma mais-valia e o sofrimento existencial pode ser acompanhado. Introduzir o debate da eutanásia neste contexto é falta de seriedade”, insiste.

Uma semana depois da publicação, por parte do Vaticano, de um “manual” de aplicação da ‘Laudato Si’, na defesa da natureza e da vida humana, o religioso sublinha que o processo de mudança promovido pelo Papa Francisco “vai demorar muito tempo”.

“Há oportunidades que já foram perdidas, outras que vão ser perdidas, inclusivamente na vida da Igreja, se os responsáveis mais diretos acharem que isto é só um tema entre muitos outros, se não perceberem que este é o tema transversal a todos os temas”, sustenta.

No contexto da pandemia, tenho dito que depois de sair disto, não podemos pensar que vivemos fazendo as mesmas coisas de uma forma diferente. E também não é fazendo coisas diferentes, não, temos de ser pessoas diferentes. É para aí que temos de caminhar”.

Comentando o impacto da pandemia de Covid-19, o convidado adverte que há “muito sofrimento que não está a ser devidamente acolhido” e lutos por fazer, que exigem respostas.

“A chave de leitura do pontificado do Papa Francisco está na palavra ‘cuidar’, no verbo ‘cuidar’. E não é algo abstrato, é algo operativo, muito concreto”, acrescenta.

Recordando a tradição franciscana e, em particular, o ‘Cântico das Criaturas’ de São Francisco de Assis, frei Hermínio Araújo realça que “a conversão ecológica de que se fala é, sobretudo, uma conversão espiritual”.

“É a partir das coisas terrenas que nos aproximamos de Deus, porque quando julgamos que estamos em sintonia com Deus e fugimos do mundo, isso não tem nada de católico”, observa.

Para este responsável, é urgente uma “mudança ontológica, uma mudança do coração”, que valorize a relação com cada ser.

Ângela Roque (Renascença) e Octávio Carmo (Ecclesia)

 

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