«Não nos abandonem», lembra Renata Ferreira que partilha preocupação com realização de testes ao Covid-19

Lisboa, 24 abr 2020 (Ecclesia) – A diretora-geral da Comunidade Vida e Paz (CVP) afirmou hoje que as pessoas em situação de sem-abrigo “ainda estão com medo de ficarem sem alimentação”, e revela a “preocupação” de realizarem testes ao Covid-19 “porque muitas pertencem a grupos de risco”.

“Sem ser em estado de emergência, as pessoas têm oportunidade de arrumar carros, dirigirem-se a restaurantes, de pedirem, conseguem fazer fase às necessidades que vão tendo, e o que assistimos foi ficarem até sem esse tipo de recursos e diziam: “Não nos abandonem”, disse Renata Ferreira em entrevista à Agência ECCLESIA.

A diretora-geral da organização do Patriarcado de Lisboa que se dedica ao trabalho com a população sem-abrigo realçou que “a necessidade básica é a alimentação” e se em dias normais, antes do isolamento social, apoiavam “cerca de 430 pessoas por noite na cidade de Lisboa, distribuindo 430 ceias”, no espaço de uma semana foram “obrigado a duplicar essas ceias” e foi “muito difícil” porque no início estavam “a fazê-lo com recursos próprios”.

“Percebemos que muitas vezes a única refeição que faziam era a que distribuíamos cerca das 21h30, e foi um grande desafio”, explicou Renata Ferreira, adiantando que o aumento de pessoas “ultimamente” está relacionado “com o desemprego, as pessoas não terem recursos financeiros para manter o alojamento, a questão de emigrantes e dos reclusos, não existem respostas suficientes para poderem ficar alojados e apoiados”, e a CVP foi contactada por “algumas técnicas de reinserção social com objetivo de receber alguns desses reclusos” porque “as respostas que existem são insuficientes”.

Renata Ferreira conta que também perceberam que há pessoas que têm procurado centros de alojamento, “sobretudo as pessoas mais vulneráveis e mais frágeis”, e a CVP também dá essa informação mas “também há quem considere arriscado” ir para locais onde estão muitas pessoas juntas.

A realização de teste ao coronavírus Covid-19 às pessoas em situação de sem-abrigo, é “uma preocupação” da Comunidade Vida e Paz desde o início da pandemia, que tem “abordado essa situação” de acompanhar a questão da saúde, “monitorizar e perceber” porque muitas pessoas estão em “espaços muito degradados e não têm qualquer tipo de apoio”.

“Nós optamos por distribuir a informação logo no início através de flyers, de máscaras, mas para além disso também não temos recursos. Mas é uma preocupação porque muitas pessoas pertencem a grupos de risco”, referiu Renata Ferreira, exemplificando que têm o conhecimento de motorização através de equipas que “andam como os Médicos do Mundo que possam fazer isso mas sem nada de grande orientação”.

Elisabete Fernandes, Sandra Santos e Gustavo Grilo, voluntários da Comunidade Vida e Paz

A diretora-geral da CVP adianta que as necessidades, neste momento, são com os equipamentos de proteção individual (EPIS) e “manter as refeições” que têm distribuído, “550 refeições”, onde contam com o “apoio fantástico dos Salesianos que se disponibilizaram para confecionar” e as “refeições quentes que têm sido muito valorizadas pelas pessoas que estão na rua”, para além do apoio de outras empresas.

Neste contexto, refere que têm solicitado apoio, para que “serem criadas medidas para instituições com a Comunidade Vida e Paz”, e “desde o início” que se dirigiram “não só à Câmara Municipal de Lisboa, como à Estratégia Nacional para a Integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, junto do Governo e das várias instâncias”.

“O nosso apoio da rua é conseguir fazer com que as pessoas possam mudar de vida, a nossa missão não é matar a fome às pessoas. Nestes últimos tempos vimo-nos obrigado a estabelecer isso como prioridade. E precisamos de enriquecer as ceias que distribuíamos – uma sandes e uma bebida – porque muitas vezes as pessoas não faziam qualquer refeição”, explicou.

Segundo a Renata Ferreira quando foi pedido que todos ficassem em casa também tiveram “alguma redução no número de voluntário para prestar o apoio nas ruas”, porque pertencem a grupos de risco, mas fizeram um apelo e “as pessoas mostraram grande compaixão e solidariedade por quem está na rua”, para além de empresas e particulares que “apoiaram com donativos de géneros alimentares e monetários para esta difícil situação”.

“Têm sido pessoas fantásticas, quer os voluntários, quer todos os profissionais, tem sido muito importante a colaboração e o apoio deles, conseguimos muitas pessoas que já não estavam connosco a ir às ruas voltaram a mostrar a sua disponibilidade. Nunca reduzimos, sempre conseguimos manter as quatro equipas, as quatro voltas, desde o início da pandemia”, desenvolveu.

Atualmente, a Comunidade Vida e Paz tem a decorrer uma campanha para que as pessoas “possam ajudar através do donativo que o IRS permite”, para além de poderem fazer donativos “em géneros, quer em numerário”, e nas redes sociais têm informação a explicar como poderão fazer e organização do Patriarcado de Lisboa faz “questão de dizer onde foi aplicado o donativo”.

HM/CB

 

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