Docente universitária acredita que, depois da suspensão, as festas vão ser «mais intensas e vividas»

Foto: C.M. Ponta Delgada

Ponta Delgada, Açores, 04 mai 2021 (Ecclesia) – Piedade Lalanda, professora na Universidade dos Açores, afirmou à Agência ECCLESIA que as festas ao Espírito Santo, suspensas devido à pandemia, vão ser “mais intensas e vividas” porque “toca na identidade cultural” dos açorianos e “não é uma questão de velhos”.

“Este não é um culto de igreja mas um culto doméstico, as pessoas têm em casa registos, coroas e imagens do Espírito Santo, as pessoas agarram-se ao Espírito Santo mesmo fora das celebrações coletivas e acredito que em pouco tempo estas festas vão ser mais intensas e mais vividas, isto nunca aconteceu não se realizarem”, refere.

A docente partilha que, quando viveu em Lisboa,  se “emocionava imenso” sempre que ouvia o hino ao Espírito Santo, porque para um micaelense, ou açoriano, fora da sua terra, é “algo que toca na sua identidade e pertença”.

Devido à pandemia de Covid-19, as tradicionais festas ao Espírito Santo que acontecem em “qualquer rua ou lugar” e onde “qualquer pessoa se pode sentar para comer as sopas do Espírito Santo” não há condições para acontecerem. 

Esta fraternidade genuína não é compatível com os limites com que nos confrontamos neste momento, que às vezes nem os nossos de casa podemos abraçar muito menos na rua, com dezenas de pessoas”. 

A entrevistada aponta que o “povo açoriano é muito resiliente” e que esta “paragem” nas festas dá nova esperança.

“De alguma maneira aprendemos com a história a lidar com a sismicidade, as catástrofes, com o mar, faz parte do ser insular uma certa adversidade e esta relação cria alguma resistência a estas situações mais difíceis; a religião sempre serviu muito para lidar com isso, são uma resposta para estas pessoas resilientes que algo vai acontecer de melhor, tudo vai ser ultrapassado”, afirma.

Como professora na Universidade dos Açores, Piedade Lalanda lida diariamente com  a juventude e acredita que o culto ao Espírito Santo “não é uma questão de velhos” e tem uma “componente emocional muito forte”.

“Não é uma questão de velhos mas não sei até que ponto a religiosidade popular vai perdendo significado para uma juventude que faz carreira, entra na universidade e tem aproximação à ciência, às vezes um afastamento às questões tradicionais, mas estes símbolos são vividos em família e têm uma componente emocional muito forte, está ligado à própria identidade cultural das pessoas”, destaca.

O culto ao Divino Espírito Santo é uma das marcas da religiosidade popular açoriana. Desde o primeiro domingo de Páscoa até à Trindade, as ilhas vivem intensamente o Espírito Santo, onde as festas se desenvolvem durante vários dias, imbuídas de um ideal caritativo e compostas por um conjunto de cerimónias religiosas e profanas: a “coroação” do Imperador Menino, o desfile de cortejos e o bodo de pão e de carne.

As “Conversas na ECCLESIA” ficam online às 17h00, de segunda a sexta-feira desta semana, tendo como tema as festas religiosas na Diocese de Angra, nos Açores, e o impacto da pandemia nestas celebrações.

SN

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