A arte e a espiritualidade tendo artistas como companheiros

Foto: padre Adelino Ascenso

Lisboa, 06 ago 2020 (Ecclesia) – O padre Adelino Ascenso afirma que a arte conduz as pessoas à “soleira” e que no contacto com Afonso Vasconcelos ou Artur Bual viveu momentos de poesia e de procura de transcendência.

“A arte leva-nos à soleira, e depois damos o passo ou não damos. Eu diria que o pintor Artur Bual estava sempre na soleira. Talvez nós, estando na soleira, tenhamos medo do passo seguinte, porque é o desconhecido. Penso que isso acontecia com Artur Bual”, explica o sacerdote de 66 anos.

O jovem Adelino Ascenso conheceu o pintor Artur Bual quando era director artístico de uma galeria de arte em Leiria, depois de ter organizado uma exposição coletiva de pintores portugueses.

Com o pinto, diz, estabeleceu-se uma relação de amizade, ao ponto de ter a chave do seu atelier, na Amadora, local onde pernoitava assiduamente, depois de o acompanhar, “15 minutos a pé”, até sua casa e “comido a omelete que a sua esposa, Guilhermina, preparava sempre e deixava em cima da mesa”.

“Ele era um homem de grande espiritualidade, um homem que era esfomeado de transcendência e um buscador. Havia uma grande convergência com Artur Bual, principalmente na fome insaciável de transcendente e no significado para além da própria pintura”, lembra.

O padre Adelino Ascenso recorda uma noite, passada no atelier de Artur Bual, em que, sem conseguir dormir, ficou a olhar “algumas telas por terminar” e “um Cristo que fitava a pessoas que o fitavam”.

Ali fiquei a olhar esse Cristo e isso ajudou-me a entender o que ia no coração de Artur Bual, a sua vontade insaciável de fitar o transcendente. Nessa noite houve um diálogo com esse Cristo, disforme, sofredor mas muito sereno”.

Com Afonso Vasconcelos, o padre Adelino Ascenso viveu momentos de poesia, a conversar, “a escutar os desabafos”, e numa ocasião ouviu “«Amo muito a minha mulher». Isto é impressionante, até nisto há uma grande poesia”.

“Ele passava as noites, quando eu estava a conversar, quando eu não estava, a escrever poemas e muitas vezes, eu saia de lá, de madrugada, com uns poemas dele metidos no bolso. Foi um encontro muito poético que me ajudou a viver a poesia; não propriamente a escrever mas a viver a poesia”, recorda.

No bispo emérito de Leiria – Fátima, o padre Adelino encontrou um amigo que lhe ofereceu “uma das dedicatórias mais bonitas” que encontrou na sua vida: «… para que todas as horas de todos os dias de muitos anos sejam uma Liturgia»”.

“Continuamos a ser muito amigos. É uma das dedicatórias mais belas que eu alguma vez vi. É um itinerário de vida. Oxalá que eu pudesse cumprir”, afirma de D. Serafim Silva.

O padre Adelino Ascenso é o convidado de hoje no programa Ecclesia, na Antena 1 da rádio pública, pelas 22h45, e nas «Conversas aGOSTO», publicadas online de segunda a sexta-feira, a partir das 17h00.

LS

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