Diretora do jornal «Notícias de Gouveia» e correspondente da Rádio Renascença lamenta precariedade que limita exercício da profissão e fala de um país «a duas velocidades» que as pessoas não conhecem

Gouveia, 19 mai 2021 (Ecclesia) – A jornalista Liliana Carona disse que a imprensa regional “é o futuro” porque, se assim não for, as pessoas conhecerão menos a sua realidade, mas adverte para a precariedade “que anda de braço dado” com o jornalismo local.

“A pandemia ditou o encerramento de alguns jornais e o perigo que isso traz porque as pessoas sabem cada vez menos sobre a sua realidade. Não sabem porque ligam a televisão ou vão para os jornais e não encontram conteúdos da sua localidade”, indica a jornalista, diretora jornal «Notícias de Gouveia» e correspondente da Rádio Renascença na zona da Guarda, Viseu e Castelo Branco.

Jornalista desde 2007, com experiência em órgãos nacionais e locais, Liliana Carona adverte que a precariedade que conhece, também no jornalismo, reflita a qualidade da investigação e no espaço que é dado às regiões.

“Se um jornalista que já é precário, ganha pouco, está como correspondente – e há bastantes assim – não tem viatura própria, é pago à peça pelo trabalho que faz, tem família para sustentar em casa e vai ter durante o mês pensar nos trabalhos que vai ter de fazer para sustentar quem tem em casa, vai ter de adiantar gasolina para o seu carro, com sorte vai ser reembolsado num mês, isso dificulta tudo. Não pode haver uma boa reportagem, um bom trabalho assim. Naturalmente, colam-se às redações e à mesa”, lamenta.

Contra um jornalismo “repetitivo e preso à agenda mediática”, que perpetua estereótipos do interior, Liliana Carona assume que o carro é um instrumento de trabalho que lhe permite estar nos locais e falar com pessoas que nunca antes tinham visto um jornalista, conhecendo a realidade diária das pessoas.

“Por exemplo: a Rádio Renascença pediu-me uma reportagem para perceber como estava a decorrer o Censos nas regiões interiores e o apoio feito por parte dos recenseadores às comunidades mais isoladas. Fui ao concelho ao lado de Seia, visitar uma pequena freguesia e apercebi-me que meia dúzia de casas nem sequer tinham casa de banho. Conheci uma senhora, de 82 anos que, para fazer parte da higiene, ia a casa de um tio ou mostrou-me uma bacia onde fazia a sua higiene pessoal. Não é caso único. Na Régua é igual. As pessoas não têm noção de como muita gente vive mal”, recorda.

Liliana Carona assume o gosto por ir para o terreno e encontrar pessoas que possam contar histórias de vida , “histórias diferentes que nunca tenham sido contadas”.

A partir da mensagem do Papa Francisco para o 55.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, «Vem e Verás», as «Conversas na Ecclesia» desta semana vão destacar histórias de jornalistas que «gastam as solas dos sapatos» indo ao encontro das notícias onde elas acontecem e onde as pessoas as podem contar na primeira pessoa.

LS

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