Criada em 2007 pelo ativista informático Julian Assange, a controversa WikiLeaks veio abanar o mundo ao encetar a divulgação de dados informáticos e documentos confidenciais de interesse público. Assumindo-se como organização mediática sem fins lucrativos, define como principal objetivo o de fornecer informação relevante ao público, mais concretamente denunciando ilegalidades e imoralidades praticadas por governos, na sua maioria totalitários,  empresas e instituições religiosas, de modo inovador e garantindo a segurança e confidencialidade das suas fontes, com a apresentação de provas fidedignas da verdade.

Não tardaria por isso que o cinema lhe dedicasse atenção e eis que chega às salas portuguesas ‘O Quinto Poder’, primeira longa metragem de grande porte sobre o mais retubante derrame de informação da história da internet.

Dirigido por Bill Condon, o realizador e argumentista que teve o seu primeiro grande exito com ‘Deuses e Monstros’ (Oscar para melhor argumento adaptado), seguindo-se ‘Relatório Kinsey’, ‘Dreamgirls’ e dois episódios da saga ‘Twilight’, ‘O Quinto Poder’ centra-se na relação entre o fundador, redator e editor-chefe Assange e Daniel Domscheit-Berg, cérebro informático da operação WikiLeaks. Uma relação que progride, ou antes regride, da estreita amizade para a conhecida hostilidade que, naturalmente, veio tão agilmente a público quanto a informação que ambos até então divulgaram, acabando na demissão do informático alemão e porta-voz da organização em 2010.

Em causa, a divergência entre ambos sobre as consequências nefastas da divulgação integral dos ‘Diários de Guerra do Afeganistão’ e dos Registos da Guerra do Iraque, representando o livre acesso a cerca de quinhentos mil documentos confidenciais sediados no Pentágono.

Sob pena de ser consumido com a mesma voracidade com que público e meios de comunicação acederam aos documentos divulgados, o estilo inicial da narrativa segue um ritmo lento e ligeiramente entediante, sobretudo pelo excesso de terminologia informática. Na progressão, com o adensar das relações ora consonantes ora dissonantes entre as duas personagens centrais, Assange/ Domscheit-Berg, o filme arrecadará então um crescente interesse, aproximando-se do registo de thriller, capaz de agarrar o espetador.

A tensão entre ambas evidencia a premissa essencial do filme: a de consolidar a liberdade de expressão como princípio, fiel ou não, que preside à empreitada  de cada um dos fundadores do WikiLeaks.

É neste princípio, ou na discussão da sua aplicação, que reside a grande mais-valia de ‘O Quinto Poder’, oferecendo-se como bom ponto de partida para a eterna, difícil e sempre essencial reflexão sobre os limites dessa mesma liberdade, no dever de ponderação, inerente a qualquer comunicador, sobre o impacto e os efeitos colaterais da informação divulgada. Uma questão que é sempre e antes do mais de natureza ética, particularmente exigente quando vários valores entram em choque…

Margarida Ataíde

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