Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos alerta para «guetos horríveis em Beja» e assume necessidade de lutar «contra o populismo e anticiganismo»

Foto: Lusa/EPA

Lisboa, 15 set 2021 (Ecclesia) – O diretor-executivo da Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos (ONPC), da Igreja Católica em Portugal, disse que a visita do Papa Francisco a uma comunidade cigana, durante a viagem à Eslováquia “foi uma afirmação de que a Igreja é para todas as pessoas”.

“A visita teve uma grande importância porque na Eslováquia a comunidade cigana é uma das maiores da Europa de Leste: 400 mil pessoas, 8% da população da Eslováquia é cigana, é a maior ou uma das maiores minorias e há problemas enormes de pobreza, de miséria”, referiu hoje Francisco Monteiro à Agência ECCLESIA.

O Papa Francisco encontrou-se com membros da comunidade cigana, esta terça-feira, na Eslováquia, num bairro da periferia de Kocice, no leste do país europeu, onde cerca de 5 mil pessoas de origem cigana vivem em condições de degradação e pobreza, sem gás, eletricidade ou água corrente.

Esta visita do Papa tem um significado muito grande simbólico de afirmação de que a Igreja, como tem dito várias vezes, é para as margens e para todas as pessoas sem qualquer discriminação, sem qualquer distinção, está ao pé de quem está às margens da sociedade”.

O diretor-executivo da ONPC, organismo da Conferência Episcopal Portuguesa, destacou que a visita do Papa Francisco à comunidade cigana no bairro Lunik IX “é um exemplo” para o Governo Eslovaco, para a União Europeia (UE), “à qual a Eslováquia pertence”, e também para a Igreja Católica.

“Nesse bairro depois de terem saído todos menos os ciganos, a Igreja está reduzida aos Salesianos que têm trabalhado intensamente e corajosamente contra todas as adversidades locais”, acrescentou.

Na Eslováquia, a Igreja Católica desenvolveu-se entre a “minoria grande dos ciganos” e tem “10 padres e cinco religiosas” desta comunidade.

O Papa Francisco pediu o fim dos preconceitos, dos juízos cruéis e alertou que todos ficam “mais pobres, pobres em humanidade” e, neste contexto, o diretor-executivo da Obra da Pastoral dos Ciganos observou que “não tem papas na língua contra o populismo, a lutar pela igualdade, pela não descriminação, pela inclusão”, lembrando que a visita começou pela Hungria e é conhecida a posição do seu governo.

Essas palavras são o eco da política inicial da constituição da UE, um dos princípios a sociedade não pode prosperar através da exclusão de partes, de franjas da sociedade. É completamente errado do ponto de vista humano, do Papa, e da economia”.

Na sua intervenção, Francisco elogiou o sentido de família na tradição dos Rom, e o entrevistado destaca que é “uma das características da cultura cigana”, a cultura que é, de certa maneira, “a causa da discriminação dos ciganos, que estão em Portugal há 500 anos, e são cerca de “60 mil, 0,6% da população geral.

“Foram muito bem recebidos inicialmente como artífices e artistas e acabaram por ser excluídos, perseguidos, escorraçados. Querem manter a fidelidade à sua cultura e as leis da União Europeia dão todo o direito às culturais diferentes, o Papa vincou isso bem, diversidade faz parte do cristianismo, faz parte do amor fraterno”, acrescentou Francisco Monteiro.

No início do ano pastoral 2021/2022, o diretor-executivo da ONPC explica que no plano de ação destaca-se “a luta” pelo “problema gravíssimo dos nómadas compulsivos no Alentejo”, a luta contra o populismo e anticiganismo, e “o esfoço para que sejam os próprios ciganos a assumir o seu futuro e a responsabilizar-se por si e pela sua evolução”, um princípio básico da missionação.

“O princípio do gueto é mau, é gerador de conflitos e consagração social publica da descriminação mas entre guetos e barracas prefiro o gueto”, sublinhou, alertando que “há guetos horríveis em Beja” e elogiando “o bom exemplo” em Alcobaça.

CB/OC

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