CIBERHUMANITAS – Da conversão ecológica à paz do coração

Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Cuidar da criação é aprender a viver em relação. Desde a Laudato Si’ que este tem sido o percurso trilhado pelas mensagens papais no dia 1 de setembro. Este ano, procuramos, juntos, aprofundar a água viva da paz. Pode ser a serenidade de um lago que espelha o céu ou a suavidade de um riacho cujo tilintar pode levar o coração a um silêncio profundo, que reencontra a paz.

O primeiro reconhecimento quando fazemos uma experiência profunda com a natureza é que tudo na criação é um dom. Nada é merecido ou deve ser tomado, mas sim valorizado e acolhido. Daqui provém a crescente profundidade da relação nas mensagens que Francisco foi escrevendo por ocasião do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação. E quando uma relação se aprofunda, de tal modo que experimentamos um sentimento de familiaridade, nasce dentro de nós o sentido de responsabilidade.

A responsabilidade que produz efeitos concretos nos nossos comportamentos tem três vertentes: social, económica e política. Por isso, em 2023, o Papa Francisco propõe o passo político de reconhecer a necessidade de transformar os nossos corações, os estilos de vida e as políticas públicas. Revelam-se aqui três escalas que fazem parte da conversão ecológica de que o mundo tanto precisa: as da interioridade, do quotidiano e das estruturas. Ir da conversão ecológica à paz do coração implicou construir uma ponte temporal construída com base na ecologia integral.

Se tivéssemos de construir essa ponte com base em todas as mensagens a partir de 2015, com o despertar mais consciente para o valor da conversão ecológica, leríamos o seguinte:

  • em 2016 era necessário um exame de consciência;
  • em 2017 era necessário abraçar uma maior simplicidade e solidariedade;
  • em 2018 era necessário um olhar que ultrapassasse o imediato;
  • em 2019-2020, tempo da pandemia, foi preciso reconhecer o facto de que fazemos parte de uma rede de relações;
  • em 2021 devíamos ser generosos e retos no nosso modo de viver;
  • em 2022 era preciso escutar;
  • em 2023 nasceu a necessidade de transformar o coração, o estilo de vida e as estruturas;
  • em 2024 precisávamos passar do domínio ao cuidado;
  • em 2025, o cuidado da criação tornou-se inseparável da justiça e da paz;
  • e em 2026 tomamos consciência de que as feridas da Terra e da humanidade são um reflexo das feridas do coração.

Contudo, há um discreto fio condutor nas mensagens papais: a passagem da linguagem da proteção à linguagem da comunhão. Protegemos o que é exterior a nós, mas, na comunhão, somos reciprocamente transformados nos relacionamentos que estabelecemos.

O sacerdote passionista e ecoteólogo Thomas Berry tinha um aforismo que dizia: «O universo é uma comunhão de sujeitos, não uma coleção de objetos.» Ao chamar a atenção para a subjetividade de tudo o que existe, Berry pretendia alargar a visão que temos do universo à toda a família da criação. Porém, penso que seja necessário ir para além do binómio entre sujeitos e objetos. Na linguagem da comunhão, cada coisa existe enquanto relação. Por isso, existem entidades que se relacionam, cada uma no seu modo de existir, com escalas de tempo e espaço diferentes.

Sabemos como é difícil reconhecer a alteridade do inseto repugnante ou da montanha. Mas, como escreveu Nan Shepherd em A Montanha Viva:

«[…] há mais na luxúria por um topo de montanha do que um ajustamento fisiológico perfeito. E esse mais reside dentro da montanha. Algo se move entre mim e ela. O lugar e a mente podem interpenetrar-se até que a natureza de ambos seja alterada.»

Atravessar a ponte para chegar à paz do coração exige que nos deixemos transformar na relação que temos com cada elemento do mundo natural, até a água.

A transformação do coração é sobretudo interior porque a palavra não se refere ao órgão que bombeia sangue, mas à totalidade daquilo que nos vivifica. O mundo não aguarda que façamos a nossa parte, embora sejamos os únicos que compreendemos a linguagem da comunhão e a transmitimos à natureza pelo modo como nos relacionamos com ela. O mundo continua à procura do equilíbrio, adaptando-se. Nós é que podemos não estar adaptados, e o resultado ouviremos no clamor dos pobres. Ousemos ser puros de coração para elevar a criação, pela comunhão, a Deus.


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