Acontecimentos de 1917, na Cova da Iria, foram palco de forte polémica

As aparições de Fátima, em 1917, motivaram um despertar da consciência católica, após as convulsões provocadas pela mudança de regime, com a implantação da República a 5 de Outubro de 1910.

A posição é assumida por António Teixeira Fernandes, doutorado em Sociologia pela Universidade Gregoriana (Roma), em entrevista à Agência ECCLESIA.

“A partir do momento em que se deram as aparições, desde 13 de Maio de 1917, o governo sentiu-se um pouco perturbado, porque viu que esse movimento poderia pôr em causa o próprio regime político, para além da sua carga ideológica”, assinala.

O especialista lembra que “mesmo quando as peregrinações eram proibidas, o povo não deixava de ir a Fátima, arrostando com todos os sacrifícios e perigos. Foi o sentimento de fé do povo que impôs Fátima”.

Num período de forte instabilidade, a Cova da Iria não escapou à polémica e à disputa aberta entre facções do catolicismo e do republicanismo, tanto na imprensa como no próprio local das aparições.

“Na noite de 23 de Outubro de 1917, os carbonários de Santarém foram a Fátima e cortaram o tronco da azinheira onde Nossa Senhora aparecera. Só restava o tronco, porque os peregrinos haviam cortado todos os ramos para levarem consigo”, refere António Teixeira Fernandes.

A 6 de Março de 1922, “lançaram bombas nos quatro cantos da capelinha e também nesse tronco”, acrescenta.

“Numa situação de grande perturbação social, Fátima aparece como um suplemento de alma, como um sol radioso, dando esperança ao povo português. Não existem bombas que destruam as verdadeiras esperanças de um povo”, refere Teixeira Fernandes.

A edição especial do semanário Agência ECCLESIA que assinala as comemorações do centenário da República alude à dinâmica religiosa em torno das aparições de Fátima, como “epicentro de recomposição do catolicismo português”.

Para o historiador Tiago Apolinário Baltazar, “de certa forma, é através de Fátima que o catolicismo português se reencontrará consigo próprio”.

“As aparições de Fátima foram, na verdade, o mais importante fenómeno religioso do séc. XX português. Estas vieram, de facto, impor ao catolicismo nacional uma reconfiguração e uma resignificação”, escreve.

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